O sangue negro de Noémia de Sousa, poeta da revolução

Mia Couto, Marcelino Freire e Emicida são alguns dos fãs de sua poesia crua e poderosa

Por  Clarissa Wolff , do Carta Capital 

O vaso chinês quebrou.

Noémia de Souza, finalmente editada no Brasil

Muito se fala sobre qual seria (e qual deve ser) a função da literatura, mas arrisco dizer que o vaso chinês realmente quebrou: a arte não vive mais só pela arte e o parnasianismo já era. Em cima de seu caixão recheado de descrições longas em versos com o mesmo número de sílabas e estrofes de rimas regulares, Noémia de Sousa dança.

Seus poemas são assim, corporais, dinâmicos. Dá até pra fantasiar que ela criava como Jackson Pollock, com impulsos do próprio corpo, jogando palavras no lugar de tinta no papel e criando coisa atrás de coisa de tirar o fôlego. Claro que não era assim, mas sobretudo a mensagem poderosa e assustadora, que te seduz entre imagens fortes em palavras bonitas, faz tudo parecer natural ao seguir o ritmo até o soco no estômago.

Noémia nasceu em 1926, e viveu por bastante tempo na capital de Moçambique, que na época ainda não era Maputo. Ela viveu a revolução, foi um de seus expoentes, e gravou na história do mundo o que aconteceu em forma de poesia. Moçambique – e a África como um todo – é um personagem de seus versos, que se constroem em cima de dicotomias de “nós” versus “os outros”. “Nós” são os africanos, e “outros” os colonizadores, e seus poemas se desenrolam em denúncias contra esse povo intruso e em exaltação do povo negro.

Noémia é totalmente #BlackIsBeauty, Beyoncé e Nina Simone. E a comparação não cai ao acaso: sua poesia é viva. Não nasceu para ser lida em silêncio na intimidade da casa, para ser dissecada por acadêmicos que não pegam sol há diversos dias, para ser marinada em solidão. Sua poesia é viva e, tal qual no caso das cantoras, precisa ser performada. São versos criados para serem gritados, chorados, sentidos, muito mais do que pensados.

SANGUE NEGRO, Noémia de Sousa
Editora: Kapulana
Páginas: 198
Preço: R$44,90

 

 

 

Sua obra chegou pela primeira vez no Brasil no ano passado, pela editora Kapulana. À sua antologia poética se juntam um prefácio de Carmen Lucia Tindó, professora de literaturas africanas de língua portuguesa na UFRJ, textos de edições anteriores moçambicanas e mensagens de seus pares, artistas lusófonos como Marcelino Freire e Mia Couto, que declaram sem medo que a publicação desse livro foi a maior dádiva do ano. Seus fãs não acabam aí: o poema Súplica, em que ela diz “tirem-nos tudo, mas deixem-nos a música”, foi recitado várias vezes em shows por Emicida.

Revolucionária, ela declarou que não queria seus poemas vendidos em livro enquanto seu povo não tivesse dinheiro para comprar comida. A importância da publicação para a literatura e para a história é inegável, entretanto. E me faz lembrar um vídeo que vi há muito tempo no qual a escritora Lierre Keith fala que deveria se ensinar revolução na escola. É claro que isso jamais acontecerá.

Mas, no lugar, temos Noémia. Ainda bem. Uma aula muito mais gostosa.

 

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