Na rota das remoções: gente negra e conjuntos habitacionais em Brás de Pina

O bairro de Brás de Pina está localizado na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente, na região da Leopoldina, e faz fronteira com os bairros de Cordovil, Penha, Penha Circular, Parada de Lucas, Vista Alegre e Irajá. Esses bairros compõem parte do que chamamos de subúrbio carioca. De uma maneira geral, o subúrbio carioca é, muitas vezes, caracterizado pelo recorte da linha férrea, pelo movimento das ruas, pelo crescimento das favelas e da violência nas comunidades. Realmente são muitos aspectos que vibram e pulsam no subúrbio do Rio de Janeiro. No entanto, o exercício de reescrever a história de parte desse local – Brás de Pina –, tão esquecido pelas políticas públicas, se faz necessário para entender muitos meandros da vida de indivíduos negros e negras nessa região, no passado e no presente.

Por meio do desenvolvimento do projeto História Local e o ensino das Humanidades: do reconhecimento à valorização da comunidade escolar e de seus sujeitos históricos, buscamos investigar as histórias em torno do bairro de Brás de Pina (RJ) e problematizar as intersecções entre a história local da comunidade escolar – o Colégio Estadual José de Souza Marques – e o bairro em questão, no qual a referida escola está situada. O projeto é coordenado pela Profa. Dra. Marcia de Almeida Gonçalves do Núcleo de Estudos sobre Biografia, História, Ensino e Subjetividades (NUBHES), laboratório vinculado ao Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e tem financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). A partir da pesquisa científica atrelada ao Ensino de História na educação básica, buscamos fomentar a ação dos discentes e docentes na produção de narrativas históricas e na valorização das memórias locais. Assim, busca-se reconhecer a agência social, política, cultural e histórica dos sujeitos nesse processo.

O bairro carioca de Brás de Pina tem esse nome devido a um português que possuía terras e um engenho de açúcar naquela região durante o século XVIII. Ele era um conhecido contratador de pesca de baleias e também tinha terras em Armação de Búzios, situada na região dos Lagos do Rio de Janeiro. Para escoar a produção de açúcar e o óleo de baleia, construiu o Cais de Brás de Pina, localizado na Estrada do Porto Velho, local que leva esse nome até hoje, e que depois ficou conhecido como Cais dos Mineiros. O engenho de Brás de Pina estava localizado na Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação de Irajá, a mais antiga freguesia rural do Rio de Janeiro.

Ao longo do século XX, com o advento da ferrovia e da reforma Pereira Passos, as terras de Brás de Pina foram sendo loteadas por companhias agrícolas e/ou imobiliárias e pela ação dos próprios moradores da região. Já em finais da década de 1960, uma política de remoção de favelas empreendida pelo então governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, promoveu a construção de muitos conjuntos habitacionais nas zonas norte e oeste do Rio de Janeiro. Conjuntos habitacionais como Cidade Alta, Guaporé, Quitungo, Bento Cardoso, Regina e Vila Esperança estão localizados em Brás de Pina e adjacências e foram concebidos para abrigar a população atingida por tal política de remoção – população essa, em sua grande maioria, composta por negros e negras.

Os conjuntos do Quitungo e Guaporé, localizados na Estrada do Quitungo e na rua Guaporé, respectivamente, tinham como objetivo principal receber os moradores da favela da Catacumba, situada nas proximidades da Lagoa Rodrigo de Freitas. O jornal Correio da Manhã acompanhou por meses a remoção dos ditos favelados e pontuou, em reportagem do dia 27 de novembro de 1970, a agência dos moradores nesse processo. Segundo o periódico, o Sr. José João Valdevino, presidente da Associação da Favela da Catacumba e residente do conjunto Guaporé, construía uma projeção positiva sobre as remoções para esses novos espaços de vida – os conjuntos habitacionais: “a mudança é como se a pessoa nascesse de novo. Enfim podemos receber visitas, sem constrangimento e já estamos providenciando a formação de um condomínio e a contratação de um servente para fazer a limpeza do prédio”.

O otimismo e a esperança dessas pessoas quanto a melhores condições de habitação e o acesso à água e luz duraram pouco tempo. Nos primeiros meses de 1971, os moradores já sofriam com alguns problemas estruturais. As mais de 2.200 famílias vindas da favela da Catacumba foram transferidas para os conjuntos residenciais do Quitungo e do Guaporé com a promessa de que não pagariam água, luz, esgoto e aluguel nos primeiros três meses. Depois disso, uma mensalidade seria cobrada correspondente a casa própria e as demais taxas de fornecimento básica para a vida nesses conjuntos habitacionais. No entanto, os custos posteriores foram bem maiores que os benefícios inicialmente assinalados.

Conjunto Habitacional (COHAB) na Estrada do Quitungo, no bairro de Brás de Pina, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, s/d. Fonte: Arquivo Nacional, Fundo: Correio da Manhã – BR RJANRIO PH BR_RJANRIO_PH_0_FOT_06610_001.pdf.

Ainda segundo o Correio da Manhã, os novos moradores tinham uma vida muito diferente daquela da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Lá, por residirem próximo de seus locais de trabalho, não tinham custos de transporte. Alguns mantinham três empregos e estudavam. Não havia gastos com água, luz, esgoto, aluguel. Além disso, é apontado pelo jornal o fato dos apartamentos serem pequenos e não comportarem confortavelmente o tamanho das famílias. Ainda destaca o péssimo acabamento dos prédios, a falta de área de lazer para as crianças e a inundação dos apartamentos em dias de chuva. Sendo a única diferença para a favela o fato de que, nos conjuntos habitacionais, eles não precisavam carregar água. Vale destacar a projeção de uma nova organização social, modernizada e hegemônica (e porquê não dizer eugênica), para essa população a partir de sua desterritorialização das antigas favelas em que residiam e uma reterritorialização nos conjuntos habitacionais, buscando até desarticular os modos de vida e sociabilidades da gente negra daqueles antigos espaços (favelas) que tem, em seu cerne, uma perspectiva de aquilombamento e articulação de um sistema alternativo de vida social, como bem destacado por Beatriz Nascimento.

Isso fica evidente em alguns relatos orais compilados durante a pesquisa. Um dos professores do Colégio Estadual Professor José de Souza Marques, no qual o referido projeto é desenvolvido, é um desses moradores oriundos da favela da Catacumba. Nascido no Ceará e chegando ao bairro de Brás de Pina ainda criança, ele lembra que muitos moradores locais ficaram insatisfeitos com a vinda para o subúrbio e até relatavam que preferiam ter ficado lá – na favela da Catacumba. Os moradores tinham suas vidas e seus trabalhos estabelecidos nos bairros da zona sul, como Ipanema e Leblon. Além disso, o professor cita que, apesar do bairro suburbano oferecer muitas linhas de ônibus, a dificuldade de se deslocar pela cidade era grande. E, com base em seu depoimento, supomos que a oferta de empregos fosse pequena em Brás de Pina naquele momento, já que o entrevistado não citou grandes fábricas e comércio na região. Ou seja, podemos concluir que houve uma tentativa de exclusão social e de manutenção da marginalidade para esta população (em sua maioria, composta por gente negra) oriunda das favelas cariocas que eram direcionadas aos conjuntos habitacionais em Brás de Pina. Mas sem reduzir a agência desses sujeitos, que diante dessa nova realidade, transformaram suas vidas e as dinâmicas locais naquele bairro carioca.

O trabalho com histórias locais é de suma importância para a escrita da História, uma vez que oportuniza a escuta atenta das vozes daqueles que, muitas vezes, são marginalizados pela sociedade e historiografia brasileiras. Uma política de remoção planejada não encerra as experiências, sentidos e estratégias dos sujeitos históricos, sobretudo da gente negra. Ao longo do tempo, os conjuntos habitacionais e o bairro de Brás de Pina como um todo têm sofrido com a falta de políticas públicas e o aumento da criminalidade e violência. No entanto, a partir de práticas docentes engajadas, ligadas à história desse lugar, buscamos reconhecer esses sujeitos históricos e construir uma memória social local mais digna e inclusiva. Sendo assim, o exercício de escuta, registro e análise de depoimentos e entrevistas são fundamentais para a realização de um trabalho que envolve vários sujeitos – alunos, professores e moradores de Brás de Pina – para a construção de outra história que potencialize essas vozes e experiências de vida.

Além disso, a pesquisa documental associada à história oral nos possibilita a formação de discentes na prática científica do Ensino de História e nos permite transformar a Escola em uma grande produtora de narrativas historiográficas antirracistas, ampliando assim o letramento histórico em nossa sociedade.

Assista ao vídeo da historiadora Rita de Cássia Ribeiro da Silva no Acervo Cultne sobre este artigo:

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

Ensino Fundamental: (EF09HI03) Identificar os mecanismos de inserção dos negros na sociedade brasileira pós-abolição e avaliar os seus resultados. (EF09HI05) Identificar os processos de urbanização e modernização da sociedade brasileira e avaliar suas contradições e impactos na região em que vive.

Ensino Médio: EM13CHS101 (Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais); EM13CHS502 (Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas etc., desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade, preconceito, intolerância e discriminação, e identificar ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às liberdades individuais); EM13CHS503 (Identificar diversas formas de violência – física, simbólica, psicológica etc. –, suas principais vítimas, suas causas sociais, psicológicas e afetivas, seus significados e usos políticos, sociais e culturais, discutindo e avaliando mecanismos para combatê-las, com base em argumentos éticos).


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE.

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