quinta-feira, dezembro 8, 2022
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O Brasil não é mais aquele

Por Flávio Aguiar.

Nesta quarta-feira, 1º. de outubro, vou participar de um debate na livraria Livraria (este é o nome), em Berlim, sobre “Do Real à Real: O Brasil hoje”, ao lado do professor Sérgio Costa, do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim, e do escritor Rafael Cardoso. Apresento aos leitores do blog da Boitempo a linha geral de minha intervenção:

1. A equação Brasil no nosso imaginário mudou.

2. O Brasil mudou de de dimensão, de equação e de lugar.

3. Dimensão
Estamos acostumados com a projeção de Mercator, da geografia escolar, no mapa-múndi, com foco na altura do Trópico de Câncer, no Hemisfério Norte. O Brasil ali é diminuto, menor do que o Alasca e a Groenlândia. A projeção agora terá de ser outra. De repente o Brasil aparece com seu tamanho “verdadeiro”: oito mil quilômetros de comprido por outros oito mil de largura. De fato, um gigante.

4. Equação
O Brasil não é mais a equação onde predominam os pobretões, os miseráveis, os absolutamente despossuídos, as favelas abandonadas, as crianças esquálidas, etc. Ao contrário: a infância no Brasil hoje enfrenta o problema da obesidade precoce. A “classe média”, do ponto de vista do consumo, é maioria no país.

5. Ainda a Equação
O Brasil foi e ainda é um dos campeões da desigualdade. Mas a desigualdade diminuiu. Isto é um fato, atestado por inúmeros índices. Os resultados são interessantes, mas problemáticos. Desde a década de 70 as cidades brasileiras foram planejadas para o automóvel. Mas não para que tantas pessoas pudessem comprar automóveis ao mesmo tempo. A economia foi planejada, mas não para que tantas pessoas tivessem emprego ao mesmo tempo: era necessário manter um exército industrial de reserva, leia-se, de desempregados, grande, para “baixar o custo Brasil”, leia-se, comprimir os salários. Isto acabou. Resultado: muito mais pessoas se deslocam nas cidades brasileiras. Idem graças à inclusão educacional, e a de saúde. Resultado: as cidades estão congestionadas.

 Ainda a Equação (ii)
O Brasil foi planejado para co-existirem, nos condomínios, duas entradas, a “social” e a de “serviço”. Isto não acabou, mas a expressão “de serviço” deixou de ser discriminatória, e passou a ser de fato, “de serviço”, isto é, reservada para mudanças, deslocamento de malas, grandes volumes, etc. Também: o Brasil não fora planejado para as empregadas domésticas terem carteira assinada obrigatoriamente, nem receberem pelo menos o salário mínimo – e um salário mínimo em ascensão.

6. Ainda a Equação (iii)
O Estado moderno, desde os espasmos das Grandes Guerras, foi planejado para garantir direitos e administrar privilégios. Administrar = garantir, mas reduzir, embora nunca eliminar. Isto valia para os dois lados do muro de Berlim. Em países como o Brasil, a Equação era a de o Estado garantir privilégios e administrar (a redução de) direitos. Este termo da equação de desequilibrou, ou melhor se equilibrou, talvez tenha até se invertido. Um pouco, mas invertido.

7. Lugar
O Brasil era o grande – importância do termo “grande” – devedor do FMI e do G-7 (não 8, Rússia excluída) na América Latina. Hoje o Brasil é credor do FMI e da União Europeia quebrada, mantendo ações humanitárias na África, na Ásia, na América Central, e com uma relação de igual para igual na América do Sul e na América do Norte. Participa da criação de um Banco de Desenvolvimento Internacional Alternativo ao FMI, ao Banco Mundial, ao BID.

8. Tudo isto desestabiliza o nosso imaginário
Há quem veja nisto o caos, a confusão, a desorganização do mundo. Há quem veja nisto a ascensão, o acesso ao que nunca teve. Há quem veja nisto a concorrência em espaços antes “reservados” ou “garantidos”, como nas universidades ou na busca de emprego. Tudo isto gera ansiedade. Inclusive na Europa, onde os Estados hoje administram a redução de direitos e garantem privilégios. Diante da ansiedade, a primeira resultante é a tentativa, ainda que fantasiosa, de restabelecer a equação anterior.

9. A tentativa de restabelecer a Equação Brasil anterior não é privilégio apenas das oposições nesta eleição que se avizinha dramaticamente. Assisti ontem um documentário do canal internacional Arte sobre o tema “Brasil, rumo a uma grande potência?”. O documentário foi feito no ano passado, ainda no embalo das manifestações de junho e na campanha para declarar que o Brasil não tinha a menor condição de organizar uma Copa do Mundo. Visivelmente, ele foi feito para a rede francesa do Arte, e adaptado para a rede alemã, que fez-lhe uma cabeça e um encerramento atualizado. Mas o clima ainda era o anti-copa. O resultado foi surpreendente. A apresentadora, dirigindo-se diretamente à presidenta Dilma, dizia que esta era otimista quando à imagem do Brasil, mas que agora chegara a “hora da verdade”, e de verificar a “catástrofe” que era o Brasil. Assisti uma hora de programa, até o fim, esperando a tal da catástrofe, e ela não veio. O que veio foi a exposição de um “work in progress” chamado Brasil, com problemas e conquistas. Havia depoimentos tocantes de pessoas moradoras na favela sobre como sua vida tinha mudado. De catastrófico, havia o depoimento do líder do Greenpeace, dizendo que as plataformas do pré-sal vão inundar o oceano com manchas de óleo (parece a BP britânica) e o depoimento de uma manifestante de julho, que não provinha de favelas ou pobreza, entoando aquela ladainha de que no Brasil nada funciona. Ficou a impressão forte de que os editores da versão alemã do programa sequer se deram ao trabalho de assistir o vídeo previamente. Azar o deles.

 

 

Fonte: Boitempo 

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