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‘Não podemos construir uma geração futura com ódio e afastamento’, diz pernambucana criadora do Caçando Estórias

Mais da metade das crianças brasileiras na primeira infância são negras ou pardas.

Por: Alice de Souza – Diario de Pernambuco

Kemla Baptista diz que o racismo dilacera famílias. Foto- Raphael de Faria:DP.

Mais da metade das crianças brasileiras na primeira infância são negras ou pardas. Entre a população indígena, 14% são meninos e meninas de 0 a 6 anos. Pensar a primeira infância é também desenvolver um olhar afetuoso da sociedade para com essa infância que, na maioria das vezes, é submetida muito cedo a processos de violência física e psicológica. Violência essa que perpassa preconceitos existentes na sociedade, ausência de políticas públicas efetivas e a desestruturação familiar consequente. Estabelecer vínculos, nesses casos, é tampar lacunas seculares de invisibilidade.

Em 2010, os índices de crianças vivendo na pobreza quase duplicava quando se comparavam brancos e negros. Além de serem submetidas a condições precárias de vida, essas crianças enfrentam desde cedo contextos que as diminuem enquanto seres humanos. “Quando se fala sobre primeira infância, pensamos naquela família de comercial de margarina, mas a gente precisa ter múltiplos olhares, pois a infância é múltipla. Uma mulher preta que engravida fica duas vezes nervosa: com a gestação e porque vai parir uma criança que, se for menino, pode vir a ser confundido com bandido, e se for menina, viverá a vulgarização do corpo da mulher negra”, afirma a contadora de histórias, pedagoga e empreendedora social criadora do canal Caçando Estórias, voltado à disseminação de conteúdo literário que referencia a matriz africana, Kemla Baptista.

Confira entrevista com Kemla Batista:

Para Kemla, trabalhar a autoestima na primeira infância significa encarar o racismo, a dilaceração das famílias em situação de pobreza, a falta de formação dos educadores na questão étnico-racial e a ausência de representatividade na mídia. “São questões que têm impacto direto na autoconfiança. A criança precisa da percepção de quem ela é. É necessário um olhar atento, vigilante e carinhoso para pensar a diversidade infantil, considerando pretos, indígenas, orientais e outros.”

Entrevista // Kemla Batista, contadora de histórias

Por que é preciso desenvolver um olhar mais atento para as múltiplas infâncias?

Há uma realidade de diferenciações. Uma criança branca numa escola de classe média ou até de subúrbio recebe carinho, é idolatrada. Já uma criança preta nesses espaços de sociabilidade da infância não recebe o mesmo tratamento. Dizer, por exemplo, que o cabelo dela é difícil de pentear, indomável, já é uma agressão. Desde muito cedo, essa criança lida com situações de racismo, violência física e emocional.

Quando se fala de múltiplas infâncias, do que estamos falando?

Das famílias de crianças adotivas, das famílias inter-raciais, etc. A gente vive, por exemplo, o dilaceramento das relações familiares derivadas da estrutura de racismo na qual vivemos. Não pensamos disso quando falamos de primeira infância. Como é que você vai falar de autoestima para um pai branco que tem uma filha negra e a sociedade desconfia dessa paternidade? Como fica a construção de masculinidade de um garoto que vê o pai encarcerado? E a criança de religião de matriz africana, que tem o pleno exercício religioso cerceado? É necessário um olhar atento e vigilante a essa diversidade na infância. Não podemos construir uma geração futura com ódio e afastamento.

Qual o impacto da falta de representatividade na infância?

Durante anos, o que aparecia na mídia e nos espaços de consumo eram brancos e loiros. Isso afeta a construção de identidade infantil. É preciso trazer a pessoa negra sem estereotipar, animalizar. São questões que afetam a construção de afetividade, de autoconfiança da criança.

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