Nas eleições, se não acredita, eu vou sonhar pra você ver

Por: FÁTIMA OLIVEIRA

Tá no sangue. Nas eleições acabo como em “Cantigas de Sabiá”: “Xô meu sabiá, xô minha zabelê/ Toda madrugada eu sonho é com você/ Se você não acredita eu vou sonhar pra você ver”. Eleição é festa. Tempo de sonhar sonhos possíveis. Papai, ao falecer aos 33 anos (1963), era, pela segunda vez, o “vereador do Braulino”. Meu avô, o personagem político da família e da eterna confiança do deputado Sales Moreira Lima – dever moral que herdou do pai, o velho Bodô, meu bisavô, vaqueiro do deputado na década de 30.

Os Bodô votavam no deputado. Não era voto de cabresto, mas de consideração, coisa hoje muito esquecida. Honravam a memória do velho Bodô, homem de um tempo em que no sertão todo vaqueiro tirava uma sementinha de gado. Ter um gadinho, sina de quem gosta de leite mungido na porteira do curral e do cheiro de bosta de boi, perpassou todas as gerações do velho Bodô: filho, neto, bisneto, trineto e tataraneto (quarta geração de netos).

“Seu” Sales e Dona Lili, sua esposa, chegavam num Jeep. Era parar e o foguete correr solto. A casa enchia. Festança. Deixavam tudo “no jeito”: dinheiro para transportar gente pra votar, o segredo de garantir votos naquela biboca. Tia Lô dizia: “Pobre andando de carro em dia de eleição é voto do ‘sinhô’ Moreira da Serra Negra”. Uma vez ouvi meu avô dizendo: “Deputado, a comida é por minha conta. Mato uns garrotinhos com prazer pra garantir comida farta pros seus eleitores. Pra lhe eleger, aqui em casa todo mundo trabalha. Até minha neta (“euzinha” aqui…) já escreve os papéis pros eleitores. A gente daqui é de pouca leitura. Meus votos são certos. Palavra de Bodô”.

É um diálogo que elucida o poder do dinheiro nas eleições. Já era proibido dar comida e transportar eleitores. Ninguém ligava. No quintal da vovó era feita uma latada. Um monte de mulheres preparando arroz, cozidão, panelada e “carne fresca sapecada na brasa” (hoje é churrasco!). Feijão? Jamais! Imagina dar feijão pra eleitor! Em Graça Aranha, a política era de alta temperatura e pressão. Fervia. Policiamento ostensivo – soldadinho para cima e pra baixo. Diziam que era para “guardar as urnas”.

Uma vez prenderam um caminhão cheio dos Bodô do Centro do Hermínio. A mando do prefeito, Nacor Rolim, adversário do pai velho. Ele falou pra vovó: “Maria, cadê meu revólver?” Vovó despachou as crianças pra “Quinta do Braulino” (nome da nossa propriedade). Anos depois conversei com ele sobre o assunto. Disse-me que para “desprender” seu povo foi suficiente mandar um portador dizer ao prefeito que os Bodô eram homens de bem e nunca dormiram na cadeia, mas se ele quisesse um motivo pra um Bodô dormir engaiolado não soltasse o caminhão “incontinenti”, palavra que ele usava muito, que significava: agora, na hora, já!

Mamãe recebia os caminhões, distribuía um papelzinho e levava o povo pra votar. Era o terror das seções eleitorais. Muito simpática, abordava mais mulheres, dizia: “Deixa ver se tá levando o papel certo”. Se não era dos candidatos dela, bradava: “Num é esse não! Pega o certo!” E, de braço dado, ia com a pessoa até a entrada da seção. Boca-de-urna de 100%. Papai era dos mais votados. Ela sabia, certinho, os votos dele em cada urna! Dias antes, fazia serão escrevendo à mão os tais papeizinhos, acho que eram números, que no dia da eleição carregava dentro do sutiã. Ainda adora eleições, mas diz que hoje são sem graça. Tem razão. Impossível reproduzir a sua boca-de-urna.
Adoro eleições porque insisto em sonhar.

Fonte: O Tempo

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