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O direito de Poder chegar e Poder ficar

Colunista da Revista.ag, a ativista e empreendedora social, que também é presidente do Instituto das Pretas, fala sobre as críticas à apresentadora Maju Coutinho

Por Priscila Gama, Da Gazeta

Maju Continho- mulher negra, de cabelo cacheado, usando camiseta salmão- sentada sorrindo com a mão no rosto
Maju (Foto: GLOBO/GIULINE BASTOS)

Definitivamente existe uma normalização do racismo e do machismo no nosso país. E eu já começo o texto mandando essa real, pra que a gente não perca muito tempo fundamentando o óbvio.

Falar mal de preto é uma coisa tão comum que tem gente que nem acha que isso é racismo.

Enfim, a gente tá em 2019, num tempo confuso. Um tempo em que a gente enquanto sociedade se esforça pra tentar fazer transformação ou fingir que está tentando, ao passo de um governo que dá lastro pras violências raciais e de gênero, possibilitando que pessoas se sintam no direito de violentar outras sem ao menos sentirem vergonha ou medo de serem punidas.

Mas Priscila, o que você tá dizendo é que essas pessoas não têm direito de se expressar?

É. É isso mesmo que eu tô falando. Ninguém tem direito nenhum de expressar ideias racistas, porque ideias racistas são ideias ilegais e, pegando o gancho no conservadorismo, ideias ilegais são ideias criminosas, e a manifestação de ideias criminosas são – nada mais, nada menos – do que incitação ao crime.

Ups! Nunca pensaram nisso, né!?

Eeeeeeeeee você sabe porque nunca pensaram?

É porque o racismo é o crime mais permitido no país – em razão de ele ser o exercício – velado ou não – da manutenção do privilégio branco. Um grito reacionário da menor parte da população que teme perder o seu protagonismo e, assim, o poder.

Essa semana, a gente se deparou com notícias de que mulheres negras movimentam cerca de 704 BILHÕES de reais por ano no mercado brasileiro, e que mulheres negras são 28% da população brasileira, assumindo assim a maioria do povo brasileiro. Ironicamente, seguimos sendo chamadas de minoria e gueeetificadas e oprimidas nas nossas potências, nos nossos acessos, e ainda muito mais cobradas e impedidas nas nossas permanências nos espaços conquistados.

E aí vem a Maju… ela mesma… a Maju Coutinho. Linda, competentíssima, representando essa maioria esmagadora e dando representatividade em canal aberto, na maior emissora do país. Isso tinha que ser suuuper normal. SOMOS A MAIORIA. Nada mais natural do que um jornal popular ser comandando por alguém que represente a maioria, falando diretamente às nossas histórias de passado, mas, principalmente, ressignificando as possibilidades de presente e fazendo novas pontes de futuro. E isso é muito potente. Isso é uma avalanche de reconstrução em orgulho preto é algo ameaçador para os racistas.

Os erros da Maju, pra mim que sou mulher preta, são erros tão comuns como os da Sandra ou de qualquer outro jornalista que já esteve à frente do Jornal Hoje. São erros comuns a programas ao vivo. Mas pros racistas, os erros são a oportunidade de velarem suas psicopatias, as violências, a meta em não nos deixar permanecer, em recuperar não só esse, mas todos os espaços que determinem quem pode e quem deve protagonizar os diálogos de poder.

Resumindo: o que incomoda não são os erros da Maju. O que incomoda é a Maju. E ela incomoda porque não se pode dizer que essa mulher negra, retinta, com uma história de força, que exibe seu lindos e elegantes cabelos crespos ao vivo, não é uma referência de competência e potencialidades. O que incomoda é que ela não se deixa ser usada como símbolo da Meritocracia. Porque sabe que meritocracia é exercício racista de pintar um quadro sobre um cenário que não existe. Não se pode falar de mérito num país onde os acessos são negados e as permanências impedidas.

O que eu venho dizer aqui é que essa é uma demonstração de que precisamos, com urgência, falar de Branquitude e Privilégio. A negritude neste caso é um dado. É a Branquitude e o Privilégio que precisam de atenção aqui. Uma luz pra que pessoas brancas discutam como vão se conscientizar que a transformação da sociedade doente que a gente vive dar-se-á a partir de IGUALDADE E EQUIDADE, da distribuição dos protagonismos, das representatividades e também do poder. E que, portanto, o privilégio não é um dado positivo.

Precisamos falar de racismo pra pessoas não negras entenderem que nessa luta há espaço pra eles quando do ANTI-RACISMO. E ser anti-racista, definitivamente, não é compartilhar, concordar, dar desculpas ou apoiar atitudes, ideias e notícias racistas.

E aviso aos navegantes desse mundo plural: A Maju tem o nosso apoio. Não há uma mulher negra que não sinta orgulho dela e a gente vai marcar junto pela sua permanência. Assim como faremos – uma a uma – com todas que chegarem lá, até que sejamos várias. Até que a ascensão de mulheres negras não seja novidade ou exceção. Até que seja proporcional. Até que seja comum você assistir um jornal comandado por uma mulher negra, ou ser atendida por médicas negras, ou acompanhar um STF com ministras negras. Até que seja normal representantes do Executivo e Legislativo serem negras. Até que você marque uma reunião numa grande empresa e seja recebido por uma CEO negra. Até que estejamos subvertendo as estatísticas e vivendo como devemos, merecemos e queremos viver. E vamos.

E seremos várias.

Anotem aí: várias.

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