‘Não foi racismo, foi deselegância’, diz promotor em caso do turbante

O caso aconteceu em abril, quando a mulher diz ter sido agredida e ter o turbante jogado no chão durante uma festa de formatura

O Ministério Público de Minas Gerais optou pelo arquivamento do processo aberto pela pedagoga e conselheira do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR), Dandara Tonantzin Castro, 23, que foi agredida e teve seu turbante jogado no chão em festa de formatura, na cidade de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, em abril deste ano.

A jovem, ao saber do pedido de arquivamento, postou um vídeo em seu Facebook na manhã desta segunda-feira (20) acusando a Justiça brasileira de ser seletiva, “nossa justiça tem um lado, e não é nosso”, disse.

De acordo com pedido do promotor Sylvio Fausto de Oliveira Neto, os dois indiciados não cometeram nenhuma infração penal e que o ocorrido não corresponde à injúria racial.

A pedagoga lamentou a decisão e disse estar indignada pelo pedido de arquivamento do processo. “É muito indignação! No depoimento eles (os envolvidos) afirmam que encostaram a mão em mim e foi sem meu consentimento. Não foi no brinco, não foi no vestido, foi no meu turbante, que tem um significado grande para a cultura negra”, disse.

O advogada de Dandara, Edson Pistori disse que os próximos passos em relação ao arquivamento vai ser entrar com uma representação contra o promotor responsável pelo caso junto ao Conselho Nacional do Ministério Público, que, segundo o advogado, teria agido de forma negligente. “O promotor afirmou no pedido de arquivamento que o caso foi uma mera falta de educação dos agressores”, informou.

A segunda medida a ser tomada, de acordo com Pistori, será apelar da decisão junto ao Tribunal para rever a decisão e seguir paralelamente com uma ação cível.

De acordo com a assessoria de imprensa do Ministério Público, por ser feriado nesta segunda (20), Dia da Consciência Negra, não foi possível entrar em contato com o promotor.

Relembre o caso

Dandara se arrumou para ir à uma festa de formatura em engenharia civil de um amigo de infância em Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Para completar a produção, ela escolheu um turbante dourado e o acessório – símbolo da cultura negra – parece ter incomodado a alguns presentes a ponto de a mulher ter sido agredida por causa dele. “Quando eu cheguei, já percebi olhares estranhos, mas acabei relaxando e aproveitando a festa”, conta.

No fim da festa, já na manhã de domingo (23), o grupo foi para uma arena no mesmo espaço, onde a comemoração continuaria. Ali, um homem puxou o turbante de Dandara pela primeira vez. “Eu falei para ele tirar a mão da minha cabeça”, diz. Depois, ao passar novamente pelo mesmo homem, ele voltou a puxar o turbante. Ela reagiu e ele, segundo conta, chamou alguns amigos. “Veio outro e jogou meu turbante no chão. Depois, eles começaram a jogar cerveja na minha cabeça e a rir de mim”, lembra. Os amigos de Dandara acionaram a segurança da festa e dois deles foram retirados do local.

O caso foi registrado na Polícia Civil como agressão física motivada por preconceito racial. O órgão afirmou que apura o ocorrido e que não divulgará detalhes para não atrapalhar as investigações. De acordo com Dandara, a delegada não quis registrar o ato como racismo. A Polícia Civil não informou o motivo da recusa.

Dandara contou ainda que foi agredida verbalmente e ameaçada pelas namoradas dos rapazes, que a acusaram de ser a responsável pela expulsão deles da festa e queriam que ela também fosse retirada do local.

O caso ganhou repercussão depois que a moça contou a história em seu Facebook na manhã seguinte a festa. O post atingiu mais de 12.000 comentários. A maioria das opiniões são de apoio a Dandara, mas também há quem a acusasse de se fazer de vítima ou querer aparecer

 

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