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O mundo fechado da classe média tradicional

O mundo fechado da classe média tradicional

Classe média tradicional: reflexões e autocrítica de um indivíduo que pertence a esta classe social a partir de um fato do cotidiano

Alexandre Tambelli, no Pragmatismo Politico 

Nos anos 90 um fato cotidiano me marcou. Fui com jovens de classe média tradicional (minha classe social) jogar bola em um clube de campo.

Para chegar ao clube precisamos passar por bairro periférico, onde a característica é a ocupação de morros com moradias simplórias visíveis do plano da estrada.

De repente olhando para o lado esquerdo da estrada um desses jovens avista um galpão simplório no alto do morro com a seguinte placa escrita:

– Aluga-se para casamentos e festas.

No mesmo momento da leitura da placa deram-se duas situações com o jovem:

– começou a gargalhar com escárnio.

E de imediato saiu este comentário (+ ou – assim):

– Que escroto! Festa de casamento nesse lugar. (começou a gargalhada coletiva).

Imaginemos juntos a quantidade de preconceitos produzidos do pós-comentário.

Neste universo de classe média tradicional (claro que existem outros padrões de comportamento dentro da classe média tradicional, porém, este do fato relatado é majoritário e a base do texto e reflexões) há certa característica: olhar o mundo a partir da TV e revistas semanais, das novelas, do que diz os telejornais e da reprodução/ desejo de padrões de comportamento dos ricos na TV expostos. O mundo exterior e o comportamento não se produzem da vivência nos espaços geográficos e realidades sociais diferentes, existentes entre as classes sociais do Brasil.

Um indivíduo da classe média tradicional não tem o costume de visitar e de se misturar no cotidiano, além das relações de trabalho com os brasileiros da periferia, dos bairros proletários nem a periferia conhece; brasileiros “periféricos” que representam mais 70% da população.

Vivenciamos certa realidade que se fecha em cinco eixos: família, amigos, trabalho, lazer e viagens e não se olha coletivamente a realidade, e sim, dentro de um universo restrito a esse espaço de relações sociais, e geograficamente situados em bairros de classe média e médio-alta tradicionais e de serviços, ajuntado de um lazer que engloba barzinho, restaurante, shopping, cinema, teatro, shows, praia e viagem para hotéis-fazenda, parques aquáticos e os tradicionais pontos turísticos estrangeiros: Miami, Disney, Nova Iorque, Las Vegas, Paris, Cancun e não muitos mais.

O choque com o diverso não produziu/produz naqueles jovens uma crítica social, mas uma representação de um pensar coletivo e fechado em seu mundo particular que não vê no galpão de casamento simplório as contradições da sociedade de classes, apenas, talvez, enxergue que o mundo “outro” não lhe pertence.

Então, não podendo ser meu modo de vida, minha crença de como é ser feliz responsável por sua existência (do mundo “outro”), centrado estou e convicto de possuir uma diferenciação econômica e social meritória, fruto de uma vitória particular no esforço do trabalho e na herança familiar.

Eu me sinto superior por causa disto, eu me sinto com mais classe, glamour e direitos e sem culpas e obrigações coletivas vivo.

De tão fechado e estetizado meu mundo particular via TV e programas como o da Angélica, da Ana Maria Braga, do Dória, do Roberto Justus, do Luciano Huck e da Fátima Bernardes e revistas semanais como a Veja, Claudia, Caras, etc. e seus castelos fechados é inconcebível uma festa de casamento naquele galpão em cima do morro, porque não poderia ser um casamento, afinal ali não se pode fazer uma festa de casamento, não é feliz quem casa/comemora ali.

Um preconceito coletivizado, compartilhado.

Nenhuma reflexão da herança escravocrata que criou o quadro social brasileiro de apartheid, de profunda desigualdade entre as classes pode sair dessa realidade social irreflexiva.

Fechados em um mundo que não se mistura com o “outro”, o diferente: o indivíduo de classe média tradicional, quase sempre, não tem a curiosidade de saber nem como é o cotidiano, o bairro, a vida/ realidade social do empregado (a) de sua casa: o jardineiro, a diarista, a mensalista, a cozinheira, etc.

Vivemos e nem percebemos o mundo real e suas contradições. Estamos presos na rotina do trabalho, que para nós pode escravizar até, porque o importante é que do trabalho diferenciado, fruto de um capital científico-cultural burguês acumulado, herança familiar e nascido dela e que permite o ingresso às boas universidades, alcançamos postos de trabalho de melhor remuneração, como nos diz, sempre com proficiência, o Professor Jessé de Souza, o que nos diferencia socialmente e nos torna um personagem a parte, não se podendo ilusoriamente ser colocado como partícipes da classe trabalhadora convencional.

Nosso mundo é outro. O que nos permite movimentar nossas fantasias de diferenciação cotidianas para uma simples manifestação contrária a inauguração de uma estação de metrô na porta de nossas casas, porque a inauguração geraria uma forma mais fácil dos pobres invadirem o “nosso bairro”.

Será que nós sabemos que esses trabalhadores que nos fornecem serviços braçais acordam, na maioria das vezes, 3,4, 5 horas da manhã, deixam o café e o almoço prontos para os filhos e saem de madrugada de casa, pegam algumas conduções como um CPTM já lotado e mais ônibus/metrô para chegar nas nossas casas, levando até 3 horas de suas casas até a nossa casa?

É importante pensar.

Este mesmo mundo que considera inconcebível uma festa de casamento em um galpão simplório em cima de um morro na periferia se enxerga mais próximo das 70 mil famílias ricas deste país e sonha em viver dentro dos padrões de vida dessa Elite nacional, este o espelho da classe média tradicional, que soma por volta de 25% de nossa população, mesmo que a distância social para os pobres seja muito menor que para os ricos, talvez uma casa própria na praia e um apartamento com o dobro do M².

Classe média tradicional que não teria condições de pagar um hospital particular como o Einstein ou o Sírio Libanês para pais aposentados, se estes já não mais podem manter o padrão de vida de antes da aposentadoria.

Classe média tradicional que pode ver sem culpas e/ou percepção a relação familiar se deteriorar, ver a relação de sociabilidade com os filhos e cônjuge ser quase inexistentes pelo acumulo de trabalho, nesta incessante luta por diferenciação social e por conquistas de bens materiais, símbolos de vitória e status.

O pensamento individual e o não choque daqueles jovens com a apresentação de uma realidade adversa dos pobres numa passagem por esses lugares, nascendo, sim, uma gargalhada e um preconceito imediato mostra porque as panelas se silenciam com o Governo Temer, afinal, na lógica imaginária da classe média tradicional, derrubamos os sem classe, os desclassificados, os sem glamour, os sem luxo e colocamos de volta ao Poder aqueles que têm classe, que são gente diferenciada e Elite ou que Governam na lógica meritocrática e do individualismo.

Os “outros”, os defenestrados do Poder, são do povo e cafonas, bebem pinga num balcão de bar, fazem churrasco em cima do telhado (na laje), fazem festa de casamento em um galpão de tijolo de barro num morro de uma periferia violenta qualquer. São “Outros” que, no imaginário desta coletividade da classe média e médio-alta tradicionais, se identificam com Lula e os petistas, portanto, não me representam, não fazem parte da minha classe social, não merecem meu voto.

Terminando.

Sempre lembrando que em muito se pareceu o comportamento de boa parte dos ascendidos sociais da Era Petista. Uma reprodução do modo de vestir, dos costumes e da busca por diferenciação, mesmo que sem conseguir sair dos bairros mais periféricos, via coisas materiais (carro, roupa de marca, TV à cabo, perfume importado, I-Phone, planos de saúde, etc.) como faz a classe média tradicional. Este fato gerou uma concorrência maior de vivências sociais misturadas (profissões/ postos de trabalho e universidade) e geográficas (lugares – cinema, aeroportos, restaurantes, praias, Miami, etc.) entre a classe média tradicional e a classe C do Lula, o que nos pode dar uma pista do porque a classe média e médio-alta tradicionais se manifestaram com tanto ódio em favor do Impeachment da Presidenta Dilma.

Afinal, com a Era Petista a diferenciação social e as exclusividades de certos espaços geográficos (lugares) estavam sendo perdidas. Os pobres aproximaram-se socialmente/ economicamente até e invadiram espaços sociais e geográficos (lugares), antes, ocupados por mérito, e não por “bolsas”, “cotas” pela classe média tradicional.

Já os ascendidos sociais da classe C, ao contrário, se calaram no processo do Impeachment da Presidenta Dilma, estes, talvez, não se viam mais como pobres nem ligados ao PT e ao Lula sem, também, se verem representados nos que foram para a Avenida Paulista em protesto pró-impeachment. Sabemos bem que não foram bem-vindos aos espaços sociais e geográficos (lugares) cridos exclusivos da classe média tradicional para cima.

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