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Mulheres negras empreendedoras na cidade de Salvador

Logo após a abolição da escravatura, a população feminina da cidade de Salvador era formada basicamente por africanas recém libertas da condição de escravas. As ex-escravas que nesta cidade permaneceram, encontraram dificuldades para adentrar ao mercado de trabalho, restando a elas procurar sobreviver de forma autônoma vendendo alimentos e objetos diversos. Nasciam aí as primeiras mulheres negras empreendedoras da cidade de Salvador.

No século XX, após a Abolição, já havia uma população de mulheres negras nascidas na cidade de Salvador. Elas nasceram livres e sem o peso da escravidão, mas ainda carregando o estigma de serem descendentes de escravos, fato esse que continuou lhes dificultando o acesso à educação e ao mercado de trabalho. Essa dificuldade fez com que a população negra feminina continuasse à margem da sociedade produtiva formal. A elas coube novamente atuar de forma independente, como empreendedoras numa alusão ao fato de que o empreendedorismo nem sempre decorre de uma opção formal.

O século atual tem se contextualizado por inúmeros avanços tecnológicos, o que teoricamente traria muitas oportunidades profissionais para a classe trabalhadora em geral. Salvador cresceu e é hoje a quarta capital do país em termos de população segundo o último censo do IBGE realizado em 2002. A maior parte de sua população é formada por afro-brasileiros, a maioria mulheres, no entanto para essa maioria a situação econômico-social continua igual ou pior que nos séculos passados. O acesso à educação de qualidade e consequentemente às boas oportunidades do mercado de trabalho continuam difíceis, obrigando-os a buscar alternativas no mercado informal trabalhando por conta própria e posteriormente transformando-se em empreendedores informais.

Baseado na historicidade do empreendedorismo entre as mulheres negras, o ramo da alimentação ainda é o que mais abriga essas empreendedoras. De vendedoras de rua à donas de restaurante, a verve culinária dessas mulheres vem sendo fundamental para prover-lhes o sustento. A maioria, no entanto, continua na informalidade, o que faz com que seus “empreendimentos” sejam apenas um meio de sobrevivência sua e daqueles que com ela trabalham.

Dentre essas empreendedoras um pequeno número vence as dificuldades de desenvolver ações empreendedoras sem o conhecimento das etapas formais que compõem o desenvolvimento de um empreendimento. Esse é o caso da de muitas empreendedoras da cidade de Salvador que, a exemplo de outras afro-brasileiras não tiveram acesso à educação e por isso encontraram dificuldades de inserção no mercado de trabalho. Segundo foi visto, o empreendedor pode surgir por conseqüências alheias à sua vontade como no caso dos herdeiros e os desempregados (BERNARDI, 2003, p.64).

Se o conceito de empreendedor pode ser compreendido como aquele que “combina a paixão por uma missão social com a imagem de disciplina, inovação e determinação” (DEES, 1998); o exemplo de alguns tipos de empreendedoras a exemplo das “baianas de acarajé” é um case clássico. Elas iniciam sua trajetória por questões circunstanciais e fortemente vinculadas às necessidades financeiras. Trajetória pautada por barreiras sociais em três dimensões: ser mulher, ser negra e ser pobre.

A história da empreendedora em questão vem “derrubar” certos mitos criados ao longo do tempo sobre a figura do empreendedor. Ao contrário do que foi descrito nos conceitos usados em diversas revisões bibliográficas que mostram o empreendedor como um ser do sexo masculino, as mulheres empreendedoras usam sua feminilidade dentro de seu empreendimento, sempre usando a docilidade característica da mulher, porém sempre agindo com firmeza de uma líder perante seus subordinados. Outra fundamentação muito usada nos conceitos de empreendedor mostra que este deve estar sempre voltado para o moderno, porém é possível empreender usando elementos da tradição. E isto se torna um diferencial. Ainda segundo estes mesmos conceitos, o empreendedor é um ser sempre voltado para o lucro, não importando, portanto a estética do empreendimento, fato não justificado por algumas empreendedoras que tem na estética negra e africana o diferencial de suas ações empreendedoras. Essa estética é notada na decoração de seus negócios, com móveis rústicos e imagens de santos e orixás que remetem à religiosidade.

Uma das razões para o sucesso de algumas empreendedoras foi ter construído redes de relacionamento tanto pessoais quanto profissionais com pessoas que puderam, ao longo de sua trajetória, ser importantes no seu desenvolvimento enquanto empresária.

Conclui-se então que as mulheres negras da cidade de Salvador, sobretudo aquelas que se sobressaem, têm construído suas ações empreendedoras por meio da criação de redes de relacionamento, utilizando-se de elementos tradicionais aliados a projetos inovadores.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERNARDI, Luiz A. Manual do Empreendedorismo e Gestão: fundamentos, estratégias e dinâmicas – São Paulo: Atlas, 2003

DEES, J. Gregory. O significado de empreendedorismo social. Stanford, CA: Universidade de Stanford, 1998

 

Fonte: WEB Artigos

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