Nota pública sobre perseguições e ameaças contra militantes do Comitê Contra o Genocídio da Juventude Preta, Pobre e Periférica de São Paulo

Tornamos público através desta, ameaças e perseguições sofridas nos últimos meses contra militantes que compõem o Comitê Contra o Genocídio da Juventude Preta, Pobre e Periférica de São Paulo, uma frente ampla de denúncia… contra a violência do Estado dirigida a população negra pobre e periférica, composta por diversas organizações, movimentos populares e movimento negro. O aumento da violência contra a população preta, sobretudo no ano de 2012, onde mais de cinco mil pessoas foram mortas (executadas), é reflexo do projeto Genocida do Estado brasileiro, que historicamente condenou essa população. Sabemos que a repressão aos movimentos sociais e a seus militantes faz parte desse processo e é por isso que nós militantes que diariamente convivemos com a violência instaurada pelo Estado nas periferias, viemos tornar público ameaças e perseguições pelas quais alguns de nós estamos passando.

No dia 22 de agosto, realizamos em São Paulo a versão regional da Marcha Nacional Contra o Genocídio da População Negra, cujo foco foi denunciar o alto índice de mortes letais (genocídio) da juventude preta e se posicionar contra a militarização dos órgãos públicos da cidade como, por exemplo, a Câmara Municipal, que abriga parlamentares ligados ao universo militar. Durante a concentração do ato, em frente ao Teatro Municipal – região central da cidade, nos deparamos com vários policiais portando máquinas fotográficas e câmeras digitais, registrando imagens dos participantes. Notamos que a partir desta ocasião, alguns dos militantes do Comitê passaram a perceber ameaças. Na mesma noite do ato, um jovem negro que seguia sozinho para metrô (morador de periferia e integrante do movimento Hip- Hop) foi abordado por dois policiais após a dispersão da Marcha. Durante a abordagem policial, ele quase foi atropelado por uma viatura da guarnição.

Outro episódio aconteceu no mês de setembro, na Câmara Municipal de São Paulo, em que militantes do Comitê se posicionaram contra a entrega da homenagem “Salva de Prata”, à ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), criado durante a Ditadura Militar para reprimir a guerrilha urbana e mais tarde os cidadãos moradores das periferias.

Durante a sessão, um dos policiais presentes na Casa Legislativa anotou o número de telefone e o endereço residencial de um dos militantes em papel a parte e o guardou dentro do próprio bolso, sendo esse um procedimento inadequado, segundo alguns vereadores da casa.

Na última semana, mais uma família passou por uma assustadora violência: desta vez, foi uma tentativa de homicídio (não se sabe se a vítima foi confundida com outra pessoa). Entretanto, o que sabemos é que dois homens em uma moto seguiram e dispararam contra um carro guiado por um casal negro, atingindo o braço da mulher (mãe de um jovem negro de 15 anos). O referido casal é parente de um dos militantes do Comitê.

Recentemente três militantes ligados a organizações que compõem o Comitê foram alvos de racismo, sendo hostilizados, com ataques verbais e ameaças também vindas de agentes policiais.

Infelizmente tais fatos não são episódios isolados. Militantes ligados a movimentos sociais e sobretudo ao movimento negro em todo pais estão sofrendo diariamente com retaliações, perseguições, ameaças e atentados à vida, inclusive tendo suas casas invadidas pela polícia, sem mandado, no meio a madrugada – como ocorreu recentemente com um militante em Salvador.

Diante de tudo isso, percebemos a necessidade de expor e tornar público os fatos para que todos tenham conhecimento da covarde política de criminalização dos movimentos sociais, movimentos negros e seus militantes. Já encaminhamos denúncias formais aos departamentos competentes, seguiremos nossa prática de denúncia da violência e de cobrança do papel ao qual o próprio Estado, em nossa Carta Magna se reserva: a proteção e o bem estar dos cidadãos.

Comitê Contra o Genocídio da Juventude Preta, Pobre e Periférica

Apoiam: | Ação Comunitária | Adunesp (Sindicato dos Docentes da Unesp) – Seção Sindical Marília | Agentes de Pastoral Negros do Brasil – APNs | Amparar – Associação de Amigos e Familiares de Presos | Ana Karla Moreira Silva – Estudante de Serviço Social – PUC/SP | ANEL | Associação de Mulheres Negras Acotirene | Blog – Sp Que Vc Não Vê | Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto| CEDECA Interlagos | CEN – Coletivo de Entidades Negras | Centro de Memória do Grande ABC | COADE (Coletivo Advogados para a Democracia) | Coletivo Anarcafeminista Marãna | Coletivo de Mulheres Negras Louva-Deusas| Comitê pela Desmilitarização | Comitê Popular da Copa SP | Comuna Aurora Negra | CONEN| Coordenação Nacional de Estudantes de Psicologia – CONEP | Escola de Governo | Federação Nacional dos Advogados| Fórum de Hip Hop MSP| Fórum Latino Americano de Combate a Discriminação Racial| Fórum Nacional de Mulheres Negras | Fórum Nacional 13 de Maio| Fórum Sindical dos Trabalhadores-SP | Frente da Feminista USP| Grupo de Mulheres Negras Nzinga Mbandi | Grupo Margens Clínicas| Grupo Tortura Nunca Mais- SP| Intersindical SP| Juventude às Ruas| Kilombagem | Maçãs Podres | MAP-SP Movimento Anarcopunk de são Paulo | Movimento Terra Livre | Movimento Negro Unificado | MSP – Movimento Pela Saúde dos Povos – Brasil | Nucleo Anarco-Rap | Núcleo de Consciência Negra da USP| Pão e Rosas| Periferia Ativa | Profa Joana Aparecida Coutinho – UFMA | Profa Laura Camargo Macruz Feuerwerker FSP/USP |Prof. José Henrique Viégas Lemos – Biólogo da Rede Pública Municipal e Estadual de Educação | Prof. Milton Pinheiro – UNEB Quilombo Raça e Classe | Quilombo Xis | Rede Lai Lai Apejo | TRIBUNAL POPULAR:O Estado Brasileiro no Banco dos Réus| UNEafro-Brasil|

 

 

Fonte: AKilombagem Continua

 

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