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Hip hop nacional ganha fôlego entre público pop em 2011; conheça os principais nomes

Depois de lançar a elogiada mixtape Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe, que vendeu 13 mil cópias, o rapper EMICIDA ajudou a colocar o rap brasileiro no radar do mainstream. Neste ano, lançou seu segundo trabalho, Emicídio, se apresentou no festival Coachella e está gravando um EP em NY com os beatmakers K-Salaam & Beatnik.

Em Capítulo 4 Versículo 3, o Racionais MC’s anunciava: “Meu estilo é pesado e faz tremer o chão. Minha palavra vale um tiro, e eu tenho muita munição”.

De 1997, quando a música foi escrita, até 2010, muita coisa mudou no rap nacional. Depois de cair nas graças do mainstream com Thaíde e DJ Hum, MC Jack, MV Bill, Marcelo D2 e o próprio Racionais, o gênero continuou crescendo, mas à distância do radar da mídia.

No outro extremo, em 2009, o rapper Emicida lançou sua primeira mixtape, intitulada Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe. O trabalho vendeu mais de 13 mil cópias por um preço popular de cerca de R$ 2. Rendeu ao rapper, além de ótimas críticas e um bom número de vendas, a atenção da mídia e a indicação ao prêmio de Aposta MTV no VMB.

Emicida – Rua Augusta

Com a projeção alcançada pelo rapper, outros MCs e grupos começaram a conquistar seu espaço entre o público pop. Em 2010 e começo de 2011, tivemos nomes como Rincón Sapiência, Criolo Doido, Flora Matos, Lurdez da Luz, Akira Presidente, Doncesão, Karol Conká e outros artistas, juntando sob os holofotes novos talentos e veteranos da cena que só agora começam a chamar a atenção do mainstream.

Em 2010, o grupo NX Zero lançou ao lado do produtor Rick Bonadio o CD/DVD Projeto Paralelo, que contou com a participação de Emicida, Kamau, Marcelo D2, Rappin Hood, Flora Matos eLurdez da Luz. E Bonadio, o Midas das bandas teen, prepara mais um lançamento ligado ao rap: o primeiro álbum do rapper underground Rincón Sapiência pela Arsenal Music.

Estilos brasileiros

“O que estamos presenciando é uma mutação. O rap brasileiro sempre foi diretamente influenciado pelos sons da gringa, mas hoje nós já conseguimos misturar estilos brasileiros (além do samba, que sempre esteve presente) para melhorar o nosso som e expandir o alcance da música. É o que a gente ouve no álbum do Criolo, por exemplo, que tem um pouco de tudo e simboliza bem o nosso rap”, afirmou o veterano Rael da Rima, MC do grupo Pentágono.

“Nós temos uma formação musical incrível. Temos que impor o nosso rap, usar todas essas musicalidades brasileiras – samba, funk, bossa, brega – para criar a nossa identidade. A diferença dessa nova cena é que cada um tem a sua identidade. O rap é autônomo, não pede mais licença para ninguém”, afirmou o MC carioca Akira Presidente, que lançou em 2010 um álbum com influências do funk e da black music.

Para o rapper veterano Slim Rimografia, que lançou este ano ao lado de Thiago Beats o álbumMais Que Existir, o rap não pode se prender a uma suposta imagem de um gênero que não se comunica com nenhum outro.

“Isso foi um das coisas que abriu a minha mente e quebrou os preconceitos. O rap é Ritmo e Poesia, ele não define nenhum tipo de batida. É um ritmo, por isso ficamos livres pra usar e abusar e fazer o que nos der vontade. É uma liberdade incrível”, afirmou ele.

“O rap não pode se prender, temos que explorar todos os estilos possíveis. Com nossa riqueza cultural, nos tornamos o único lugar do mundo em que o rap não pode ser só rap”, completou Akira.

Rincón Sapiência – Elegância

Nova imagem

“O rap está mais moderno. Ele perdeu essa identidade de ser uma coisa ‘do mal’, as rimas estão mais ricas, falando de outros assuntos. Hoje os temas do nosso cotidiano são outros, não tem porque ter essa pose de mau. Hoje falamos sobre assuntos mais leves, com mais atenção à batida e aos ritmos, sem essa coisa do protesto direto”, afirmou Karol Conká, uma das revelações da cena do rap curitibano.

Para Rael da Rima, entretanto, o protesto continua vivo no rap atual. “Ninguém deixou de protestar. A questão é que estamos protestando de outras maneiras, a partir de outras temáticas. Engajamento não é só fazer letra combativa. O protesto está também no tratamento de temas cotidianos”, garantiu ele.

O rapper Doncesão, que lançou este ano o álbum Bem Vindo ao Circo, é um dos artistas que continua a pensar em letras engajadas a partir de temáticas mais amplas.

“Existe de fato uma mudança de temática. Falamos de várias coisas: do cotidiano, de amor, de amizade. Mas não é porque estamos menos engajados, e sim porque é necessário variar as temáticas para criar trabalhos mais ricos. O Criolo Doido, por exemplo, é um entusiasta da canção. Ele continua fazendo rap, mas a partir de outra vivência. É importante que as pessoas percebam que o rap continua intacto, mas está mais aberto a outros estilos e discussões”, afirmou Doncesão.

“O engajamento vem de cada um. Se você quiser fazer música de protesto, ótimo, existe espaço. Assim como para falar de qualquer outro assunto”, completou Akira.

Doncesão part. Lurdez Da Luz – Malabares

Profissionalismo

Para Rael da Rima, o cenário do rap no Brasil se profissionalizou e passou a usar seus próprios recursos para evoluir, criando um estilo que hoje se mostra mais maduro e pronto para utilizar outros gêneros musicais tipicamente brasileiros sem problemas de definição de estilo.

“Estamos começando a encarar a coisa como música mesmo, como profissão. Precisamos fazer o melhor, buscar as melhores referências, ir além do samba e do rap de sempre. Somos hoje uma cultura de fazer shows, não mais aparições em baladas”, completou Rael.

”Existe uma renovação no rap e na maneira de ver o rap como uma indústria. Precisamos ter assessorias, bastidores, enfim, toda uma estrutura de divulgação. Precisamos pensar não só em explorar novos temas como em criar uma organização forte. Hoje, a expressão urbana mais verídica é o rap. Só precisamos tranformá-lo em algo cada vez mais profissional”, opinou Doncesão.

Álbuns essenciais do rap brasileiro em 2010/2011

Criolo Doido Nó Na Orelha
Lurdez da Luz – EP homônimo
Karol Conká – Compilação homônima
Ogi – Crônicas da Cidade Cinza
Rashid – Hora de Acordar
Slim Rimografia & Thiago Beats – Mais Que Existir
Doncesão – Bem Vindo ao Circo
Parteum A Autoridade da Razão
Emicida – Emicídio
Akira Presidente – Meu Sotaque Meu Flow
Rapadura Fita Embolada
Cone Crew – Com Os Neurônios Evoluindo
Projota – Projeção Pra Elas

Fonte: Virgula

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