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O recado da diretora global de diversidade do Facebook para quem lida com preconceitos no mercado de trabalho

Maxine Williams é uma das poucas mulheres negras da empresa e almeja dobrar proporção de minorias nos próximos cinco anos.

Por Ana Beatriz Rosa, do Huffpost Brasil

Maxine Williams (ROBERT A TOBIANSKY VIA GETTY IMAGES)

É fácil reconhecer Maxine Williams em qualquer escritório do Facebook por onde ela passa. Não é somente por ela ser uma das poucas mulheres negras a ocupar uma cadeira, mas por ela ser reconhecida por suas ambições.

Responsável pela estratégia global de diversidade da gigante de tecnologia, Williams anunciou uma força tarefa para dobrar o número de mulheres na empresa nos próximos cinco anos. Nos escritórios dos Estados Unidos, ela também quer dobrar o número total de funcionários negros e hispânicos.

Isso porque, como a maioria das empresas do Vale do Silício, as decisões no Facebook são tomadas em sua maioria por homens americanos brancos ou asiáticos. No entanto, dados sobre usuários da rede social demonstram que a maioria dos perfis são de mulheres — e mais de 1,3 bilhão dos usuários não estão nem localizados na América do Norte.

Para Williams, é “imperativo” que a empresa construa um ambiente diverso se quiser entregar os melhores produtos.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, a diretora global de diversidade do Facebook falou sobre como ainda enfrenta situações de preconceito em sua carreira. Ela também compartilhou o que acredita ser uma boa estratégia para equalizar a desigualdade de gênero no mercado de trabalho.

Leia a entrevista:

HuffPost Brasil: O que significa ter diversidade em uma empresa como o Facebook?

Maxine Williams: Existem dois aspectos em relação a isso. O primeiro é interno e o segundo é externo. Mas o que é importante dizer é que o interno está em serviço do externo.

Por um lado, isso significa que é muito importante para nós que a gente tenha um time que com as diferentes perspectivas do mundo, para que a gente possa construir os melhores produtos e servir melhor os nossos clientes — as pessoas. Nós sabemos que a gente não vai ter sucesso em construir conexões entre pessoas se os responsáveis por trás das decisões não tiverem acesso a todas essas perspectivas. Existem diversas coisas por aí que você nem sabe que você não sabe, faz sentido?

Se você é uma empresa que quer trabalhar com um nicho de um mercado específico, que trabalha com um produto específico, para um tipo específico de pessoa, então acho que você só precisa de um tipo de pessoa construindo o seu produto. Mas não é o nosso caso. A nossa missão é conectar pessoas ao redor do mundo. Se a gente quer dar voz para todas elas, então, é crítico para a empresa que a gente também abrace essa diversidade.

Uma das principais formas de se ter uma maior diversidade entre os funcionários de uma empresa é na hora de captar novos talentos. Qual o maior desafio para o Facebook nesse sentido?

Nós somos uma empresa de tecnologia. E a maioria das pessoas que a gente contrata é formada por engenheiros. Mais especificamente, por cientistas da computação. Nos Estados Unidos, dentro dessa categoria já restrita de profissionais, apenas 8% dos engenheiros são cientistas da computação. E dessa porcentagem, quantas pessoas são mulheres? Negros? Latinos? Menos de 20%.

O nosso maior desafio é conseguir empregar pessoas com conhecimento técnico nessas áreas, sabendo que não há uma igualdade de representação entre as pessoas que já dominam essas ferramentas.

A gente não liga se você fez essa ou aquela universidade, mas a gente realmente se importa se você domina determinados skills. O grande desafio para qualquer empresa de tecnologia é estimular e fazer crescer a representação de minorias em áreas técnicas.

É responsabilidade do Facebook, como empresa, a construção desses espaços para que mais mulheres, mais negros, mais latinos (etc) ocupem posições técnicas?

É mais do que a responsabilidade, é nossa missão mais crítica como empresa criar esses espaços para que não sejam apenas homens brancos nas áreas técnicas.

E a gente não faz isso para “parecer bonito” em relação às outras empresas. A gente cria esses espaços porque a gente quer ser uma empresa que entrega os melhores produtos, e isso só é possível com a diversidade de talentos.

É um imperativo a construção desses espaços. E é por isso que o Facebook investe em diferentes iniciativas a curto, médio e longo prazo.

Você poderia compartilhar algum exemplo que aconteceu na empresa em que você considera que o Facebook aprendeu a construir um ambiente mais diverso?

Nós temos um produto que se chama Portal. É uma espécie de smart câmera que permite a conexão entre pessoas. Você sente como se a pessoa com quem você está falando estivesse jantando com você na sua sala. É uma tecnologia que permite o reconhecimento de voz e de movimentos.

Pois bem, quando a gente estava construindo essa tecnologia, nós tínhamos uma mulher negra na equipe técnica de desenvolvimento do produto. Ela estava trabalhando com os outros colegas, em sua maioria homens brancos. Quando eles começaram a testar o produto, ela foi fazer o teste na câmera. Ela começava a mexer as mãos e o corpo, mas a câmera não identificava os seus movimentos. A câmera continuava focando no homem branco que estava parado atrás delas.

O que isso quer dizer? A nossa tecnologia não era capaz de identificar movimento de pessoas com a pele negra. E isso vai de encontro totalmente ao que o produto se propunha, que é conectar pessoas e oferecer a melhor experiência.

Claramente, o erro era um projeto com um viés inconsciente muito claro porque o produto tinha sido pensado majoritariamente por homens branco. E se a gente não tivesse uma técnica mulher e negra nessa equipe, talvez a gente não tivesse sido capaz de perceber a falha tão prontamente.

Depois do teste, a equipe foi capaz de repensar o projeto e fazê-lo funcionar de modo a reconhecer o movimento de todas as pessoas.

Agora, a gente não só lançou esse produto, mas também criamos um protocolo que todos os futuro produtos que devem lidar com reconhecimento visual precisam seguir para garantir que que eles sirvam da mesma maneira a todas as pessoas, independentemente da cor de sua pele. Esse é só um exemplo em como ter diferentes pessoas na sua equipe te ajuda a construir melhores produtos.

Então, na sua opinião, ter uma equipe diversa é suficiente para garantir a representatividade dessas pessoas nas decisões?

Não. Não basta abrir espaço para as pessoas. E novamente, nós não fazemos nada disso apenas para dizer que o Facebook tem X% de funcionários negros ou não. Nós realmente precisamos ser diversos para fazer os melhores produtos. Nós não temos cotas.

Além de termos um corpo de funcionários diverso, nós precisamos trabalhar com a inclusão. As pessoas tendem a focar em recrutar e contratar mais mulheres, mais negros, mais LGBTs, mas o trabalho de inclusão é o principal para garantir que a sua empresa seja um lugar em que todo mundo tenha a mesma voz e a oportunidade de trazer impactos. De nada adianta ter X% de mulheres se nenhuma delas é ouvida nos processos de decisão.

Nesse caso que eu acabei de citar, a mulher que identificou o problema não era uma executiva da empresa. Ela era da área técnica, mas ela foi ouvida porque a empresa garantia que ela poderia expor suas críticas, apontar os erros e sugerir as soluções.

Então, a gente precisa escutar todas as pessoas capazes de identificar problemas independentemente da posição que elas ocupam. Isso é um ambiente inclusivo. Não é só o fato de ter uma pessoa negra na sala.

Você acredita que o mercado valoriza habilidades como tolerância e empatia na mesma medida em que valoriza o conhecimento de programação e ferramentas técnicas?

O que diferencia a gente é que as nossas melhores experiências são construídas com outras pessoas. Você pode ser um gênio, mas se você não consegue trabalhar com quem pensa diferente de você, será bem difícil ter sucesso.

Eu encorajo todas as pessoas que eu conheço a aprender códigos e programação. Existem milhares de empregos nessa área e você pode ganhar muito dinheiro em algumas posições. O próprio Facebook precisa de profissionais assim.

Mas isso não é suficiente. O Facebook é uma empresa que encoraja você a ser você mesmo. A gente quer que você domine todos os seus potenciais. Sim, é importante você saber programação, mas isso só condiz com uma parte das suas habilidades. Códigos e empatia, você precisa dos dois, em qualquer cargo que você ocupe.

Para você, como mulher negra e ocupando um cargo de liderança em uma das maiores empresas do mundo, esse processo de inclusão parece ser claro. Porém, como enfrentar situações em que a representatividade não é algo tão óbvio ou importante para outros executivos?

Educação é a chave desse processo. Quando você é uma minoria e você é ativista, é possível reconhecer que há muita paixão no que move as pessoas a continuarem defendendo seus direitos e sua representação.

Se você faz parte de uma minoria, você sabe como é ser o único em uma sala de reunião. Ou ser excluido de oportunidades apenas por ser quem você é. Então, essas pessoas entendem como é o mundo lá fora e elas sabem o valor que elas agregam quando elas são incluídas na conversa.

Eu parto do pressuposto de que todo mundo, independentemente de suas origens, já passou por algum momento em que se sentiu à parte, um outsider. Mas para quem nunca fez parte de uma minoria, principalmente em um ambiente corporativo, isso pode ser ainda mais distante.

Então, o que você tem que tentar fazer é trazer todo mundo para o mesmo nível da conversa. Remover os vieses inconscientes de certos comportamentos, tornar esses comportamentos conscientes e nomeá-los. Entender o que é racismo, misoginia, LGBTfobia e como eles são exercidos.

As pessoas tem referências diferentes. E a gente tenta criar um sistema em que todo mundo é capaz de ensinar e aprender uns com os outros. No Facebook, nós temos grupos em que trocamos diálogos e informações sobre diversos temas. Existe um grupo que se chama “americanos”. Mas eu quero que uma pessoa que não é dos EUA faça parte desse grupo para entender o valor que ela traz à conversa. Os grupos são abertos propositalmente, porque temos que colocar todo mundo na mesma mesa.

Mesmo com a sua experiência, você ainda enfrenta situações de preconceito em sua carreira?

Eu ainda enfrento muitas situações como essa, mesmo estando no lugar que eu ocupo. Recentemente, eu estava em uma reunião fora do Facebook, mas eu representava a empresa. Estava sentada, e o homem ao meu lado não tinha percebido quem eu era e onde eu trabalhava. Quando ele se tocou, ele falou: “uau, você já tem a cor certa para esse cargo. Vamos esperar que você também tenha o cérebro”.

Então, o que ele assumiu ao me olhar de cima a baixo é que eu não tenho a qualificação para o meu cargo. Ainda, ele assumiu que eu só estou nessa posição por conta da cor da minha pele.

E isso foi apenas alguns meses atrás. É uma realidade. Ainda estamos longe de transformá-la. Existe uma diferença de poder entre as pessoas, existem estereótipos que impactam mais negativamente alguns grupos do que outros. Ninguém esta imune a isso.

Dados do Facebook pelo mundo

Desde 2014, o número de mulheres negras no Facebook aumentou em 25 vezes e o número de homens negros em 10 vezes.

Há cinco anos, do total de funcionários, apenas 31% eram mulheres e 69% eram homens. Em 2019, os percentuais passaram para 36,9% e 63,1%, respectivamente.

Há cinco anos, 15% dos cargos técnicos pertenciam a mulheres enquanto 85% eram ocupados por homens. Em 2019, os percentuais passaram para 23% e 77%, respectivamente.

Nos cargos de liderança, 23% eram mulheres e 77% homens em 2014. Em 2019, os percentuais passaram para 32,6% e 67,4% respectivamente.

O que te move a continuar falando sobre a importância da diversidade?

Eu tenho duas crianças e eu estou sempre repetindo para elas: tenha noção do seu valor, conheça a sua verdade. Você precisa saber qual é a sua verdade, independentemente do que qualquer pessoa possa dizer sobre você.

Eu sei que esse tipo de conselho é muito mais fácil quando a gente fala do que quando colocamos em prática. É muito difícil relembrar disso em alguns momentos. Pensar que somos capazes, que somos tão bons quanto, que eu tenho valor. Mas é isso que a gente precisa fazer. Relembrar diariamente a importância do lugar que a gente ocupa. Que eu ocupo como uma mulher negra em uma empresa de tecnologia. E é difícil, porque às vezes você só está cansado demais.

Você tem duas opções. Você pode parar tudo, se afastar e não ficar tão cansado. Ou você pode continuar na luta, ficar cansado, mas quem sabe levar todos nós mais adiante como sociedade. Para mim, é melhor me sentir cansada, mas continuar seguindo em frente, aparecendo no outro dia em outras reuniões mesmo após um comentário racista, para que as coisas possam evoluir e não só para mim, mas para as próximas gerações.

Eu tenho muitas inspirações para seguir em frente, principalmente diante do meu apreço a todas as pessoas que já lutaram antes de mim e abriram caminhos para que eu estivesse nesse lugar.

Quando eu penso que as coisas não estão melhorando, eu me lembro que a gente já foi escravo e a gente não tinha a menor ideia de que esse horror poderia chegar ao fim.

Eu penso em pessoas como Nelson Mandela, que ficou 27 anos em uma cadeia. Eu penso na minha mãe, que criou filhos sozinha, sem nunca ter acesso à educação formal.

Todos os dias, você cruza com pessoas que são inspirações porque estão fazendo a diferença do jeito delas. Eu me inspiro em todos os lugares e quando eu penso em um país como o Brasil, é muito fácil perceber a força que vocês têm. Grande parte da população ganha um salário menor que U$ 8 e sobrevive todos os dias. Como eles fazem isso? No mínimo, eles precisam ser criativos e resilientes porque não contam com qualquer suporte que nós temos.

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