Novembro: Abdias do Nascimento será homenageado em Serra da Barriga

Por Daiane Souza

Pioneiro na militância contra o racismo no Brasil, Abdias do Nascimento, falecido no último mês de maio, será homenageado em 13 de novembro, no Estado de Alagoas. Durante o tributo, as cinzas do ativista serão depositadas no platô da Serra da Barriga, local onde existiu o maior centro de resistência negra do Brasil: o Quilombo dos Palmares.

Para discutir propostas de ações e mobilização para a data, os organizadores do projeto Raízes de África e o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro) realizaram na última sexta-feira, 8 de julho, reunião com integrantes do Movimento Negro Alagoano, ONGs e gestores das três esferas do governo. A reunião aconteceu durante o Ìgbà: IV Seminário Afro-Alagoano – Igualdade Racial é para valer? realizado nos dias 7 e 8 de julho.

Um dos tópicos debatidos foi a dificuldade de acesso ao Parque Memorial Quilombo dos Palmares, um dos pontos culturais mais importantes do país. A secretária de Turismo de União dos Palmares, Isabel Padilha, alertou que a prefeitura local não pode divulgar o parque localizado na Serra da Barriga como destino turístico devido à ausência de condições de acesso e de infra-estrutura, o que pode prejudicar a realização de futuros eventos no local.

COMISSÕES – Durante a reunião, foram definidas ainda duas comissões que serão responsáveis pela organização do encontro de três dias: 11, 12 e 13 de novembro. Foram também apresentadas propostas de programações para a agenda. Entre os eventos estão um seminário que será aberto com conferência magna sobre a vida e obras de Abdias, exposições fotográfica e literária, palestras e a realização da solenidade das cinzas.

As comissões ficaram responsáveis pela elaboração de um projeto com a proposta definida na reunião. Será este o documento necessário à captação de recursos para a homenagem. A programação oficial deve ser divulgada ainda no mês de agosto pelos organizadores.

PERSPECTIVAS – Tendo participado do primeiro dia do Ìgbà o presidente da Fundação Cultural Palmares, Eloi Ferreira de Araujo, assumiu o compromisso de restaurar a estrada de acesso à Serra, garantindo a homenagem a Abdias e a promoção do turismo étnico. “No início de agosto haverá reunião para discutir todas as reivindicações sobre a construção do acesso”, afirmou.

Durante o Ato Interreligioso em Homenagem a Abdias do Nascimento, Ferreira ressaltou que as contribuições de Abdias não foram apenas como militante, mas também como agente público, político e cidadão por um mundo mais justo e igualitário. “O sonho de Abdias foi o legado que ele deixou para darmos continuidade”.

MÊS DA CONSCIÊNCIA NEGRA – O dia escolhido para homenagear o maior líder negro do século XX – 13 de novembro – faz parte do mês em que se celebra outro importante momento à população negra do país. O Mês da Consciência Negra significa um momento de conscientização e reflexão sobre a participação política, cultural e socioeconômica dessa população no desenvolvimento da sociedade brasileira.

Tradicionalmente, no dia 20 de novembro, é realizada a peregrinação à Serra da Barriga em homenagem e reverência a Zumbi, líder dos quilombolas de Palmares que ali viveu no século XVII. O Mês da Consciência Negra foi uma sugestão de Elisa Larkin Nascimento, viúva de Abdias, que também elegeu Serra da Barriga o lugar onde serão deixadas as cinzas do líder.

ABDIAS DO NASCIMENTO – Nascido em 1914 no município de Franca, Estado de São Paulo, Abdias foi filho de Dona Josina, a doceira da cidade, e Seu Bem-Bem, músico e sapateiro. Embora de família pobre, conseguiu se diplomar em contabilidade. Aos 15 anos, alistou-se no exército e foi morar na capital paulista, onde, anos depois, se engajou na Frente Negra Brasileira e se envolveu na luta contra a segregação racial.

Com uma trajetória marcada pelo ativismo, Abdias conseguiu importantes resultados de suas iniciativas na defesa e na inclusão dos direitos dos afrodescendentes brasileiros, principalmente, por meio de políticas públicas. Por exemplo, em 1988, tornou-se um dos responsáveis pela instituição da Comissão do Centenário da Abolição e por seu desdobramento na Fundação Cultural Palmares. No mesmo ano, a Constituição do país passou a contemplar a natureza pluricultural e multiétnica, a prática do racismo tornou-se crime inafiançável e, também pela primeira vez, se falou no processo de demarcação das terras de quilombos.

Fonte: Palmares

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