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O retrato de Lima na capa: entre o silêncio e o ruído

Lima Barreto é um escritor de poucas imagens. São raros, muito raros os desenhos, caricaturas ou fotografias que dele sobraram, e poucos entre esses documentos o retratam de forma fidedigna. Convivemos, assim, com uma representação do escritor que seria muito estranha ou distante de seu provável autorretrato. Convido, assim, para um passeio por entre as escassas fontes visuais existentes do autor de Policarpo Quaresma.

Por Lilia Moritz Schwarcz  Do Blog da Companhia

Essa é talvez a foto mais conhecida de Lima, tendo sido tirada na época em que ele começou a trabalhar, nos idos de 1903, como amanuense na Secretaria da Guerra. Nela, o escritor aparece muito arrumado: terno composto, nó da gravata bem-feito, e o cabelo à moda com apenas uma mecha lhe caindo estrategicamente à testa. Bem diferente das descrições que as testemunhas de sua época legaram. Desleixado, não raro o autor de Clara dos Anjos caminhava pelas ruas com um sapato de cada cor, a gravata sempre frouxa, o cabelo em desalinho, a camisa encardida.

Além do mais, na foto em questão, Lima parece branco! Esse era um procedimento comum à época: os fotógrafos, com o objetivo de “melhorar” a imagem do cliente, o faziam passar por um processo de “branqueamento”, numa verdadeira engenharia social das cores. Lima sempre se descreveu como “negro”, “descendente de africanos” e de “cor azeitonada”. Portanto, é difícil casar a autorrepresentação com o resultado dessa fotografia.

Há ainda outro registro datado de 17 de setembro 1910. Nesse período, Lima atuou como jurado e secretário do júri que acabou por condenar os militares que, durante o governo de Hermes da Fonseca, reprimiram uma manifestação de estudantes, e assassinaram um dos participantes, deixando vários outros feridos. Essa foi a “Primavera de Sangue” de 22 de setembro de 1909. Passado quase um ano do incidente, lá está Lima, muito bem-vestido, com pose de janota, colete, camisa bem fechada e terno completo. Bem sentado, ele cruza as pernas e encara o fotógrafo.

Essa é e não é uma imagem representativa do criador de Clara dos Anjos. Não restam dúvidas de que ele se arrumou para sair bem na foto. Também é evidente que o escritor devia estar concentrado na tarefa de atuar bem, já que ele trabalhava, a essas alturas, na Secretaria da Guerra, e seus patrões é que estavam sendo julgados. Sendo assim, a imagem parece reproduzir a intenção: aí está um funcionário público compenetrado e ciente de seu papel. No entanto, mesmo sendo correta, a imagem não tem nada de típica. Na verdade, é mais uma performance do que prova de realidade.

Existem também fotos em que Lima aparece em meio a outras personagens e sem maior protagonismo. Esse é o caso do comovente registro de turma da Politécnica, instituição de prestígio em que estudou de 1897 a 1903, mas não chegou a se formar. O garoto aparece envolto por seus colegas, em geral membros das elites do país que vinham estudar na capital. Além do mais, o futuro escritor é o único evidentemente negro na foto. É ele, sim, na foto, mas escondido no meio do grupo. Com um nó de gravata meio grande, uma roupa que não parece sua, o garoto da segunda fila à direita olha para longe: como se mirasse o futuro.

Comoventes são as fotos de Lima Barreto tiradas nas duas ocasiões em que ele foi internado no Hospício Nacional: em 1914 e 1918. Com a diferença de apenas quatro anos, numa das fotografias das fichas da instituição ele foi descrito, pelo escrivão que anotou seus dados de entrada no hospital, como “branco”. Na outra, como “pardo”. Aí está, e mais uma vez, a maneira perversa como lidamos com as cores no Brasil, como se fossem dados variáveis. Na primeira vez, Lima chegou como funcionário público. Na segunda, como indigente e, como por passe de mágica, “mudou de cor”.

Não há como esquecer, também, das poucas caricaturas que Lima teve oportunidade de conferir em vida. Numa delas, feita por Hugo Pires para a revista A Cigarra de 1919, o autor mais se parece com um malandro carioca: chapéu de palha, sapato brilhante, sorriso largo.

Se Lima era um boêmio inveterado, se produzia sua literatura nos trens da Central e pelos bares do centro do Rio, os amigos não o definiriam dessa maneira: roupa à moda, sapato brilhante, cabelo assentado e barba feita. Ao contrário, sobretudo nesse contexto: o escritor suava muito, tinha as maçãs do rosto macilentas, os olhos inchados pela bebida e não se preocupava com o que trajava.

Enfim, com tantas incógnitas, quando fomos pensar na capa para o novo livro, faltavam imagens; sobretudo uma em que eu reconhecesse aquele Lima com quem aprendi a conviver. Passados dez anos junto do escritor, ele já ia virando um amigo íntimo; desses com quem a gente sonha; dialoga muito; por vezes admira demais, em alguns momentos estranha e “não o reconhece na foto”.

Foi então que, junto com o pessoal da Companhia das Letras, tivemos a ideia de chamar um artista para criar — a partir das várias descrições e imagens que eu colecionara — um retrato mais próximo de Lima Barreto e menos “silencioso”. Seus olhos tinham um jeito sampaku; sampaco, no termo abrasileirado utilizado pela crítica Beatriz Resende, uma grande especialista na obra do criador de Isaías Caminha. Sampaku é a palavra a que se recorre para definir pessoas cuja parte branca dos olhos fica muito visível abaixo das íris. Também virou costume associar esse tipo de característica física a pessoas que vivem um tanto embriagadas. O certo é que, de uma maneira ou de outra, Lima era assim: um sampaku, com aqueles olhos fortes que sempre encaravam a câmara ou quem quer que o olhasse.

Daí pra frente ficou fácil chegar a um nome. Desde 2014, quando fiz a curadoria para a exposição “Histórias Mestiças”, junto com Adriano Pedrosa, ganhei um amigo e interlocutor especial: o artista Dalton Paula. Com ele, fui descobrindo implicações e significados de realizar uma “arte negra”, ou melhor, afro-brasileira, por opção e escolha. No projeto artístico de Dalton circulam culturas, histórias, aromas, matérias-primas, raízes (metafóricas ou não), rituais, utensílios, cores e muitos imaginários dessas nações africanas que chegaram ao Brasil de maneira forçada, mas aqui produziram um novo destino. Uma África sentimental e real.

Pois bem, foi na conta de tamanha identificação que “ousei” perguntar a ele se consideraria fazer um retrato de Lima para a capa. Dalton tem uma obra consolidada e, dentre as diferentes séries que criou, há uma em particular de que gosto muito: Retrato silenciado. Nela aparecem vários retratos colorizados, com enquadramentos em segundo plano, sempre em tonalidades fortes. A série pode ser explicada como uma alusão às fotografias populares e coloridas manualmente, que em geral ganham um local de honra na parede das casas, eternizando a imagem de parentes e membros da família. O artista introduz, porém, determinadas características distintivas em suas obras. Em primeiro lugar, todos os retratados são afro-brasileiros — com pele escura, lábios grossos e nariz proeminente e amarelados. Em segundo lugar, eles trazem os olhos fechados. Em terceiro, em vez de enquadrá-los de maneira convencional, o artista usa capas de enciclopédias, como se assim vinculasse muitos mundos, cosmologias e conhecimentos.

Enfim, não havia como errar. Convite feito, e, para minha alegria, aceito, teve início o nosso desafio comum. Dalton e eu passamos a dialogar sobre o retrato de Lima Barreto que queríamos ver na capa. Já expliquei como foram poucas as imagens que restaram do escritor e eu tratei de enviar todas as que tinha. Coerente e comprometido, o artista comprou muitos livros do escritor, leu meus textos e “fez sua cabeça”. Discutimos tons de pele, questionamos processos de branqueamento — tão comuns nas fotos brasileiras, sobretudo do passado —, o traje, o formato do nariz, a boca e os cabelos. Esses detalhes nada têm de aleatórios e fazem parte de políticas visuais que condicionam as representações imagéticas e os estereótipos que cercam as imagens de afrodescendentes há tantos anos. Chegamos, porém, a um impasse com relação aos olhos de Lima. Eu os queria bem abertos; já o artista me explicou que teria que mantê-los fechados, pois esse é (ou era) o momento que ele vivia em sua própria iniciação nesse universo de filosofias e religiões de matriz africana.

Eis que certo dia, enquanto ainda fazia os rascunhos do trabalho, Dalton me avisou que iria “abrir os olhos do Lima”. “Já era tempo”, disse ele. Além do mais, como havia comprado exemplares encadernados da coleção da Brasiliense, criada nos anos 1950 por Francisco de Assis Barbosa, decidiu que iria inserir os retratos que fizera de Lima nas próprias capas dos livros do autor. Depois disso, o designer Victor Burton tratou de transformar o objeto de arte em um livro, e fez mágica com a simplicidade: não interferiu na obra de Dalton; apenas incluiu uma cinta removível, com tipos de época.

O diálogo foi tão especial que faltam palavras. E quando faltam palavras sobram lacunas. Mas talvez outros povos conheçam termos que deem conta desse recado. Os maori, por exemplo, quando querem conceituar “o espírito da coisa dada”, a força de uma dádiva ou a imponência de um dom, o chamam de hau. Existe, contudo, outra menção que nos é mais próxima. Os muitos povos afrodescendentes que entraram no Brasil jamais deixaram de distribuir seu axé. Trata-se de uma espécie de energia, de força presente em cada um de nós, que não deixa de ser um “dom” desses que sentimos a responsabilidade de “receber”, a necessidade de “retribuir”.

Agradeço assim ao Dalton Paula por ter criado uma capa especial, em todos os sentidos do termo, e pelo hau e pelo axé que dele recebi. Por sinal, ao ler, por tantos anos, os textos de Lima Barreto, também recebi muito axé. Afinal, é difícil escrever uma biografia, ou “conviver” por tanto tempo com um autor, sem que ele nos faça bem à alma, mexa com a nossa sensibilidade e nos imponha profundo respeito. Espero, pois, retribuir com este livro um pouco da “dádiva recebida”. Esse é talvez o mesmo hau que envolveu, e circulou entre, uma série de estudiosos que se dedicaram a pesquisar esse escritor, a mim mesma e quem sabe você, que me lê neste momento. Escritos são sempre um registro no tempo. Nada há neles de definitivo ou final. Talvez por isso Guimarães Rosa tenha concluído que “o mar não tem desenho”, pois “o vento não deixa”.

Fotos: Reprodução/Blog da Companhia

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