O “pente que me penteia” vêm de África: Histórias de identidade racial e afetividade

Imagem – Fat people of color, tumblr

Em um mundo que tem como padrão de beleza, algo praticamente inatingível pra grande maioria das mulheres, branco, magro, loiro, que exclui e influencia na auto-estima de milhares de mulheres, a aparência acaba sendo um fator de extrema importância, para debater a afetividade da população negra, em especial das mulheres.

por Luana Soares no Blogueiras Negras

Eu, enquanto uma mulher negra, gorda e Black, certamente não me encaixo neste padrão. Em especial, meu cabelo é o ponto chave deste não-padrão que vivo diariamente. Duro, pinxaim, volumoso, bombril, são alguns dos nomes pelo qual, o tipo de cabelo que tenho vem sendo chamado ao longo da história, apelidos racistas que buscam inferiorizar e invisibilizar estas madeixas, que desde sempre cresceram pra cima, afirmando o lugar ao qual pertenço. Um lugar chave e originário de diversos outros lugares. Este lugar á Mãe África. Terra dos meus antepassados e de uma história que me foi negada pela colonização, pelo imperialismo, e que por vezes me tem sido negada pela Diáspora.

Minha relação com o cabelo sempre foi um problema. Muito cedo, a minha mãe alisava começou o processo de alisamento do meu cabelo, como uma forma de “amansa-lo”. E as formas de chegar a isso eram diversas, desde os alisamentos tradicionais até o famoso henê, que segundo a tradição popular “alisa e ainda pinta de preto”.

Mas meu cabelo sempre foi resistente. Parecia dizer a cada alisamento, o que ele queria e o que não queria, sempre teve vida própria. Lembro de minha mãe, reclamar intensamente sobre o fato dos alisamentos não darem certo, apesar do alto investimento. Em especial uma experiência me marcou, como o ferro que marcava as costas dos meus antepassados que sequestrados, vieram para esta terra chamada Brasil.

Aos 8 anos, minha mãe adoeceu. Nada grave, mas a deixou alguns meses de cama, impossibilitando que esta cuidasse do meu cabelo. Este cabelo que já havia sido modificado, reprimido, derrubado pela ação do racismo, que encontrava na figura da minha mãe, uma mulher branca, uma forma de se reproduzir em minha vida.

Nesta impossibilidade de “cuidar” do meu cabelo, ela me levou ao salão do bairro, e pediu que ele fosse cortado no estilo ” Joãozinho”. Lembro de sair do salão aos prantos e de ouvir impropérios pelas ruas, sobre o fato de “não arruma-lo”, em uma tentativa agressiva de me convencer, que aquela era a única forma dele não embolar.

Recordando esse triste episódio, me vem a cabeça diversas reflexões. Primeiro, sobre como a nossa identidade negra é tolhida desde a tenra infância e como nossas mães são ponto central disto. É nestas que repousa a responsabilidade pela maternidade, em especial nas comunidades negras, onde muitas destas são chefes de família, tanto pela ausência do parceiro, quanto pela sua presença, já que diante do desemprego do parceiro, sustentando a casa sozinhas.

Mesmo quando os dois são responsáveis pela casa, no que tange a questão econômica, é ainda sobre as mulheres que a obrigação do cuidado com a prole recai. Mulheres que vivenciam uma dupla jornada de trabalho, dividindo a tensão de suprir a casa financeiramente e ainda cuidar do psicológico e auto-estima de crianças negras, que já vivenciam o racismo muito cedo.

A negação dessa identidade negra é muitas vezes o único caminho enxergado por essas mães. É como se a exclusão dos elementos negros, do dia-a-dia, pudessem blindar as suas crianças, de vivenciar agressões racistas, de serem feridas e machucadas. Mulheres que foram moldadas pelo racismo, e por vezes, feridas e machucadas por este também na sua infância e adolescência. Essa tentativa de retirar símbolos negros do nosso cotidiano também pode ser interpretada como uma forma de negar a nossa ligação com o passado africano. E é no cabelo que uma parte desta nossa ligação com a África está circunscrita. Uma ligação que tanto pode ser física, como traduzida em signos.

Segundo, que nossos cabelos transmitem mensagens subjetivas, para os outros e para nós mesmas. Bell Hooks, em “Alisando nosso cabelos”, afirma que: “Independentemente da maneira como escolhemos individualmente usar o cabelo, é evidente que o grau em que sofremos a opressão e a exploração racistas e sexistas afeta o grau em que nos sentimos capazes tanto de auto-amor quanto de afirmar uma presença autônoma que seja aceitável e agradável para nós mesmas.”

E certamente, nossas mães, queriam que fossemos “aceitáveis e agradáveis”. Ser “aceitável” em uma sociedade racista é viver a tentativa constante de se igualar ao opressor, na aparência, nos discursos, nas práticas, e na visão de mundo.

O cabelo crespo é um elemento constituidor da identidade negra, uma identidade que assim, como nos traz Stuart Hall, é construída na relação com o outro, que em uma relação de opressão, faz com que o opressor imprima sobre o oprimido, as suas concepções do que é bonito ou feio, do que é aceitável ou não. Esta imposição, não se dá sem a resistência, por parte do oprimido. O Black, os dred’s, as tranças, para além de um visual estético, carregam dentro de si um afirmação e uma ruptura. A ruptura com um ciclo de violência racista sobre a nossa afetividade e sobre a forma como nos enxergamos, uma visão que está mais condicionada pelo racismo e pela posição que o sistema de classificação racial nos coloca, do que pelo que achamos de nós mesmos.

Essa ruptura pode ser identificada, a partir das reações que surgem, a partir do momento que se opta pelo uso do cabelo natural. No meu caso, posso dizer que tive a ajuda e a solidariedade de companheiras negras e militantes que me ensinaram os caminhos tortuosos da transição do cabelo liso para o cabelo natural. Mas, isto não blindou dos comentários, que perpassavam pela beleza ou não das minhas madeixas, mas na verdade se destinavam a questionar o porquê de ter rompido com o padrão eurocêntrico de beleza.

A sororidade construída entre as minhas companheiras negras que me ajudaram a enxergar naquele novo cabelo, a afirmação do que sou, e a cuidar dele, como um sinal de transformação, de encontro com esta identidade nega que me foi negada lá na infância.

Considero importante, o movimento que tem surgido em torno do cabelo natural. Páginas, blogs, sites, livros pipocam tratando do tema, ensinando cortes, tinturas, modelagens, hidratações, segredos muitas vezes ensinados por nossas avós, nas cozinhas das nossas casas, na beira das camas, nos bancos pelo quintal, mas muitas vezes negados por nós, em detrimento dos produtos oferecidos pela industria de cosméticos. Afinal, usar babosa, mel, maisena, óleos, a trança de dois, e os pequenos coques com o objetivo de modelar esse cabelo, não é nada novo, são parte de uma longa tradição de truques passados de mães negras para outras mães negras, por mãos negras.

Mas, acredito que o mais importante, é reafirmarmos, como o fez os Panteras Negras, e o Movimento Black Power de como esta transição, de como esta volta a origem, é um ato acima de tudo político, uma afirmação da necessidade de retornarmos a nossa gênese, e este trançado de histórias belas e que explicam o que somos e o que queremos ser.

Do lado de cá, o processo foi doloroso, mais extremamente gratificante. Andar por ai, exibindo meu Black, me proporcionou um reencontro com a minha auto-estima.Um reencontro com a Mãe África.

 


Luana Soares é Graduada em História pela Universidade Católica do Salvador, integrante da CONEN- Coordenação Nacional de Entidades Negras. Pesquisa Medicina Popular e Repressão na Década de 40, e temas relacionados ao Racismo, em especial Afetividade da Mulher Negra.

 

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