O Eu não tecnológico

O que há de definido ou imutável no ser humano?

Por Kleber Marin, do Justificando 

Foto: Pixabay

Somos algo de determinado e algo de indeterminado, mas não sabemos das coisas do mundo ao nascer, como o mundo é da forma que enxergamos.

Por determinado podemos atribuir algo como definido ou imutável, que de certa maneira não muda durante a nossa vida, enquanto o nosso corpo existir, um Eu Natural. E, deste modo, a questão que se coloca é: o que há de definido ou imutável no ser humano? Ora, o que pertence a natureza humana, conhecida por sua característica comum e as suas características singulares (particulares).

Da sua característica comum encontramos a razão. Isto é, todo ser humano que apresenta uma aptidão para as diversas atividades do cotidiano, é dotado de razão. Como assinala o filósofo Descartes, “Quanto à razão ou ao senso, principalmente por ser ela a única coisa que nos torna homens e nos distingue dos animais, quero crer que está por inteiro ao alcance de todos”. Ou seja, o ser humano comparado com os outros animais é o único que apresenta a capacidade de antecipar as suas ações, projetar a longo prazo, resolver problemas complexos, desenvolver tecnologias avançadas entre outras situações.

E, das suas características singulares (particulares) encontramos as nossas impressões físicas que não só são formadas antes de nascermos, mas também tais impressões nos acompanham por toda a vida. São formas únicas e exclusivas de cada indivíduo, de modo que não existe nada igual em nem um outro ser humano, haja vista a nossa digital, a palma da nossa mão, a íris dos nossos olhos entre outras características peculiares de cada um.

Por indeterminado podemos atribuir algo como a cultura, ou um conhecimento preexistente, um Eu cultural. Isto é, ao nascermos nos é apresentado uma determinada cultura, um conhecimento que, por sua vez, é desconhecido por aquele que nasceu. No entanto, embora não saibamos desta cultura ao nascer, vamos a tomando como modelo para ser o que somos, como dizia Arthur Rimbaud, “Eu é um outro”. Em outras palavras, se busco no outro alguém para me desenvolver, logo dependo do outro para ser o que sou e vice-versa. Ou como menciona Freud nos Ensaios de psicanálise, “O Outro sempre desempenha na vida do indivíduo o papel de um modelo, de objeto, de um associado ou de um adversário.”

Deste modo, adentramos numa outra questão: qual a importância de conhecer a si mesmo dado o pressuposto que embora ninguém é igual a ninguém, mas procuramos no outro para ser o que somos?

A importância de conhecer a si mesmo implica no mínimo em três razões fundamentais, tais como: um conhecimento dos próprios limites, um conhecimento do mundo e de uma valorização de si mesmo.

Ou seja, se conhecer a si mesmo, então conhecerá os próprios limites.

Sobre um conhecimento dos próprios limites, dado o cenário que muitas vezes à vida nos coloca, como um determinado desafio que nos sentimos incapazes em completá-lo com êxito, quando passamos a conhecer a si mesmo, conhecemos as nossas fragilidades, os nossos pontos fracos. E, assim, uma vez conhecido os nossos pontos fracos e se esforçando em vencê-los com atitudes e condições para essas mudanças, as nossas dificuldades diminuem ao longo do tempo de modo que noutra oportunidade podemos resolver esse mesmo desafio que antes não foi possível.

Ainda, se conhecer os seus próprios limites, então conhecerá o mundo.

De um conhecimento do mundo, dado o que adquirimos ao longo da vida e, principalmente, quando obtemos um contato com o outro, que nesse caso pode ser uma pessoa ou o que pertence a natureza, sob um interesse primeiro de conhecer a si mesmo, o resultado é nos sentirmos mais seguros em vivenciar essa relação com o mundo. Pois a tomada de decisão por conhecer a si mesmo nos prepara para uma melhor troca de experiência com o outro.

Além disso, se conhecer o mundo, então valorizará a si mesmo. De uma valorização de si, dada às diversas situações de aprendizagens, quando aprendemos algo novo automaticamente nos sentimos diferentes, não só nos sentimos satisfeitos pelo que adquirimos enquanto significativo, mas também não somos mais os mesmos. Assim, não só a pessoa passa a se valorizar mais enquanto ser humano, capaz de aprender algo novo, mas também a pessoa passa ter uma noção de chegada, um despertar sobre o que quer para a sua vida. Logo, se conhecer a si mesmo, então se valorizará.

Portanto, tal atitude se torna uma alternativa para a tomada de decisão, uma vez que decidir não só faz parte da nossa rotina, mas também não é uma tarefa tão fácil assim. E, como os desafios que a vida nos coloca, ocasionalmente, não imaginamos se podemos resolvê-los, conhecer a si mesmo é no mínimo fundamental nesse processo.

Kleber Marin é professor de Educação Básica I e professor de Filosofia na região metropolitana de São Paulo.

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