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Mostra de Walter Firmo revela o olhar icônico do fotógrafo sobre o negro brasileiro

Exposição que inclui retratos clássicos de grandes figuras brasileiras, como Pixinguinha, Cartola, Pelé e outros, está em cartaz no Memorial Minas Gerais

por Ana Clara Brant  no UAI

Festa de Nossa senhora do Rosário, no Serro, em Minas (foto- WALTER FIRMO:divulgação)

“Desses 81 anos, quase 82, você tira uns 15, divide, e o resto é só de fotografia”, brinca um dos principais fotógrafos do país, o carioca Walter Firmo. O jeito alegre e descontraído de levar a vida sempre se refletiu no seu trabalho. O ingresso na arte de retratar se deu por meio do fotojornalismo. O primeiro emprego foi em 1957, no extinto jornal Última Hora, do Rio de Janeiro. “Atuei como repórter fotográfico não de uma forma precisa como demanda o jornalismo fotográfico. Atrás da verdade intrínseca custe o que custar, aquela coisa meio obtusa. Eu chutava o balde; queria a poesia. Sem poesia não poderia viver”, ressalta.

Firmo – que é autodidata – sempre buscou a melhor luz, observava o ambiente em volta, tentando mostrar não apenas o massacre, as chamas de um avião que caiu, o homem que tenta matar o outro ou o incêndio que consome um prédio. “A vida não é só tragédia. Então, a fotografia também não pode ser”, frisa. Uma das temáticas mais constantes em seu trabalho ao longo dessas seis décadas de profissão foi a negritude. E é ela que norteia sua exposição que chega hoje ao Memorial Minas Gerais Vale, na Praça da Liberdade. O Brasil que merece o Brasil abrange 93 fotos feitas entre os anos de 1960 e 2017 e traça um panorama da cultura popular de diversas regiões, exaltando o papel do negro na criação e na preservação de nosso patrimônio cultural.

A mostra inclui retratos clássicos de grandes figuras brasileiras, como Pixinguinha, Cartola, Pelé, Clementina de Jesus e Arthur Bispo do Rosário, assim como registros de anônimos. Na abertura que ocorre logo mais, às 19h, Walter Firmo participa de um bate-papo com o público. “Embora eu tenha só um pouco de tinta negra (risos) e, por isso, muitos me consideram apenas mulato, eu sou negro. Sempre procurei mostrar os negros na minha produção fotográfica. E procurei retratá-los com dignidade”, comenta.

A exposição, que foi aberta em março de 2018 no Maranhão, percorrerá outros espaços culturais patrocinados pela Vale no Brasil. Walter é filho de dois paraenses – o pai, José Baptista, era de Monte Alegre, no interior, e a mãe, Maria de Lurdes, era de Belém – que se conheceram na Cidade Maravilhosa. É um apaixonado pelo Brasil. Entre os estados em que se sente mais à vontade está Minas Gerais. Não é à toa que a exposição reúne um núcleo mineiro com imagens de Ouro Preto, Serro, Congonhas e Januária. “Minas é muito latente na minha produção desde os meus primórdios”, pontua.

(foto: WALTER FIRMO/divulgação)

A curadora da mostra, Paula Porta, afirma que nas imagens das Geraes a figura do negro é especial. “O próprio Walter comenta que aí o negro é menos expansivo do que em outras regiões do país e com uma forte carga de emoção”, analisa. Ela acrescenta que fazer a seleção das imagens foi um trabalho extremamente prazeroso, mesmo se vendo diante de um acervo de cerca de 30 mil fotografias. A ideia do recorte da negritude veio em função dos 130 anos da abolição da escravatura, celebrados em 2018. “Fazer a curadoria chegou a ser emocionante, porque você olha a obra dele e é quase uma saga do povo brasileiro. Cada foto traz uma emoção, seja pela beleza visual, seja pelo impacto da cor ou pelo que está sendo retratado. Walter Firmo é uma mina preciosa de imagens”, salienta.

Foi Paula quem batizou a exposição de O Brasil que merece o Brasil. Não deixa de ser uma adaptação da música Querelas do Brasil, de Aldir Blanc e Maurício Tapajós, e que traz os versos “O Brazil não merece o Brasil/O Brazil tá matando o Brasil. “A gente olha para essas pessoas da foto e tem a certeza de que elas merecem o Brasil, apesar de o Brasil não tratá-las como elas merecem. É interessante que o público faça essa reflexão também. Essa exposição faz uma dupla homenagem: ao povo negro brasileiro e a um dos maiores fotógrafos desse país”, destaca.

Sem deixar o velho filme

Desde que Firmo começou no ofício, no fim dos anos 1950, a fotografia passou por uma revolução. Ele diz que acompanhou as mudanças, apesar de não ser muito adepto dessas “novidades cibernéticas”. Tenho máquinas digitais, claro, não sou tão à moda antiga, até porque a gente tem que seguir a evolução. Mas também não renego as minhas origens”, frisa. Recentemente, esteve em Paris e passou dois meses fotografando a Cidade Luz. A tiracolo, duas máquinas Nikon de filme. “Eu comprava os rolos e as fotos são todas em preto e branco. Revelei no Brasil e agora esta experiência vai se transformar em um livro. É assim: moderno e antigo. Passado e futuro. Te digo uma coisa: como sou do signo de Gêmeos e tenho a lua em Peixes, sou ambíguo. Sou vários Walter Firmo. Por isso essa diversidade”, diverte- se o fotógrafo, que passou por vários veículos de imprensa, como as revistas Realidade e Manchete e levou o Prêmio ESSO de Reportagem com o trabalho Cem Dias na Amazônia de Ninguém, pelo Jornal do Brasil, em 1963.

Pelo fato de ser filho único, Walter Firmo acredita que sempre preferiu estar, e, sobretudo, trabalhar sozinho. No início da carreira, almejava ser como o xará, o fotógrafo e cineasta paraibano Walter Carvalho. “Queria fazer a fotografia no cinema. Mas eu nunca achei que ia dar certo. Imagina um diretor me dando bronca na frente de um monte de gente? Não ia dar certo (risos). Sozinho, eu sigo o caminho que quero, sem interferências”, justifica. Mas ele chegou a sentir um pouco o gostinho de trabalhar com a sétima arte. Um amigo, o ator, cineasta e produtor Zózimo Bulbul, o convidou para ser o diretor de fotografia de um dos seus filmes, Pequena África (2002). “Ele sempre soube que eu queria ter essa experiência e aí me chamou. Por nós dois sermos negros foi muito importante e significativo fazer parte desse projeto, que tinha a escravidão e a negritude como temáticas”, revela Walter, que segue em plena atividade, viajando pelo país para novos registros, palestras e oficinas.

Foto tirada em Salvador, em 1997, faz parte da mostra que está no Museu da Vale (foto: WALTER FIRMO/divulgação)


Exposição de fotografias

O Brasil que merece o Brasil e bate-papo com Walter Firmo. Hoje, às 19h, Memorial Vale (Praça da Liberdade, 640, esquina com Gonçalves Dias). Entrada gratuita, sujeita à lotação do espaço, com distribuição de senhas para o bate-papo. Mostra em cartaz até 30 de junho. Terças, quartas, sextas e sábados, das 10h às 17h30, com permanência até 18h. Quintas, das 10h às 21h30, com permanência até 22h. Domingos, das 10h às 15h30, com permanência até 16h.

Arthur Bispo do Rosário foi uma das personalidades retratadas por Walter Firmo (foto: WALTER FIRMO/divulgação)

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