terça-feira, setembro 21, 2021
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Novas edições e exposição querem colocar Carolina Maria de Jesus entre os grandes da literatura brasileira

Publicação do texto integral de ‘Casa de alvenaria’ e mostra sobre trajetória da autora buscam derrubar estereótipos racistas e explorar a complexidade de seu pensamento

“Agora, eu estou na sala de visita, o lugar que eu ambicionava viver, sai da favela na hora que as aflicôes iam avulumando-se. Vamos ver como é que vae ser a minha vida aqui na sala de visita.” É com este trecho, logo no início do primeiro volume de “Casa de Alvenaria”, que Carolina Maria de Jesus coloca diante de si e dos leitores um grande ponto de interrogação: o que aconteceu com a autora de “Quarto de Despejo” depois que o livro fez sucesso e ela deixou a favela do Canindé, em São Paulo, ainda nos anos 60?

Iniciativas em torno da vida e da obra de Carolina procuram responder essa pergunta e, o mais importante, derrubar estereótipos sobre a autora e dar a ela seu devido lugar na literatura brasileira. A primeira delas é a nova edição de “Casa de Alvenaria”, com texto integral e fiel à linguagem da escritora, lançada este fim de semana pela Companhia das Letras. Outra é a exposição que será inaugurada no Instituto Moreira Salles (IMS) de São Paulo em 18 setembro, com um total de 300 itens. Carolina também será homenageada pela Fliaraxá em novembro, que discutirá a influência de Minas Gerais em sua formação. Nascida em 1914 na cidade de Sacramento, vizinha de Araxá, ela foi para São Paulo em busca de melhores condições de vida. Morreu em 1977, em Parelheiros (SP), sem ter retornado à cidade.

A escritora Conceição Evaristo coordena, ao lado de Vera Eunice de Jesus, única filha da autora ainda viva, o conselho da coleção Cadernos de Carolina, que trabalha na edição integral de sua obra pela Companhia das Letras. Evaristo também faz parte do conselho consultivo de 12 mulheres negras que colaborou com a curadoria da exposição no IMS e acredita que o público vai descobrir “mil Carolinas”:

— A imagem dela foi construída em cima da carência material; da mulher negra, pobre, favelada e com português errado. A verdadeira Carolina é múltipla, vai afinando e revisando comportamentos e pensamentos — explica Evaristo, para quem é preciso aprender a ler a busca de Carolina pela linguagem: —. Ela recorre ao português arcaico, à norma culta, que chamo de oculta, já que poucos têm acesso a ela, até se apropriar da linguagem, que é o que dá a Carolina o status de escritora.

Esse status de escritora talvez seja o mais fascinante na Carolina a ser conhecida. “Casa de Alvenaria” teve apenas uma edição, em 1961, com texto selecionado por Audálio Dantas, o jornalista que revelou a escritora em uma reportagem e editou o célebre “Quarto de Despejo”. Agora, a obra chega em dois volumes, que correspondem aos períodos que Carolina e os três filhos viveram em Osasco e no bairro de Santana, em São Paulo. Nas mais de 800 páginas, o texto da autora sofreu apenas pequenas alterações para ser adequado ao acordo ortográfico da Língua Portuguesa e, assim, circular nas escolas. O “mineirês”, que ela fazia questão de manter ,e os neologismos foram preservados.

— Carolina se apropria do gênero diário, que nem era considerado literatura, e passeia pela narrativa, a crônica e a poesia. É autora e personagem ao mesmo tempo, e tudo isso fica nítido agora — conta Amanda Crispim, uma das pesquisadoras que integra o conselho da Companhia das Letras, ao lado de Fernanda Miranda, Fernanda Felisberto e Raffaella Fernandez. — A todo momento, há um exercício de reflexão sobre si, sobre política e o Brasil. Há tensões com o mercado editorial e com a elite paulistana, a relação de amor e ódio com Audálio Dantas, mas há também uma mulher apaixonada. As pessoas se surpreendem com a carga erótica, mas essa é a Carolina integral, em sua dimensão humana.

A palavra é também o ponto de partida da exposição “Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros”, título que remete aos dois cadernos da escritora que estão desde 2006 no acervo do IMS e que foram publicados na França, em 1982, e traduzidos para o português quatro anos depois como “Diário de Bitita”, apelido de infância da escritora.

— Queremos mostrar a dimensão da autora além do “Quarto de despejo” e da favela do Canindé. Carolina foi versátil em distintos gêneros literários, viveu quase todo o século XX e os vários processos de transformação do país — explica a historiadora Raquel Barreto, que divide a curadoria da mostra com o antropólogo Hélio Menezes.

Partindo dos manuscritos, a exposição reúne matérias publicadas pela imprensa, vídeos, documentos, o raro álbum com canções de sua autoria que Carolina lançou em 1961 (e que poderá ser escutado) e fotografias que contrariam a imagem recorrente da escritora cabisbaixa e séria. No IMS, Carolina estará também elegantemente vestida e contente ao autografar seus livros, prestes a entrar no avião que a levaria ao Uruguai para divulgar “Quarto de despejo” ou rodeada pelos filhos. Completam a exposição obras de 60 artistas, parte delas comissionadas, que dialogam com o universo da autora.

Condições do acervo

Para realizar tudo isso, e o que está por vir — a Companhia das Letras pretende lançar toda a obra não publicada de Carolina, o que pode chegar a 20 livros, segundo Amanda Crispim— é necessário recorrer aos acervos. Além dos dois cadernos no IMS, há material na Biblioteca Nacional, mas a maioria foi doada por Vera Eunice ao Acervo Público de Sacramento, que era a antiga cadeia na qual Carolina e a mãe ficaram presas alguns dias, na década de 20, acusadas injustamente de “praticar feitiços”. A pesquisadora Amanda Crispim diz que a preservação desse material é uma preocupação:

— Os manuscritos de “Casa de alvenaria” tinham páginas rasgadas, molhadas e com rabiscos. A cronologia dá um salto em dois momentos. Não sabemos se Carolina fez isso ou se há dois cadernos perdidos.

Vera Eunice diz que está empenhada em melhorar as condições do acervo de Sacramento:

— Três anos depois da doação, tudo ainda estava nas mesmas caixas. Depois foi transferido para a cadeia onde ela ficou presa. Nos últimos dias, recebi a notícia de que será feito um museu na entrada de Sacramento, com a estrutura necessária — conta ela, que está às voltas com uma disputa com quatro sobrinhas, filhas de seu irmão José Carlos de Jesus, morto em 2016, que dizem não receber nem serem consultadas sobre a obra da avó. — Tem que esperar o inventário do meu irmão terminar, tudo está em juízo — diz.

A Companhia das Letras diz que tem uma “excelente e produtiva relação com as herdeiras de Carolina ou seus representantes, incluindo as netas, que receberam e cederam os direitos”. Já o IMS afirma estar “em contato com a família para definir os procedimentos necessários”.

Enquanto isso, o mais importante: como ler Carolina Maria de Jesus hoje?

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