Mulheres querem a caneta por Flávia Oliveira

Três meninas de 14 anos expulsaram do ônibus homem acusado de tentativa de estupro no dia em que importunação sexual virou crime

por Flávia Oliveira no O Globo

Foto: Marta Azevedo

Virou mantra na corrida presidencial que as mulheres vão decidir as eleições de outubro. Em verdade, brasileiras são maioria no eleitorado desde 2006 — ou seja, há uma dúzia de anos são decisivas nos pleitos. Para ficar no exemplo mais fresco, em 2016, no Rio de Janeiro, o candidato do então prefeito, acusado de violência doméstica, ficou fora do segundo turno. A arrogância da velha política minimizou o episódio; as urnas deram o veredito. Em 2018, o espectro do voto feminino ronda novamente o imaginário. Mas não apenas pelos 73 milhões de eleitoras habilitadas; sobretudo, pela decisão coletiva de assumirem o protagonismo no processo político. Se nem todos estão convencidos da guinada, talvez seja pela presença minoritária das mulheres entre formadores de opinião, como de resto em todas as estruturas de poder no Brasil, da política ao mundo corporativo, passando pelo Judiciário. É isso que está em jogo.

Muito já se falou sobre as catárticas campanhas contra assédio sexual, que eclodiram no último par de anos. Terça-feira passada, mesmo dia em que foi sancionada a lei que tornou crime a importunação sexual, três meninas de 14 anos expulsaram de um ônibus um homem acusado de tentativa de estupro de uma mulher com mais que o dobro da idade delas. Fui adolescente nos anos 1980, quando assédio no transporte público era recorrente. Para evitar o crime, mulheres trocávamos de lugar, nos encolhíamos no banco, descíamos do ônibus, nos protegíamos com a bolsa. Uma vizinha me sugeriu ter em mãos um alfinete grande de fraldas — sim, naquele tempo as descartáveis eram residuais — para exibir quando o tarado se aproximasse — não, naquele tempo eles não eram identificados como abusadores nem estupradores. Por medo, nunca levei o alfinete. Tampouco passou pela minha cabeça reagir. Minha estratégia era acordar mais cedo, enfrentar fila e viajar sentada na janela. Se as jovens de hoje confrontam os criminosos, é porque os tempos muda

Ações espontâneas que se espalham em progressão geométrica são a gênese da articulação feminina nas redes. Em duas semanas, a página “Mulheres unidas contra Bolsonaro” agrupou três milhões de pessoas no Facebook — mesmo depois de invadida e derrubada por hackers — e mobilizou no Twitter 388 mil perfis, que aderiram às hashtags #elenão, #elenunca, #mulherescontrabolsonaro e #mulherescontraofascismo. Fabio Malini, do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic/Ufes), vê semelhanças com a Primavera Árabe: “Há um ecossistema que vai juntando várias páginas com grande audiência formando um grupão”. O perfil mais influente foi de uma adolescente que só tinha 1.600 seguidores, mas teve num único post 71 mil curtidas e 50 mil compartilhamentos.

A viralização explica a escala avassaladora de convocações para as manifestações de rua, amanhã, contra o candidato que encarna a insatisfação de quem defende a estrutura convencional de poder, masculina e heterossexual. Mas se engana quem pensa que essa agenda é virtual. Há mulheres organizadas para dar visibilidade e atrair votos para candidatas negras, caso da Rede Umunna. Ou o site “Por quê? Economês em bom português”, em que economistas esmiúçam planos de governo dos presidenciáveis. Já não se trata apenas de um candidato prometer num debate construção de creches e atenção à saúde, mas de o Brasil explicar por que, apesar da maioria esmagadora entre as educadoras, dos anos 1930 até hoje só teve uma ministra da Educação (Esther de Figueiredo Ferraz, 1982-1985).

Mulheres querem banir políticos avessos à igualdade de gênero, mas também participar das decisões de políticas públicas e repartição orçamentária. Não é sobre testemunhar assinaturas, mas ter a caneta.

Dois meses atrás, ativistas grafitaram frases com pautas feministas sobre direitos sexuais e reprodutivos numa pista de skate em Maceió (AL). A reação foi intensa. Começou com ofensas misóginas e lesbofóbicas na internet. A prefeitura acionou a polícia para punir o que considerou vandalismo de patrimônio público. As investigações varreram perfis nas redes sociais. A ONG feminista Ateliê Ambrosina reivindicou a autoria coletiva e a hashtag #quemfezessepixofuieu viralizou entre mulheres anônimas e referências locais. A caça às bruxas cessou.

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