segunda-feira, novembro 28, 2022
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Num país racista, educar para as relações etnico-raciais não é uma opção. Ou imagina o que aconteceria se Walcyr Carrasco aproveitasse a falsa polêmica para falar sobre racismo e infância.

Bem, se não estão felizes com o que estou fazendo contra o preconceito, tiro o personagem da novela e acaba a polêmica. Eu escrevi Xica da Silva, primeira novela com protagonista negra no Brasil. Isso sim é lutar contra o preconceito.

Pòr Charô Nunes

Walcyr Carrasco
Num país racista, educar para as relações etnico-raciais não é uma opção.

Uma das primeiras desculpas quando da denúncia de racismo na Feira do Livro de Frankfurt, foi que na verdade não era bem assim. Eles não estavam sendo racistas. Tratava-se apenas de um processo “natural” de seleção. Ou ainda, que não era sabido quantas etnias (conceito claramente distorcido nesse contexto para dizer que não é possível determinar quem é negro) existem no país. Finalmente, falou-se que não foram escolhidos escritoras e escritores negras e negros porque estes não são publicados. Combater tal distorção nem foi aventado, claro.

Seria apenas uma questão de “traduzir”, de “retratar” a realidade. O mesmo argumento está sendo usado agora para justificar um pai branco raspe o cabelo comprido e natural do filho negro após este ser adotado. Para Walcyr Carrasco, deveríamos estar contentes por sermos minimamente representados através de cotas que pretendem tudo, menos ser inclusivas. Todo o resto não importaria muito. Mais uma vez. Veja, uma novela é apenas uma novela certo?

Não é de se estranhar. Esse é o lugar do negro na novela atual de época onde são incubados racismo, sexismo, cisheteronormatividade, entre outras coisas. É no folhetim que homens brancos fazem negócios e política, mulheres brancas são alguma coisa de alguém (esposas, filhas, namoradas) e nós, não-brancos, ocupamos espaços de subserviência. Somos empregadas domésticas, motoristas, caseiros. Com muita bondade um menino adotado, Pra Walcyr Carrasco deveríamos ser nada menos que gratos obviamente.

Sim, é incomum vermos negros serem adotados. Precisamos falar sobre. Por isso a adoção de uma criança negra como Jayminho é mais do que especial. Há alguns anos, impensável. Um passo gigantesco, ninguém discorda de Walcyr Carrasco. Ao mesmo tempo, é insuficiente. Adotar uma criança não dá o direito de dispor sobre seu corpo de outrem. A tensão racial só torma aquilo que é gravíssimo no inominável, Mais uma vez o menino negro é apenas uma peça sobre quem o homem branco, autor ou pai, pode decidir de acordo com seus interesses.

Alguns dirão que é um ato de proteção, com o cabelo cortado o menino não “sofreria tanto preconceito” nos ambientes que irá frequentar. Isso pra mim não é amor. É se esquivar de seu próprio racismo. O problema não é aquele que aponta o dedo, que chama de feio, que acha sujo, O problema é o cabelo do menino que significaria uma série de atributos negativos. Não do branco racista que não sabe lidar com a beleza de nossos cachos e crespos. Mais uma vez, isso não é amor. É racismo Walcyr Carrasco.

Num país racista, educar para as relações etnico-raciais não é uma opção. É tão necessário quanto alimentar, vestir e carinhar. Parentais, de todas as cores, precisam entender isso. A partir do momento em que um autor se propõe a “fazer algo contra o preconceito”, tem a obrigação de ir além. Nesse caso, abordar os obstáculos (e as delícias) de se educar uma criança negra. Sem isso, desreve um simples ato de caridade que não se sustenta. Walcyr Carrasco fez da criança um objeto de consumo. Um amigo negro, um filho negro. Olha como é bonitinho, se comporta (e até parece) branco!

Falta a percepção de que a luta antirracista não pode ser… Racista! Que não basta circunscrevâ-la num pequeno intervalo de tempo e espaço. Que não ter sido racista ontem não impede ninguém de ser racista amanhã. Que a pior coisa a ser feita quando confrontados com nosso próprio preconceito é assumir uma postura intransigente e errática. Uma pena. Imagina o que aconteceria se Walcyr Carrasco aproveitasse a falsa polêmica para falar sobre racismo e infância. Apenas imagina.

Fonte: Indigestivos Oneirophanta

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