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No centenário de Mestre Didi, terreiro fundado por ele é tombado

No centenário de Mestre Didi, terreiro fundado por ele é tombado

Cerimônia acontece neste sábado, às 14h, no Ilê Asipá, em Piatã

 

Por Júlia Vigné, do Correio 24 Horas

 

Antes de morrer, Mestre Didi fez um pedido: que o Ilê Asipá, terreiro fundado por ele em 2 de dezembro de 1980, no dia de seu aniversário de 63 anos, fosse tombado. Hoje, no dia em que o terreiro completa 37 anos e que o próprio Mestre Didi  completaria seu centenário, o pedido é finalmente atendido.

O terreiro, em Piatã, será tombado hoje pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), às 14h. Deoscóredes Maximiliano dos Santos, o Mestre Didi, que além de sacerdote era escritor e artista plástico, é reconhecido mundialmente por sua produção artística e intelectual. Ele morreu em outubro 2013, sete meses após o pedido de tombamento.

Diferente de terreiros de orixás, que geralmente possuem diversas casas de culto a cada um eles, o Ilê Asipá apenas possui uma casa para orixás
(Foto: Almiro Lopes/CORREIO)

Foi um desejo do meu avô de cultuar os antepassados e fazer um terreiro para isso. Ele me pediu para correr atrás do tombamento porque existia um medo muito grande disso aqui desaparecer, assim como a gente viu com outros terreiros que foram destruídos para a construção de viadutos, por exemplo”, contou o neto de Didi, Antônio Oloxedê. Ele passou a comandar a casa juntamente com o alagbá Genaldo Novaes após a morte de seu irmão mais velho, há dois meses, o Otun Alagbá José Félix.

O reconhecimento é comemorado principalmente por conta da crença de que o tombamento irá trazer uma segurança maior para a existência, permanência e perpetuação do terreiro e da cultura afrodescendente. Além disso, há o auxílio financeiro para obras estruturais, como o término de construção de um muro para a propriedade, que tem parte cercada por folhas de bananeira.

Com o tombamento do Ilê Asipá, sobe para 18 o número de terreiros tombados definitivamente na Bahia pelo Ipac, pelo Iphan ou pela Fundação Gregório de Mattos. Em Salvador, são 10, entre tombamentos estaduais, federais e municipais.

(Foto: Almiro Lopes/CORREIO)

Reino de Ketu
A Sociedade Cultural e Religiosa Ilê Asipá surgiu após uma viagem do sacerdote à África, para visitar o reino de Ketu, que se espalha por Nigéria, Benin e Togo. Antes disso, ele integrava o Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, de Mãe Aninha – que era tratada pelo Mestre Didi como avó – e agora é liderado por Mãe Stella. A mãe do mestre Didi, Mãe Senhora, foi a terceira ialorixá do Afonjá.

Durante os 37 anos do Ilê Asipá, duas escrituras falsas já foram apresentadas, afirmando que o terreno não era de Mestre Didi e de sua família. “Esse terreno não foi comprado, né? Quando meu avô chegou aqui, não tinha nada. Era tudo plantação. Uma concessão para a vida inteira nos foi dada pela prefeitura. Com o tombamento, ninguém vai tirar a gente daqui”, comemorou  Antônio Oloxedê.

Antônio Oloxedê, neto de Mestre Didi, que comanda a casa com o alagbá Genaldo Novaes (Foto: Almiro Lopes/CORREIO)

A criação de uma “autoestima afrodescendente” também é destacada pelos líderes do terreiro. Para eles, o reconhecimento da cultura e da religiosidade de matriz africana é um dos grandes acertos dos governos atuais, porque representa o culto à origem do país e do povo brasileiro.

“Todos nós somos afrodescendentes. Quando qualquer pessoa nos ataca, ela está se atacando. Nós cultuamos os nossos antepassados, quem fez a nossa história, fato que é bem presente na cultura africana, de cuidado com os mais velhos”, diz o alagbá Genaldo Novaes.

Cultos aos Eguns
Enquanto a maior parte dos terreiros tem como razão de existência principal o culto aos orixás, o terreiro Ilê Asipá se apresenta de forma distinta. O alagbá Genaldo Novaes faz questão de ressaltar: o Ilê Asipá é de culto aos eguns, e não aos orixás. Ou seja: o que é cultuado principalmente – não exclusivamente – são os ancestrais e a cultura afrodescendente.

E o culto à matriz africana é presente em todos os locais: logo na entrada, obras do Mestre Didi no casarão da frente, juntamente com grafites realizados mais recentemente recepcionam os visitantes. As obras do Mestre Didi e de outros membros da família são espalhadas por todo o terreiro.

Diferente de terreiros de orixás, que geralmente possuem diversas casas de culto a cada um eles, o Ilê Asipá apenas possui uma casa para orixás. O terreiro é formado por diversas casas e espaços de cerimônias destinadas  para o culto de eguns, principalmente o Baba Olokotun, considerado como o Olori Egun, o ancestral primordial da nação nagô. Os membros do terreiro não residem no lugar e, aos sábados, ou em dias de comemorações, se dirigem ao terreiro.

“A gente vive a nossa vida. A nossa profissão primeiro, depois o terreiro. Mas não tem como, a gente sempre quer vir para cá, por conta da paz que esse lugar nos traz”, conta Novaes.

Um outro sonho do alápini – sacerdote supremo do culto de egum – ainda não foi realizado: a construção de uma escola no terreno em frente ao terreiro, ensinando o culto aos ancestrais, a preservação da natureza, a literatura, domínio das artes e a língua iorubá.

Mestre Didi: trabalho de sucesso no mundo
Ao falar de Mestre Didi e da ancestralidade da casa, o neto Antônio Oloxedê fica arrepiado. “Ele é meu avô, mas foi ele quem me criou. Eu e os meus irmãos. Ele nos educou para a vida e para o mundo, além dos ensinamentos da arte plástica”, conta.

A preservação do trabalho e da imagem do sacerdote é tratada como algo de suma importância para os membros do terreiro, tanto dentro como fora da sociedade.

Para o alagbá, Didi tinha três pontos fundamentais: artista plástico, educador e pessoa. “Ele foi o pioneiro a sair da matriz para o topo. Ascendeu na carreira como eu nunca vi. Como educador, ele se preocupou muito que a linguagem iorubá permanecesse na nossa cultura, se perpetuasse, além do culto à religião. Já como pessoa humana, ele não deixava que a posição de um dos principais artistas do Brasil atingisse quem ele era. Não colocava isso à frente da ancestralidade. E nós somos resultado dessa criação”, afirma.

A emoção, por vezes, dá lugar ao ressentimento e a um protesto: Mestre Didi é mais reconhecido internacionalmente e em outros estados brasileiros do que na própria Bahia. Em 1989, Didi participou da exposição internacional Magiciens de la Terre, em Paris, além de fazer mostras na Argentina, Senegal, Nigéria, Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos, Itália e Espanha.

“Não existe uma sala destinada ao trabalho do Mestre Didi na Bahia. A gente tem uma coletânea de 70 obras deles que ficam guardadas. Nosso sonho é ver o reconhecimento dele em um museu em Salvador, assim como tem no Museu Afro Brasil, em São Paulo”, afirma o neto. Obras dele estão expostas no Rio Vermelho.

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