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O corpo-navalha de Jorge Laffond e um ativismo pilintra preto-gay

A batucada e o Malandro aproximam…

Peço agô a Exu. Bato cabeça e rogo para que faça a mediação desta prosa. Este artigo é um levantamento científico, em processo de gestação, dedicado a catapultar representações positivas de Jorge Laffond para além da personagem humorística Vera Verão, tão cristalizada no imaginário social. Tais representações são notadas em outras performances e indicam faces de sua persona. Faces essas que, ao mesmo tempo, negam as hierarquias de raça, gênero, sexualidade, titubeiam e as afirmam, fundando um outro lugar marcado pela insurgência.

Jorge Laffond no filme Bette Balanço. Rio de Janeiro, 1984. Fonte: site Memórias Cinematográficas.

Essa maneira de existir faz jus à nomeação de ambivalente, de corpo-navalha. Entender a dubiedade desse lugar, fundado pelo corpo-navalha do bamba Laffond, é o alvo deste texto-gilete que, como Seu Zé Pilintra, faz vadiagem, recua para depois golpear a lógica binária violenta e a corta, em postas, com lâmina dupla, fazendo das esquinas seu carnaval.

Para cumprir este intento, as fontes consultadas serão a autobiografia homônima ao artista, de 1999, os acervos das revistas Raça e Manchete. Valho-me também da pesquisa ao repositório eletrônico de jornais como a Folha de São Paulo e da busca em sites como Hoje Mais e Folha Online.

Preto-gay multiforme

De saída, é socializada a trajetória profissional de Laffond até chegar na televisão e na avenida. Em 29 de março de 1952, do signo de áries, regido pela divindade africana Oxumarê, nasceu, na Penha (Rio de Janeiro), Jorge Luiz de Sousa Lima. Negro-gay, carioca e candomblecista, teve projeção nacional nas mídias de massa entre os anos 1970 e 2000, conforme noticiou o site Hoje Mais, do dia 19 de julho de 2017.

A consciência da homossexualidade veio pela escuta dolorosa de comentários lgbtfóbicos. O ódio social à sua performance de gênero, que não acompanhava a anatomia de sua corporeidade negro-masculina, o apavorou, mas não o paralisou. Como o racismo não espera racionalidade de homens negros, Laffond, estimulado pelas mulheres negras de sua família materna, resistiu ao racismo e à homofobia pela escolarização. Estudou balé clássico, dança contemporânea africana e formou-se em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). Teve aí início a carreira de bailarino na companhia de dança de Haroldo Costa. Com isso, Jorge Luiz de Sousa Lima risca um outro destino, diferente daquele ditado pela normativa branca e patriarcal.

Laffond se aquilombou no balé de Mercedes Batista, coreógrafa e bailarina, a primeira mulher negra a integrar o corpo de baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Integrou o elenco de bailarinos do espetáculo A viita de Oxalá ao reino de Xangô. Deu vida ao personagem Exu. Aderiu ao grupo de bailarinos do Fantástico. Em 1974 uniu-se ao elenco do programa Viva o Gordo, de Jô Soares. Colaborou com o programa de TV infantil, de 1983, Plunct, Plact, Zuuum, exibido pela TV Globo. Aglutinou com o time de artistas da novela Sassaricando, dando vida na trama a Bob Bacall. E compôs, com Renato Aragão, o humorístico Os Trapalhões, interpretando o personagem Soldado 24. A consagração do seu trabalho na mídia de massa ocorreu quando se somou ao elenco de A Praça é Nossa, no qual permaneceu por dez anos, sob a regência de Carlos Alberto de Nóbrega. Na ocasião, performatizou a jocosa Vera Verão.

Bob Bacall, personagem de Jorge Laffond na novela Sassaricando. Rio de Janeiro, 1987-1988. Fonte: site Tenor.

Laffond era um artista versátil. Em outubro de 2002, interpretou, com forte densidade dramática, o texto clássico Cristo Negro, de Fernando Pessoa, no programa Alô, Alô, da TV Cultura, uma de suas últimas aparições na TV aberta antes de falecer, em janeiro de 2003, devido à ocorrência de problemas cardíacos, hipertensivos e um quadro clínico depressivo.

Durante o carnaval, era aclamado no Rio de Janeiro e em São Paulo. Foi ainda um dos primeiros homens negros a ocupar o posto de rainha de bateria, pela Escola de Samba Unidos de São Lucas, em São Paulo, como divulgado na Folha, de 11 de janeiro de 2003. E a explorar a nudez em desfile.

Este artigo, por sua natureza de síntese, se concentra na tematização do corpo paradoxal de Jorge Luiz de Sousa Lima. O objetivo é apresentar pontos-chave de uma sondagem acerca dos vetores de subversão às normativas socialmente estabelecidas acerca de raça, gênero e sexualidade, materializados e anunciados por sua corporeidade.

Para atender a esse propósito, tomo Laffond na chave da cosmovisão afro-brasileira pela figura mítica de Seu Zé Pilintra. Seu Zé responde pela representação religiosa de Exu, celebrada pela umbanda, vivenciada a princípio no campo urbano da região sudeste, especialmente, no Rio de Janeiro. Trata-se de uma energia ancestral que é simbologizada pela boemia, pela libidinosidade, pela contravenção, pela cafetinagem, pela capoeira, pela noite. Seu domínio são as ruas, portos e zonas de meretrício. Eis a sabedoria encantada pela diáspora, traduzida pelo pensamento negro que atravessou o Atlântico, que arrasto para o campo das ciências humanas, para pensar o corpo negro-gay de Laffond.

Como apontaram Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino, o campo de batalhas da vida é vencido não com sorte, mas com encanto e oportunidades. Decifrar as oportunidades, que encantaram o corpo-navalha de Laffond, é o alvo deste e de outros escritos.

Corpo-navalha paradoxal

O corpo negro-gay de Laffond é instrumento de subversão à normativa de gênero imposta. A subversão é testemunhada na nudez afrontosa, negro-masculina, nas ruas, durante os dias de folia, dedicados aos desfiles das escolas de samba pelas quais passou. Daí o seu esmero com os preparativos pré-carnaval. Em uma sociedade patriarcal e hiper-sexualizada, o tipo de nudez que se consome é a feminina e não a masculina negra-gay. Esse fato não passou despercebido pelos aparelhos repressores. 

Se houve subversão, pelo samba de Laffond que borrou a fronteira de gênero, houve também repressão. Isso é observado na edição 2498, do ano 2000, da revista Manchete. Ao descrever o time de famosos que desfilou pela escola de samba paulista Tom Maior, a revista em questão indagou o posto ocupado por Laffond no carnaval, o de padrinho de bateria, que, tradicionalmente, é preenchido por mulheres e não por uma Bixa-Preta de quase dois metros de altura: “Contam também com a presença de Rita Cadilac, Max Fivelinha (da MTV) e Jorge Lafond como padrinho (?) da bateria”. A interposição da interrogação, após o registro do lugar artístico ocupado pelo Negro-Gay no desfile da escola Tom Maior, é lida como enquadramento normativo. Segundo a revista, é destoante da norma, madrinha de bateria.

Se a violência colonial é sistêmica, a transgressão também é. Outra recordação transgressora vem à mente. Na edição 2029 da revista Manchete, de 2 de março de 1991, Laffond virou notícia pela ressignificação de Alice, personagem icônica do romance Alice no País das Maravilhas, escrita pelo inglês Lewis Carroll. Trajado de maneira ousada – de minissaia, salto alto e mangas bufantes, ambos prateados -, foi noticiado como “metáfora sutil” do protesto do carnavalesco Joaozinho Trinta pela retaliação sofrida pela Escola de Samba Beija-Flor. 

Em outro momento, a celeuma em torno da nudez de Laffond nos dias da festa em que se lançam não só confetes e serpentinas, mas também patrulha e castigo aos corpos, deu a tônica dos embates por ele protagonizados. Segundo a revista Manchete, do ano de 2004, edição 2529, a escola de samba carioca Beija-Flor, que exibiu, no início dos anos 1990, a corporeidade de Laffond besuntada de purpurina e com apenas uma folha cobrindo sua genitália, pagou um preço. Tamanha transgressão, na época, durante o reinado de Momo, custou, por dois anos consecutivos, a dedução dos pontos alcançados pela escola durante a apresentação. Esse fato é flagrante das estratégias de dominação sistêmica do corpo, como também dos mecanismos subversivos lançados pela matéria carnal preta-gay de Laffond. Atentar-se para esse direcionamento é desejável para um entendimento integral do ator.

Jorge Laffond como destaque no desfile da Beija-Flor. Rio de Janeiro, 1990. Fonte: Blog Diversidade.

Convém registrar que o Laffond que elegeu o samba (expressão estética e política cunhada por sua coletividade negra) como vetor de subversão à normativa do gênero imposta socialmente, tal como foi visto acima, foi o mesmo que disse, em sua autobiografia, que não deve nada à comunidade negra.

Tudo isso faz com que lhe caiba a alcunha de corpo paradoxal, corpo-navalha. Um corpo cercado de duplos. Um corpo que nega os coletivos identitários aos quais pertence, mas que também, ao seu modo, se apropria das lutas coletivas, registra sua contribuição e assim corta, com o corpo-navalha militante, a norma imposta. Entender esses duplos é tarefa urgente. Por isso, Laffond reserva à incompreensão aqueles que só olham um lado de uma vida cercada de múltiplas personas, de muitos cruzos. Quem atravessa as ruas e olha só para uma direção, corre perigo. Pois Laffond, assim como o ligeiro Exu, poderá atropelá-lo/a.

Corpo-navalha insurgente

Na esfera privada, o artista coleciona vivências que atestam ginga, malandragem, epistemologias das ruas, axés de Seu Zé. Laffond conta que tinha faro para rastrear a malandragem masculina em contextos de erotização. Quando os homens se aproximavam para explorá-lo, seu corpo-navalha logo reagia e invertia o jogo. Ele era quem os explorava. 

Falando ainda em subversão, o mesmo se deu com o nome artístico, Jorge Laffond. O sobrenome Laffond é de ascendência europeia, inspirado no da atriz Monique Lafond, nascida em 1954. Trata-se, portanto, de uma atriz não-preta, que fez sucesso midiático em seu tempo e espaço. Laffond, o Jorge, codificou esse sobrenome com seu axé pilintra e fez dele o seu patuá. Africanizou, diasporizou, aquilo que era ocidental. Tomou um gole de cachaça, deu uma baforada de cigarro, gargalhou o nome ‘Lafond’ com seu próprio hálito, tomou outro gole de cachaça, deu novo trago e baforada, colocou mais um “f” e pronto! Dito em pretuguês, o sobrenome Laffond já era seu, meu amô! Tão seu que, dificilmente, as pessoas associam Laffond com Lafond. Um sobrenome feminino que passou a responder pelo enredo da Quase Mulher da Penha. Eis aí mais uma embolada estético-política de contestação das fronteiras de gênero, decepadas pelo corpo- navalha de Jorge Luiz de Sousa Lima. 

Que Exu, Seu Zé, Pombagira e demais rizomas das encruzilhadas pelos quais o Mensageiro responde sempre assoprem em nossos ouvidos mandingas e nos deem sagacidade para resistir aos ímpetos ideológicos segregacionistas que dizimam etnias e povos. Que Exu alimente nossa expertise, a exemplo de Laffond, para que não cumpramos as regras do jogo, para carnavalizar, com astúcia, com ginga, com a navalha em riste e com o corpo preto-gay em ação, que cintila pelas ruas, contra os imperativos coloniais.

Laroiê!

Assista ao vídeo do historiador André Luiz de Souza Filgueira no Acervo Cultne sobre este artigo:

Nossas Histórias na Sala de Aula

O conteúdo desse texto atende ao previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC): 

Ensino Fundamental: EF09HI03 (9º ano: Identificar os mecanismos de inserção dos negros na sociedade brasileira pós-abolição e avaliar os seus resultados); EF09HI04 (9º ano: Discutir a importância da participação da população negra na formação econômica, política e social do Brasil); EF09HI08 (9º ano: Identificar as transformações ocorridas no debate sobre as questões da diversidade no Brasil durante o século XX e compreender o significado das mudanças de abordagem em relação ao tema); EF09HI26 (9º ano: Discutir e analisar as causas da violência contra populações marginalizadas (negros, indígenas, mulheres, homossexuais, camponeses, pobres etc.) com vistas à tomada de consciência e à construção de uma cultura de paz, empatia e respeito às pessoas).

Ensino Médio: EM13CHS102 (Identificar, analisar e discutir as circunstâncias históricas, geográficas, políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais de matrizes conceituais (etnocentrismo, racismo, evolução, modernidade, cooperativismo/desenvolvimento etc.), avaliando criticamente seu significado histórico e comparando-as a narrativas que contemplem outros agentes e discursos); EM13CHS502 (Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas etc., desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade, preconceito, intolerância e discriminação, e identificar ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às liberdades individuais); EM13CHS601 (Identificar e analisar as demandas e os protagonismos políticos, sociais e culturais dos povos indígenas e das populações afrodescendentes (incluindo as quilombolas) no Brasil contemporâneo considerando a história das Américas e o contexto de exclusão e inclusão precária desses grupos na ordem social e econômica atual, promovendo ações para a redução das desigualdades étnico-raciais no país); EM13CHS606 (Analisar as características socioeconômicas da sociedade brasileira – com base na análise de documentos (dados, tabelas, mapas etc.) de diferentes fontes – e propor medidas para enfrentar os problemas identificados e construir uma sociedade mais próspera, justa e inclusiva, que valorize o protagonismo de seus cidadãos e promova o autoconhecimento, a autoestima, a autoconfiança e a empatia).

André Luiz de Souza Filgueira

Preto-gay goianiense. Bacharel e licenciado em História pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO); mestre em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB), doutor em Literatura pela UnB. Professor Adjunto de História da África e de História e Cultura Afro-Brasileira da Universidade Federal do Pará (UFPA), Campus Tocantins/Cametá. Líder do Grupo de Estudos Jorge Laffond (Masculinidades e Sexualidades Afro- Diaspóricas) – UFPA/CNPq. E-mail: andrefilgueiraodara@gmail.com; Instagran: @andrefilgueira14


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