Não era minha hora, diz ferido na Chacina da Candelária no Rio

 

Wagner dos Santos esteve marcado para morrer. Ele se tornou a principal testemunha da chacina da Candelária, em julho de 1993, quando oito meninos foram mortos nas proximidades da igreja no centro do Rio.

Entre os que foram atingidos por tiros, ele foi o único sobrevivente. Na época, em torno de 70 menores viviam nos arredores da Candelária.

O testemunho do jovem com então 21 anos ajudou no indiciamento de cinco policiais militares como autores do massacre.

Após 20 anos, a mágoa ainda é grande. Aos seis anos de idade, perdeu a mãe e foi entregue a outra família.

Órfão e sem contato com suas irmãs, foi parar na Funabem (Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor).

Estudou até a sétima série e depois fez bicos para sobreviver. Em 1993, tomava conta de carros nas proximidades da igreja da Candelária, no centro do Rio.

Quando tinha dinheiro, dormia em hospedarias ali perto; quando não, passava a noite na rua.

Os irmãos só se reencontraram após a chacina, quando Wagner foi reconhecido por Patrícia de Oliveira, uma das irmãs, ao aparecer na televisão.

O reencontro aconteceu em 1994, quando ele estava prestes a deixar o país após ter sido alvo de um atentado, na Central do Brasil. A partida para a Suíça foi mediada pela Anistia Internacional, por meio do ex-ministro da Justiça José Gregori.

Antes de deixar o país, fez um curso de hotelaria em Brasília. Na Suíça, trabalhou em obra, em hotel, como padeiro e serralheiro. O contato com a família no Brasil é apenas por telefone. Wagner liga com frequência para Patrícia.

Ele tem visto permanente de residência na Suíça e pretende se aposentar por lá. Tem a saúde debilitada. Na chacina, levou quatro tiros; no atentado, outros quatro.

Uma bala ficou alojada na coluna, o que provocou envenenamento por chumbo, além de sequelas físicas e psicológicas. Teve perda parcial de visão, audição e paralisia em parte do rosto.

Longe do Brasil, aos 41 anos e com problemas na fala, o sobrevivente conversou com a Folha por telefone e deu seu relato com lembranças da chacina e como tem sido sua vida.

Folha – O que o sr. lembra da noite de 23 de julho de 1993?

Wagner dos Santos – Vi que tinha uma muvuca com os policiais que prenderam um rapaz [que cheirava cola]. O menino ficou revoltado. Éramos muito amigos.
Quando ele saiu da delegacia, me disse que não ia ficar ali [na Candelária] porque alguém ia passar para acertar as contas.

Por volta da meia-noite, eu ia comprar cigarro. Tinha um Chevette parado e os caras me chamaram. Um deu um tapa no rosto de um menino, me deu uma coronhada e me botou dentro do carro. Atirou em mim e eu desmaiei. Quando acordei, estava no MAM (Museu de Arte Moderna).

Levantei, vi três meninos deitados no chão. Eu chamei, eles não responderam. Estavam mortos.

Aí escutei que estavam aterrorizando a Candelária, que tinham matado gente. Levei quatro tiros. Uma bala entrou pela face e se alojou na cervical. Ainda tenho essa bala no corpo.

Por que acha que os policiais fizeram isso?

Até hoje não entendo muito o porquê. As histórias são muito desencontradas. Um diz que foi porque mataram a mãe de um policial; outro, porque roubaram a casa de um policial.
Dizem ainda que foi um comerciante quem mandou. É muito vago, não dá para saber exatamente.

O sr. conhecia os outros meninos?

Conhecia todos eles. Eu não morava na Candelária, mas na Vila do João [uma das favelas do Complexo da Maré, na zona norte]. Eu tomava conta de carros.
Quando tinha dinheiro, ia para um hotel; quando não tinha, dormia ali mesmo. Tinha muito menino pequeno ali no meio da rua.

Sabe por onde andam os outros sobreviventes?

O único que levou um tiro e sobreviveu fui eu. Dos outros meninos, sinceramente, não sei. Muitos já devem ter morrido.

Seu depoimento ajudou no indiciamento de cinco policiais militares como autores do massacre. Acha que por isso sofreu um segundo atentado em 1994?

Sabe como é, né… testemunha viva é um problema. Era meio complicado, muito terror psicológico. [O atentado] Foi na Central. Eram dois homens, um estava com revólver, me mostrou uma foto e perguntou se era eu.

Saí correndo, mas eles me pegaram, algemaram e começaram a me bater. Eles me levaram para uma lateral da Central e eu levei mais quatro tiros: na cabeça, na costela, no pulmão e no rosto. Uma bala me deixou com parte do rosto paralisado.

E o sr. sobreviveu, mais uma vez…

Pois é, não era a minha hora. E também porque eu não merecia. Ninguém merece morrer na covardia.

Quando percebeu que tinha que deixar o Brasil?

A Anistia Internacional botou uma pressão. Você sabe que no Brasil não tem como… proteção [a testemunhas] é uma ‘caozada’. O cara fica dentro de uma casa sem fazer nada, sem trabalhar, perde a vida dele ali, fica ao Deus dará.

Eu fiquei um ano e pouco no programa. Como a Anistia conseguiu que eu viajasse para cá, eu preferi sair. Pelo menos ia conhecer coisas novas, diferentes.

O sr. tinha esperanças de uma vida melhor na Suíça?

A vida aqui é melhor. Aí eu ia viver correndo para lá e para cá. Eu tinha que me defender.

Como foi sua saída do Brasil?

Fui para Brasília, fiz um curso de hotelaria, me botaram num avião e eu estou aqui [Suíça] até hoje. Eu não conhecia minha família antes [da chacina].

Para mim, era uma coisa diferente [sair do país]. Eu viveria em qualquer lugar do mundo. Aqui se fala francês, a gente vai se habituando. Falo francês, estudei um pouco.

Conseguiu trabalho logo? Tem condições de saúde para trabalhar?

Trabalhei em hotelaria, demolição e padaria. Hoje estou licenciado, estou para me aposentar. Minha coordenação motora não é mais a mesma.

Recebeu alguma indenização ou ajuda do governo brasileiro?

Eu recebo dois salários mínimos no Brasil, só isso. Indenização, não.

Fiz uma operação aí (no Brasil), tinha que fazer outra, acabei não fazendo.

Sabe como é no Brasil… palavra de político é fogo, vai te enrolando até ganhar no cansaço.

Prometeram fazer uma operação de restauração, fiz a primeira e não fiz a segunda. Isso foi há oito anos.

Iam me dar uma indenização que também não me deram. Seria de R$ 500 mil.

Pretende voltar ao Brasil?

Não sei não…vamos ver. O tempo vai dizer.

O sr. acha que pagou um preço muito alto por tudo?

Eu não fiz nada para isso me acontecer. Isso acontece em várias partes do Brasil. Como foi comigo poderia ter sido com qualquer outro. É chato né, você fica rotulado como marginal. Eu não era.

O sr. conhecia o Sandro Nascimento [morto pela polícia em 2000 no assalto ao ônibus 174]?

Sim, ele sempre andava comigo. O que aconteceu ali foi um ato de covardia, apesar de ele estar errado.

O sr. guarda muita mágoa?

Sim, porque não vi nada melhorar. Cada vez parece que vai piorando. Muita gente perde a vida.

O Brasil não é um país tão atrasado assim, até intelectualmente era para melhorar esse negócio da violência. Saber que a vida do ser humano tem valor.

 

Fonte: Folha de São Paulo

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