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Por uma representatividade que contemple a vida comum

Ao receber o seu Emmy por Melhor Atriz em Série Dramática em 2015, Viola Davis ocupou o palco da premiação com uma postura e um discurso que trouxeram pontos muito pertinentes à discussão do peso da representatividade do povo negro dentro do entretenimento.

Por  Letícia Castor Moura para o Portal Geledés

Foto: Adobe Stock

Além de ter sido a primeira mulher negra a receber a estatueta – e até o momento, a única -, Viola ressaltou a necessidade de papéis que consigam ir além dos nichos de debates raciais e que coloquem pessoas negras em situações mundanas, cotidianas como vemos qualquer ator branco facilmente ocupar. Como se não fosse suficiente abrir seu discurso com a citação da lendária ativista do movimento abolicionista dos Estados Unidos Harriet Tubman e suas missões de libertação de escravos pela Underground Railroad, com a frase “não tem como ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem”, um questionamento tanto para a indústria marketeira quanto para a do show business é colocado em pauta: como assim, mas que papéis são esses?

Afinal, em 2014, 12 anos de escravidão levou o Oscar, filme monstro. Dois anos antes, a própria Viola estourava em Histórias Cruzadas ao lado de outra gigante da atuação e negra retinta, Octavia Davis. Como assim não existem papéis?

Sim, eles existem. Nos filmes sobre escravidão. Nos filmes sobre o movimento dos Direitos Civis, sobre os movimentos de resistência como o recente esnobado pela Academia, Infiltrado na Klan. O que, veja bem, é ótimo e é, acima de tudo, necessário, afinal, não podemos jamais nos dar ao luxo de cairmos no esquecimento em relação a todos estes momentos da história e o peso deles em nosso momento atual. Mas, honestamente, é inevitável sentir falta de algo a mais às vezes. Porque o negro também vai ao mercado, também trabalha em escritório, paga conta e consome de tudo um pouco. Então, se enxergar somente nos dramas sobre a escravidão e derivados já não é mais suficiente. Se ele faz parte do mundo, que este mundo o abrace também com o mesmo afago que fez com o branco desde sempre. O coloque nas propagandas sem graça, nos panfletos de merchandising, nos filmes blockbusters feitos só para entreter.

O princípio aqui me remete ao dilema do ensino da história negra nas escolas: aprendemos sobre a escravidão, o quão terrível ela foi e, deste modo, somos condicionados a enxergar o povo de forma reduzida e empobrecida. Um povo cuja única identidade remete ao sofrimento e nada mais, o que é bem distante da realidade. Não aprendemos sobre a história africana sem a interferência do homem branco, sobre a riqueza de suas inúmeras culturas, seus reinos e a ancestralidade de cada povo, o que é extremamente limitante. A criança negra cresce se enxergando como fruto daquele sofrimento e, ao longo de sua vida, dificilmente tem referências que tragam um outro ponto de vista.

Como fã de cinema desde a adolescência, revendo minha estante de filmes e minha lista de favoritos, vejo de tudo um pouco. Tem comédias no meio, tem dramas e romances, tem terror e suspenses incríveis (alô, Jordan Peele!). Tem filmes comuns sobre inúmeros temas que lotam bilheterias anualmente é isso aí, segue a vida. Claro que estamos todos carentes de referências negras no mercado pela falta imensa de visibilidade destes profissionais, mas o que mais tem me incomodado é que, a grosso modo, atores e atrizes negros parecem apenas trazer grandes atuações e protagonizar grandes histórias quando o tema da obra é cirurgicamente específico, sobre a dor e a luta do povo negro. É como se o resto das tramas ainda fosse exclusiva ao cidadão-modelo, o cara branco galã, a moça loira angelical e todos os outros arquétipos que já tão bem conhecemos.

Quando Viola disse a frase acima em 2015, ela ganhava pelo papel de Annalise Keating, uma advogada exímia em seu trabalho e professora de Direito Criminal. Se lêssemos apenas a premissa da série, é com isso que nos deparamos, o debate de raça não é colocado na mesa. Obviamente, com o desenvolver da trama ele é abordado e, mais adiante, trabalhado com todo um tato pelos roteiristas, mas observe que a raça não foi um fator determinante para a construção da personagem em seu primeiro momento. É disso que precisamos, de musicais e filmes de ação, de propagandas corriqueiras de televisão que coloquem os negros em destaque e sobre o holofote sem a necessidade de fazê-lo. Precisamos de uma ascensão espontânea de negros protagonizando grandes histórias pelo simples fato de que eles são tão parte desta sociedade quanto qualquer outro, ao invés de serem somente convocados quando a indústria quer falar sobre o racismo e assumir a sua culpa.

É nítido que isso jamais pode deixar de acontecer, mas enquanto for o único critério de seleção de talentos negros para papéis de destaque, não iremos muito adiante, sinto dizer. Temos uma cartela de it girls brancas e eurocêntricas como Jennifer Lawrence e Emma Stone. Estas e similares são nossas referências enquanto muitas outras atrizes negras são sim reconhecidas como incríveis, mas apenas quando a raça está em pauta, o que as impede de desenvolver qualquer outro traço que não se relacione com isso.

Sim, hoje isso está lentamente mudando. Cresci vendo a negra sempre no papel da empregada ou da mulher libidinosa nas novelas brasileiras, por exemplo. Hoje, elas têm histórias suas que independem da cor da sua pele e que a colocam como uma mulher completa, e não apenas como um símbolo de resistência cujos sentimentos e motivações são totalmente devotos a este princípio. Mas é preciso fomentar, é preciso fazer pressão para que até o filme mais bobo sem pretensão alguma de levantar algum debate social tenha protagonistas negros em seus cartazes, pois negros amam, dão risada e se machucam como qualquer outra pessoa.

É um dever da indústria com a própria autoestima do povo preto para que este se enxergue como além do resultado de injustiças histórias tremendas e desumanizações. Para que ele se enxergue como um cara ou uma mina como qualquer outro, tão rico e complexo quanto possível, tão passível de características diversas como as que normalmente associamos às figuras-padrão de protagonismo. Para que ele percorra os caminhos que o branco já conhece sem causar espanto quando aparecer na televisão assim, despretensiosamente. Livre de amarras e pronto para conquistar o mundo exibindo sua pele, não como um escudo pronto para a briga, mas sim, como vestes que esbanjam orgulho de ocupar os lugares que sempre lhe foram de direito.


** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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