No ‘Casa Grande e Senzala’ da pandemia, governo pede sacrifício aos já vulneráveis

Maioria das imagens da campanha #OBrasilNãoPodeParar retrata pessoas negras e pobres

Por Fernanda Mena, Da Folha de São Paulo

Mantendo espaço entre si, líderes de ruas da favela Paraisópolis se reúnem no campo de futebol da favela para receber doação de sabão em barra e álcool em gel que serão repassados para os moradores (Foto: Folhapress/Eduardo Knapp)

O vídeo do governo que lançou a campanha #OBrasilNãoPodeParar, feita sem licitação e a um custo de quase R$ 5 milhões, é a tradução da estrutura social classista e racista de que o Brasil não conseguiu se livrar desde a escravidão.

Das 23 imagens escolhidas para amparar a ideia de que é preciso voltar ao trabalho, 19 retratam pessoas negras (54% se autodeclaram pretos ou pardos no Brasil) e 18 envolvem situações ligadas à pobreza, à informalidade ou à baixa remuneração (25% dos brasileiros vivem em situação de pobreza).

O chamado do governo para que o povo retome as atividades como forma de manter o giro da economia puxa o tapete da estratégia das autoridades sanitárias do país, de boa parte da Europa e da Organização Mundial da Saúde para conter a pandemia do coronavírus. Ela determina que, para evitar o colapso do sistema de saúde numa enxurrada de casos de Covid-19, as pessoas devem ficar em casa, isoladas.

Mas parece ser difícil ao governo e sua equipe econômica admitirem que a mão invisível do mercado não dá conta da complexidade da situação e são necessárias medidas que protejam os vulneráveis.

Ao contrário, o que se vê na peça publicitária do governo, é uma convocação para os brasileiros mais pobres –e 75% deles são negros– voltem ao batente produzir a riqueza de que pouco ou nada usufruem enquanto a elite branca faz seu isolamento com aulas virtuais para as crianças, delivery e yoga em lives de Instagram. A Justiça Federal proibiu o presidente de adotar medidas contra o isolamento.

Pesquisa Datafolha sobre a pandemia mostrou que quanto menor a renda familiar do brasileiro, maior a expectativa de ter a vida financeiramente afetada por um longo período por conta do coronavírus.

Pesquisa do DataFavela apontou que 70% dos moradores dessas comunidades já tiveram a renda reduzida desde o início do contágio no Brasil, enquanto 72% não tem reservas nem para uma semana sem a renda do trabalho ou bico.

Sem uma proteção social emergencial como alternativa, a mensagem de que o Brasil não pode parar se apresentar a esse estrato como única saída.

“Esse vídeo [da campanha do governo federal] é uma obra-prima da sociologia brasileira. Ele aponta qual é o segmento da população que não pode parar e que deve se expor a uma doença mortal ou mesmo morrer para manter a economia e os lucros das empresas”, critica Douglas Belchior, da Coalizão Negra Por Direitos, coletivo de organizações do movimento negro co-autor de uma notícia-crime contra o presidente. “Trata-se de uma política genocida”, opina, projetando uma provável desproporção na morte de pessoas negras.

A pandemia do coronavírus entrou no Brasil por um aeroporto internacional, via elite globalizada, e estreou nos hospitais privados de excelência, com todos os recursos.

Mas a primeira empregada doméstica que soubemos ter morrido vítima covid-19 no país não havia adquirido o vírus numa viagem à Disney, mas de sua patroa, que o trouxe das de férias na Itália, como nos lembra o texto de Preta Rara publicado nesta Folha.

A Covid-19 deve causar mais e maiores danos em conglomerados de alta densidade com problemas de água e esgoto, que são atendidos por uma rede pública em que faltam equipamentos, pessoal e recursos.

“A favela não deixa de fazer o isolamento por ser ignorante, mas porque precisa colocar gasolina no seu carro, entregar comida na casa, varrer o chão do supermercado, recolher o lixo”, avalia Celso Athayde, fundador da Cufa (Central Única das Favelas), para quem, sem isso, essas pessoas “não teriam o que comer”.

“Ou a sociedade de alta renda divide a riqueza que a favela os ajudou a produzir, ou vai dividir as consequências da miséria, o caos”, disse.

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