O que é ser uma “nega metida”?

Há uns dias, uma pessoa x virou pra mim numa conversa e disse que eu era uma nega muito metida. É claro que falou isso sorrindo, como forma de elogio, mas aí fiz questão de saber o porquê dessa fala. A pessoa me respondeu que eu era metida por ser estudada, inteligente, esclarecida em algumas questões, bastante independente em outras e completou dizendo que não estava acostumada a ver mulheres assim.

Por Karla Lopes, no Hey Cute

Mais uma vez, questionei se ela não estava acostumada a ver mulheres assim ou mulheres negras assim. Percebendo que eu estava falando sério e claramente incomodada com o “elogio”, a pessoa me respondeu, meio engasgada, que era espantoso (sim, usou essa palavra!) ver uma mulher como eu, tão nova (mas na verdade não era nova a adjetivo que ela queria usar) frequentando lugares tão legais, sendo tão inteligente, independente e esclarecida. Continuei olhando para a pessoa e ela, muito desconfortável, tentou mudar de assunto e parece ter dado graças a Deus quando um conhecido chegou perto da gente antes de eu questioná-la mais uma vez.

A pessoa pode não ter percebido claramente porque fiquei incomodada pelo “elogio” que fez, mas isso tudo me faz pensar muito sobre o espaço que mulheres negras ocupam na sociedade.

Por muito tempo da minha vida eu me achava completamente inferior a todas as outras mulheres a minha volta. Sentia que minha inteligência não era o suficiente, que minhas roupas nunca eram boas, que não pertencia aos locais que frequentava e diminuída pela minha cor em lugares em que ela não se faz tão presente assim (ainda diminuem).

Depois de tratar profundamente essas questões, passei a me dar o valor que mereço e sempre mereci. E aí passei a ser a nega metida. A nega metida que frequenta lugares legais, que escreve, que trabalha com coisas que acham incríveis, que viaja, fala alguma língua estrangeira, tira fotos de si mesma e posta nas redes sociais, que resolve as próprias coisas, que conversa bem, que é simpática… Enfim, tudo que outra mulher também pode ser, mas, que se for negra, será chamada de nega metida por isso.

Acho que as pessoas se espantam ao ver mulheres negras que valorizam a si mesmas e aos seus feitos porque esse não é o papel social que se esperam delas. Quando uma mulher negra chega ao topo, muita gente encara isso como se fosse uma “invasão”, não um feito que merece elogios (e não, falar que ela é uma nega metida não é elogio).

Esses dias aqui em BH uma mulher negra foi parada na rua por outra mulher que perguntou se ela fazia faxina. A mulher negra prontamente respondeu que, não, ela fazia mestrado. Será que ela seria parada, assim do nada, enquanto caminhava, se fosse branca? Isso me lembrou quando uma pessoa x me perguntou há um tempo o que eu fazia da vida. Eu disse que era jornalista e ela respondeu: nossa, que diferente, nunca imaginei, achei que você trabalhava nessas lojinhas aqui do bairro.

Lembrando que NENHUMA profissão deve ser menosprezada, independentemente de qual seja. O meu questionamento aqui é: por que uma mulher negra é abordada por um desconhecido no meio da rua para fazer faxina ou causa espanto ao dizer que é jornalista? 

Faça um exercício: olhe nos lugares que você frequenta, no seu trabalho ou na sua rede amigos. Quantas mulheres negras existem? Falando por mim mesma (e reconhecendo meus privilégios), eu vejo pouquíssimas pessoas negras entre meus amigos, no meu lazer e no meu trabalho. Eu sou sempre uma exceção. Quando vou a um evento, por exemplo, eu sou minoria. Nas festas também. Assim como alguns bares e restaurantes.

quando você é minoria num local onde só a maioria tinha acesso, você causa espanto por estar consumindo o mesmo que outras pessoas não negras estão também. Então, por tudo isso, muita gente me acha uma nega metida – e sempre que falam isso, o deboche quase ganha vida própria nas palavras. Mais uma vez: não é elogio. 

Eu não vou deixar de exaltar meus feitos, a mim mesma ou deixar de frequentar os lugares que gosto por acharem que ali não é local pra mim. Se dizem que não sou o padrão daquele lugar, o que quero mesmo é ocupar cada vez mais espaço para que as pessoas entendam que não sou uma nega metida, mas sim uma mulher como qualquer outra e que não vai se intimidar por um padrão social que criaram pra mim.

E, sim, a gente precisa se achar mesmo. Precisa ter orgulho de tudo que já conquistou, do que faz e do que ainda vai conquistar. Porque só assim a gente vai mostrar para outras mulheres negras que elas podem ser o quiserem, valorizarem a própria beleza, mostrá-la ao mundo e ocupar espaços que acham que não são delas – mas são, ôh se são!

Como disse a educadora Doutora Azoilda Loretto neste post aqui que li no Geledés“o maior ato revolucionário que uma mulher negra pode ter é se cuidar”. Faremos isso. Com muito orgulho. Se achando pra caramba até os outros entenderem que não é nenhum espanto ocuparmos lugares que acham que não foram feitos para nós.

 

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