O que acontece quando a inteligência artificial erra? Americano vai para cadeia por crime que não cometeu

Randal Reid, negro de 29 anos, foi acusado por roubo em estado que nunca havia estado e ficou uma semana preso. Polícia não esclarece motivo, mas advogados atribuem a reconhecimento facial com IA, usado por delegacia

Na tarde de sexta-feira após o Dia de Ação de Graças, Randal Quran Reid estava dirigindo seu jipe para a casa de sua mãe, nos arredores de Atlanta, quando foi parado em uma rodovia movimentada. Um policial se aproximou de seu veículo e pediu sua carteira de motorista. Mas Reid havia deixado o documento em casa e ofereceu seu nome.

Após perguntar a Reid se ele tinha alguma arma, o policial mandou que ele saísse do jipe e o algemou com a ajuda de outros dois policiais que haviam chegado.

“O que eu fiz?”, perguntou Reid. O policial disse que tinha dois mandados de roubo da Louisiana. Reid estava confuso, e disse que nunca tinha estado lá.

Reid, um analista de transporte, foi levado para a prisão do condado de DeKalb, para aguardar a extradição da Geórgia para a Louisiana. Demorou dias até que se descobrisse exatamente do que ele era acusado: usar cartões de crédito roubados para comprar bolsas de grife.

– Estou preso por algo que não tenho ideia – afirmou Reid, de 29 anos.

Seus pais fizeram ligações, contrataram advogados e gastaram milhares de dólares para descobrir por que a polícia pensou que ele era o responsável pelo crime, descobrindo que era porque Reid tinha uma semelhança com um suspeito que havia sido gravado por uma câmera de vigilância.

Os mandados foram revogados, mas somente depois que Reid passou seis dias na prisão e perdeu uma semana de trabalho.

Ferramentas para policiar cidadãos

A prisão injusta de Reid parece ser o resultado de uma enxurrada de tecnologias – começando com uma correspondência de reconhecimento facial ruim – que visa a tornar o policiamento mais eficaz e eficiente, mas também pode tornar muito fácil prender a pessoa errada por um crime.

Nenhuma das tecnologias é mencionada em documentos oficiais, e Reid não foi informado exatamente por que ele foi preso, uma prática típica, mas preocupante, de acordo com especialistas jurídicos e defensores públicos.

– Em uma sociedade democrática, devemos saber quais ferramentas estão sendo usadas para nos policiar – disse Jennifer Granick, advogada da American Civil Liberties Union.

Roubo de bolsas de grife

Em pânico, a família de Reid imediatamente contratou um advogado da Cochran Firm, de Altanta, que não conseguiu tirá-lo da prisão e lutou para reunir mais informações. O advogado sugeriu que os familiares contratassem alguém na Louisiana.

Então, eles ligaram para escritórios de advocacia em Jefferson Parish e Baton Rouge – origem da expedição dos mandados – até encontrarem Thomas Calogero, um advogado de defesa criminal, que foi logo contratado.

Ladrões com cartões de crédito roubados compraram quase US$ 13 mil em mercadorias na Second Atc, uma loja de consignação na Lousiannairi — Foto: Sara Essex Bradley/The New York Times

Calogero descobriu que Reid foi acusado dos roubos de verão de duas bolsas Chanel e uma bolsa Louis Vuitton marrom, no valor de quase US$ 13 mil, da Second Act, uma loja de consignação nos arredores de Nova Orleans.

Calogero foi até a loja e conversou com o proprietário, que lhe mostrou uma foto de uma câmera de vigilância. Ele percebeu que um dos supostos fraudadores se parecia com Reid, mas o homem era mais pesado.

– O cara tinha braços grandes e meu cliente não – disse Calogero.

Denúncia a TV

Um oficial do xerife de Jefferson Parish insistiu que era uma “combinação positiva”, linguagem que fez Calogero acreditar que a tecnologia de reconhecimento facial havia sido usada.

Foi então que o advogado entrou em contato com o canal de notícias NOLA.com de Nova Orleans sobre o que ele acreditava ter acontecido.

Uma pessoa com conhecimento direto da investigação confirmou ao New York Times que a tecnologia de reconhecimento facial foi usada para identificar Reid. No entanto, nenhum dos documentos usados para prendê-lo revelou tal informação.

O mundo em imagens nesta quarta-feira

Andrew Bartholomew, o detetive de crimes financeiros de Jefferson Parish que buscou o mandado para prender Reid, escreveu em uma declaração juramentada apenas que havia sido “aconselhado por uma fonte confiável” de que o “homem negro corpulento” era Reid. Contatado por telefone, Bartholomew se recusou a fazer comentários.

Contrato com empresa de Inteligência Artificial

– É insustentável para mim, como uma questão de procedimento criminal básico, que as pessoas sujeitas à prisão não sejam informadas sobre o que as levou até lá – afirmou Barry Friedman, professor de direito constitucional da Universidade de Nova York.

O gabinete do xerife da Jefferson Parish tem um contrato com uma empresa de reconhecimento facial: a Clearview AI, que recebe US$ 25 mil por ano para prestar seus serviços. De acordo com documentos obtidos pelo Times em uma solicitação de registros públicos, o departamento assinou pela primeira vez um contrato com a Clearview em 2019.

A Clearview reuniu bilhões de fotos da internet pública, incluindo sites de mídia social, para criar um mecanismo de busca baseado em rostos agora usado por agências governamentais. Reid tem muitas fotos públicas na web vinculadas a seu nome, inclusive no LinkedIn e no Facebook.

Depois de ter sido comprovado que Reid não foi o autor dos crimes, ele foi solto após uma semana preso. Ele pensa em entrar com um processo contra os responsáveis por sua prisão — Foto: Nicole Craine/The New York Times

Procurado pelo NYT, o escritório de informações públicas do gabinete do xerife de Jefferson Parish não respondeu aos pedidos de comentários sobre o uso do Clearview AI.

O CEO da empresa, Hoan Ton-That, afirmou que uma prisão não deve ser baseada apenas em uma busca de reconhecimento facial.

– Mesmo que a Clearview AI apresente o resultado inicial, esse é o início da investigação pela polícia para determinar, com base em outros fatores, se a pessoa correta foi identificada. Mais de 1 milhão de pesquisas foram realizadas usando o Clearview AI. Uma prisão falsa é demais e temos uma enorme empatia pela pessoa que foi acusada injustamente – acrescentou Ton-That.

A identificação de Reid por Bartholomew levou a um segundo mandado de prisão em East Baton Rouge Parish, onde, de acordo com um relatório da polícia, o homem com quem ele se parecia havia usado um cartão de crédito roubado para comprar uma bolsa Chanel de $ 2.800 em outra loja de consignação.

O Departamento de Polícia de Baton Rouge “confiou nas informações” do gabinete do xerife de Jefferson Parish, disse o sargento. L’Jean McKneely, porta-voz do departamento, que reconheceu:

– Que métodos eles usaram, não sabemos.

Os policiais geralmente dizem que não precisam mencionar o uso da tecnologia de reconhecimento facial porque é apenas uma pista em um caso e não o único motivo para a prisão de alguém, protegendo-o da exposição como se fosse um informante confidencial.

Casos semelhantes

Mas, de acordo com Clare Garvie, especialista no uso de reconhecimento facial pela polícia, há quatro outros casos publicamente conhecidos de prisões injustas que parecem ter envolvido pouca investigação além de uma comparação facial, todos envolvendo homens negros.

Ela encontrou vários outros exemplos em todo o país em seu trabalho com a Associação Nacional de Advogados de Defesa Criminal, contou Clare.

Para Rashad Robinson, presidente do Color of Change, um grupo de defesa da justiça racial, a tecnologia agrava os problemas do que ele chamou de “policiamento racista”.

– Se o reconhecimento facial classificasse erroneamente pessoas brancas, homens brancos ou mulheres brancas, não estaria em exposição. Alguns de nós e algumas de nossas comunidades são dispensáveis.

Reid ficou na prisão do condado de DeKalb por quase uma semana. Ele não poderia ser libertado sob fiança porque deveria ficar detido até que os oficiais da Louisiana viessem buscá-lo para ser processado em seu estado. Seu jipe foi rebocado e apreendido.

– Imagine que você está vivendo sua vida e, em algum lugar distante, dizem que cometeu um crime. E você sabe que nunca esteve lá naquele local – disse Reid.

Seu advogado, reuniu fotos e vídeos de Reid e de sua família, na esperança de mostrar mais claramente à polícia da Louisiana como Reid se parece, e os enviou ao escritório do xerife de Jefferson no dia 30 de novembro, cinco dias após a prisão.

Salvo por uma verruga

Uma hora depois, disse Calogero, um policial ligou para informá-lo de que a polícia estava retirando o mandado porque havia notado uma verruga no rosto de Reid que o suposto ladrão de bolsas não tinha.

A detenção de Reid foi “infeliz por todos os meios”, disse o xerife Joseph P. Lopinto III, de Jefferson Parish:

– Assim que percebemos que não era ele, movemos montanhas para tirá-lo da prisão.

Um juiz de Jefferson Parish expediu o mandado para que Reid fosse solto:

“Após uma investigação mais aprofundada, soube-se que Randal Reid não estava envolvido nos crimes cometidos”, dizia o documento.

Reid foi solto quase uma semana inteira depois de ser parado na estrada. Ele está pensando em entrar com um processo de prisão injusta.

– Milhares de dólares por algo que não fiz – disse ele.

Robinson, presidente da Color of Change, lembrou que a maioria das pessoas nos Estados Unidos não têm milhares de dólares para limpar seus nomes. Essas pessoas terão “nomes e histórias que nunca saberemos”, acrescentou:

– Elas vão definhar em cadeias e prisões.

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