sexta-feira, dezembro 9, 2022
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Mucama do Publix: sobre ser ausente nos atos e agoras de uma periferia urbana

Tínhamos ruas iguais, as esquinas eram nossas e, todos os dias, os cheiros ministravam sobre micropausas. Éramos espectadores um do outro, mas uma TV dormia sempre acordada, enquanto a outra saía do prumo e acordava dormindo. Aquela igualdade toda, por assim dizer, era a vaga ideia que eu tinha do pedaço da realidade que me abordava aos finais de semana. Um sempre protagonizava o outro, para falar a verdade. Não existia essa coisa de figurante. Sabe como? 

Por  Bernard Teixeira Coutinho, enviado para o Portal Geledés

Arquivo Pessoal

Tudo era motivo para sair de casa, principalmente quando a rádio comunitária anunciava as promoções do dia e as atrasadas. Todos os pais e mães mandavam seus filhos descansados aos bares e mercearias. Os filhos iam, com trinta reais no bolso e com uma lista de compras, mas só voltavam na hora do ronco do sol. Ninguém queria largar a rua. O amor não era tanto pela farra, mas pelos pesadelos que íamos esfacelando, até chegarmos a um ponto qualquer, fora do portão de casa. 

A criançada reclamava dessa e de outras tarefas, de segunda à sexta; fora isso, tudo era motivo para o riso. Não à toa, a gente disputava um pedaço da praça do bairro para acendermos velas e pedirmos aos deuses por um tempo mais agitado na segunda e por um tempo vagabundo e vagaroso, aos sábados e domingos. Eles nos atendiam. Não era fé. Não era apenas isso, porque fé mesmo tinham os irmãos daquelas igrejas que abriam as portas em locais que, antes, eram açougues, locadoras etc. Nós não éramos irmãos, pelo menos não no sentido que os antropólogos gostam de empregar. O sentido da irmandade era construído ali, nos atos e nos agoras. Nenhum pai dormia com a mãe de ninguém. Não era assim que a banda tocava.

As mães desesperadas aguardando seus filhos, com aqueles reais que ainda valiam alguma coisa, iam acalmando seus corações. Sentavam no meio-fio e por lá ficavam. Conversavam, filosofavam, teciam o cotidiano. Tinha sempre aquela mais afoita que, preocupada em demonstrar sua falta de limite, pouco se lixava para o decoro e ia correndo atrás de um dos gêmeos, com um cabo de vassoura. A minha, que também era mãe de muitos, mediava a situação e abria uma garrafa de cerveja. As mulheres molhavam as palavras com aquela maravilha, gelada e encorpada. Os homens, pais ou não, faziam o mesmo. 

Tudo ganhava uma proporção gigantesca. Naquele tempo, nos idos de 1990, os galos ainda batiam cartão. Cantavam como nunca! E eram eles o nosso despertador, tanto para quem morava no coração da Jaqueira, um morro que abeiçava as telhas lá de casa, como para quem construíra suas casas em seus pés. Os galos cantavam (um era pouco para tantos corpos adormecidos) e a galera já acordava, num pique descomunal. Alguns, mais apressados e menos higiênicos, estacionavam na calçada com baba, bafo e um resquício de sono. O restante era cauteloso e tentava segurar a ansiedade. Era como se, adiando a felicidade, já pudéssemos antecipá-la. Eu fazia parte deste segundo grupo. 

Dos que moravam próximos a mim, dois ou três faziam o mesmo percurso. Era mais ou menos assim: um saía da rua da ponte, passava pela 19, rua onde eu morava; o outro, mais atingido pela distância, atravessava um outro bairro só para topar conosco e assim por diante. A 19 era o nó da rede. De lá, íamos caminhando até o Publix. Passávamos pelo trailer de Seu Vicente, próximo a um rio assassinado, pela casa de Adilson “maluco”, pela mercearia de Seu Donga, até chegarmos na rua do cicle.

O Publix era uma espécie de santuário. Quem quisesse ir a um mercado, tinha de dar meia volta. Quem ia ao Publix, não se preocupava em fazer compras. Todos saíam de lá com sacolas na mão, mas era quase obra do acaso. Digo isso porque a rua inteira era quase uma Assembleia Geral da ONU. Eu precisava tomar cuidado para não bater com a cabeça no letreiro do chaveiro, com o braço no Derby do jornaleiro, com as costas na banquinha dos ovos, com o traseiro nos óculos de plástico de um peruano e com outras partes do corpo em chineses recém-chegados. Era uma miscelânea cultural invejável.

A cidade se consubstanciava ali. E olha que nem comentei sobre a rua oposta. Já que me referi à rua principal, vale um comentário sobre ela. Era lá onde os cheiros estacionavam. A principal era a tal da Paul Leroux ou, como costumávamos chamar, “Pau lê rúqci”; a outra, a dos cheiros, vai ficar sem nome mesmo, porque me fugiu a memória. Mas ela cortava a rua do cicle, a mesma dos bailes quinzenais, do meu segundo barbeiro predileto e da moça dos geladinhos.     

Era nessa rua que peças de carne desembarcavam de caminhões brancos, de porte médio, e que peixes eram vendidos pelos próprios pescadores. Dava vontade de comprar tudo de todos, só de pensar na dificuldade que eles enfrentavam para encontrar peixes nos confins da Baía de Guanabara. As barracas buscavam equilíbrio, pois as mesmas eram montadas numa calçada enorme, colada com o muro dianteiro do Publix. É que ela apresentava uma leve inclinação. Era meio torta. Para os peixes, que enfrentaram por tanto tempo a poluição diária da Baía, desafiar a gravidade era questão de honra.

Por ali viviam significados muito complexos a uma criança. Eu, para falar a verdade, nem saberia dizer o que primeiro vi naquele espaço. Arriscaria dizendo que a quantidade de bicicletas justificava o nome da rua (além, é claro, da existência da própria loja). Ela emanava um cheiro de borracha de fazer inveja a Henry Ford. Foi lá onde meus pais compraram a minha bicicleta (pseudo)cromada. (Pseudo)cromada mesmo. Ela ostentou o seu brilho até a primeira chuva; depois, a ferrugem tomou conta do quadro inteiro. Devia se chamar solo de Canga e não bicicleta. Mas, enfim, pelo menos, dava para ir ao Publix no meio da semana, escondido dos meus pais. 

Os significados eram vivificados com golpes de praticidades, coisas que a gente descarta até hoje, ao passar por alguém, ao desviar o olhar, ao cagar e andar para a vida pública, como se quiséssemos privatizá-la. Às vezes, chegava em casa encharcado de cansaço e não sabia identificar a origem disso. Tentava colocar a culpa na minha falta de habilidade no futebol e dizia a mim mesmo que havia perdido energia tentando me igualar aos colegas boleiros. Olhava para o céu e desconfiava do sol, achando que a bolota de fogo estava tirando uma com a minha cara, sugando minhas energias e minha umidade. Mas não era nada disso. À época, deixei o barco ir e fui convivendo com a fadiga.

Eu não falava sobre a vida; eu, simplesmente, vivia. Quem falava sobre ela eram os amigos do Seu Vicente, que adoravam encher a cara ao som de uma seresta, ao vivo e a cores. Eu, não. Mas, ao longo do tempo, acumulando atos e agoras, fui sacudindo minha cabeça para encontrar um encaixe. Comecei a pinicar a minha adormecida vontade de falar sobre essa palavrinha, que mais parece um multiverso. E a minha primeira estratégia foi olhar para a cara de cada colega meu: olhava para os vizinhos, para suas casas e caras, seus gestos e, de quebra, tentava descortinar um possível segredo; olhava para os meus amigos, aqueles que topavam comigo, lá na 19, e nada. Nada me convencia. O cansaço ainda habitava o meu corpo.

Fui em busca de soluções em outros momentos. Na segunda, relia as situações pelas quais passava, na escola; na terça, a mesma coisa; na quarta, idem; na quinta, parava para assistir à minha programação favorita; na sexta, voltava a pensar sobre a vida. E nada. Nada acontecia. Nada aparecia. Prestes a me resolver com a minha própria ignorância e a me entregar à lassidão, recebi uma pancada bem no meio da testa (vai ver foi assim que ela se agigantou). Recebi, quase que de bandeja, uma indireta. Pode parecer bobice, mas foi só eu colocar os pés na “Pau lê rúqci” – a minha eterna e querida Av. des Champs-Élysées – para eu ser recompensado pelo trabalho que tive ao longo de muitos dias. 

Não houve milagre. Aliás, eu havia feito até uma promessa, lá na praça das velas acesas. Mas creio que não tenha sido obra divina. Jamais puxaria uma conversa com os deuses sobre a vida. Eles me achariam um tolo, afinal, são imortais. Falar sobre a eternidade deve ser algo bem mais complicado e eu, que ainda estava engatinhando e me enrolando todo com esse lance de vida, seria café com leite na conversa. Sabendo que não tinha sido milagre, resolvi abrir-me ao que esses intelectuais chamam de cotidiano. Parei num boteco que fica localizado entre a barbearia e o cicle, pedi uma Coca-Cola, guardei o troco no único bolso da minha bermuda Tactel, sentei na calçada, de frente para as costas do Publix, e comecei a refletir. 

Um detalhe: nesse dia, o sol comia o meu couro, e isso justificava o refrigerante. Minutos depois, precisei sair um pouco da quentura; então, resolvi entrar na barbearia. Lá, tinha ar condicionado e, além do mais, o meu cabelo já estava enorme. Embarquei no velho clichê – “Barbeiro tem família!” –, pedi para fazer o pé e aparar, sem mexer no meu topete (que não era moda desde a morte do Elvis, acredito eu). Depois do corte, voltei ao trabalho. 

Voltei para a calçada, mas nem precisei sentar. Durante o movimento de inclinação – momento em que o meu corpo já estava quase batendo no chão –, ouvi um berro: “– Aí, moleque, Mucama quer te conhecer, ó!”. Pintou uma dúvida, na hora: quem era, afinal, o moleque? Eu? Não, não era eu. Moleque era um morador daquela mesma rua, que vinha em minha direção. Logo após a identificação do tal moleque, me surgiu uma segunda dúvida: quem é Mucama? Repare bem: eu não quis saber o que era Mucama, porque eu, de fato, achava que este era o nome de alguma menina. Achei o nome horrível, diga-se de passagem, e acabei nutrindo ódio dos seus pais e uma irrelevante pena dela. Mas, só pelo nome. 

Tive de me acostumar com o nome e, pior, fui reparando que todos os garotos faziam referência a ela utilizando este nome, com um distinto sorriso de deboche. Quando dei por mim, estava eu reproduzindo a frase proferida pelo moleque escandaloso. Fui à rua 19 com essa coisa na cabeça, pronto para soltar o mesmo sorriso debochado. Se eles estavam se divertindo, com boca frouxa e tudo, pensei em fazer o mesmo. A diversão passou por dois estágios: inicialmente, a graça vinha do nome “Mucama”. Não sei se servia de porta de entrada para trocadilhos infantis ou coisa que o valha. A própria sonoridade da palavra me convocava ao riso. Eu rira com pessoas desconhecidas; depois, fui reparando que a graça não vinha do nome, mas da menina que emprestava a sua identidade ao nome Mucama. Passei, então, a rir de uma pessoa desconhecida. A graça foi para o ralo. 

Depois desse dia, aquela quase velha questão sobre a vida me pegou de jeito. Aquela fadiga, que se tornara uma perseguidora, aumentou. Não demorou uma semana e eu já estava achando que tudo era culpa do escárnio. Comecei a ter a impressão de que o nome, os deboches e a menina já estavam rodeando o meu subconsciente e que o cansaço era o resultado de uma tímida revolta. Como pode alguma coisa trazer revolta e, ao mesmo tempo, ser pauta para uma piada de mau gosto? Como pude ser inconstante e intransigente? 

No final de semana seguinte, quis rever este equívoco. Refiz o já referido caminho, dessa vez sozinho, montado em minha bike solo de Canga. Sentei na mesma calçada e, não reparando se tinha ou não sol, fui longe com os meus pensamentos. Promovi uma inquisição a mim mesmo. Fui infeliz nas minhas risadas e fiquei torcendo para rever aquela menina, acreditando ser possível enxergá-la com outros olhos. Refiz o caminho para refazer-me. Ela, por sua vez, desapareceu. “Mucama” continuou sendo chamada desse jeito.

Tempos depois, mudei de cidade. Mergulhei num hiato desgraçado. Fiquei sem rir por um bom tempo. O destino quis que eu retornasse à mesma cidade. Já mais velho e morando em outro bairro, próxima ao Publix, resolvi recompor o lugar. Voltei àquela calçada, à mesma barbearia. Fiz o mesmo esquema: com uma garrafa retornável de Coca-Cola na mão, pedi ao barbeiro que fizesse o pé e cortasse tudo, exceto a franja que ocupa o lugar do falecido topete. O cabelo ainda me ajuda a esconder a testa que, com o passar dos anos, virou um estádio de futebol. Estou ficando careca. Perdi cabelos, mas ganhei um pouco de experiência. Tentei usá-la naquela situação. 

Como não se combina nada com o destino, “Mucama” não apareceu. Não sei se o apelido ganhou a última geração, nem sei qual foi o destino daqueles moleques tão risonhos. Voltei sem nada saber. Fiquei com a sensação de ter voltado mais ignorante que antes. Devo ter razão. Agarrei a minha ignorância pelos cabelos e passei a frequentar as costas do Publix. Da minha faculdade para lá, era um pulo. Pausa para uma confissão: eu nutria um medo dentro de mim, um medo de não reconhecer “Mucama” e de não conhecer a menina (hoje, mulher) que encarnava o alvo de nossas gozações. 

Na minha cabeça, ela se fora com as pessoas que davam vida à linha do trem que bordava a cidade. O trem já não passava por lá, assim como Mucama. Dias depois, por acaso ou por necessidade sua, ela apareceu com os seus, naquela mesma calçada torta ocupada pelos peixeiros e pescadores. Não sei se as crianças eram seus filhos ou irmãos. De certo, não estavam do outro lado da chacota. Eles estavam juntos à mulher que, outrora, sofreu nas mãos de um sem número de desocupados (e eu era um deles). Enquanto eu tentava matar a sede com umas goladas de cerveja, entre uma tragada e outra no meu cigarro de filtro amarelo, ela falava sozinha com um saco na mão; ela se curvava sem haver reza. Foi o que pude ver, de rabo de olho.

Moradores, pedestres, ciclistas, motoristas e pessoas perdidas costumavam jogar lixo naquele local. Cansei de ver cabeça de boneca, fraldas sujas, garrafas e mais garrafas de cerveja, suco, refrigerante. Via bichos mortos e mortos vivos. Pessoas ganhavam a vida ali, mas não no sentido de recompensa, é claro! Vez ou outra, famílias inteiras passavam por ali, depois de atravessarem uma galeria, ao lado do Publix, cheias de sacolas, estufadas de tanta fartura. Os mais cristianizados não desviavam o olhar e cumprimentavam os famintos: o filho mais novo, carregando um tamagotchi – um brinquedo japonês, vendido ao lado da barraca do peruano que, agora, deu para vender relógios fabricados nos Tigres Asiáticos e bijuterias das Ilhas Salomão – abria um sorriso enorme à criança que revirava o lixo, mas ele o fazia apertando suas mãos para o menino da linha do trem não bater o olho em seu novo passatempo; seus pais, antes de entrarem no carro, também abriam um sorriso e, com a maior cara de pau, sabendo que àquelas pessoas fome não é mero substantivo abstrato, desejavam um lindo dia. Esse tipo de abordagem era uma coisa corriqueira, inclusive. Apesar do fluxo constante de pessoas caridosas de caridade encardida, “lindo dia” parecia ser uma derivação de um dialeto totalmente inaudível aos que recebiam o recado. 

Era este, por assim dizer, o tom do local de desova. E os cheiros, por sua vez, se multiplicavam. A essa altura, não saberia dizer se o cheiro de carniça – que constantemente sentia – vinha dessa gente tosca des-a(l)mada, dos peixes da Baía ou simplesmente do lixo que, aos poucos, se transformava numa espécie de cordilheira de rejeitos. Ali estava “Mucama”, um pouco modificada por fora, num lugar imexível. Tudo estava igual e, ao mesmo tempo, tudo era desigual.

Quase vinte anos mais velho, ainda objetificava “Mucama” nas minhas observações, tão hostis quanto aquelas pessoas desacostumadas com o peso da realidade. A cada passada de olho, nela e nos meninos, vinha-me à cabeça a Maria de Castro Alves, a Lucinda de Joaquim Manoel de Macedo, a Felicidade de Machado de Assis, as mucamas de Gabriel O Pensador, de Margarida Ottoni, de Nei Lopes, Carlos Galhardo e Gilberto Freyre. Comecei a ler-me, por dentro e por fora, e a conviver com a minha vergonhosa branquitude, atrelada a um passado recente de sexismo e misoginia disfarçada de meninice. Enfim, descansei a minha insignificância no sopé da figuração, no meio de uma cidade ainda escravocrata. Ao fazê-lo, revi(li) a Mucama-mor das estrelas, de Abdias do Nascimento, e nela reencontrei Mucama do Publix, também acometida pela solidão, no meio de toda essa gente.     

 

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** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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