O Sagrado não visto no jejum presidencial

A sacralidade da vida nos atravessa. As celebrações públicas de iniciação e cultos das mais diversas religiões estão suspensas. Não existirão cânticos, danças e louvação coletiva. 

Por Edson fabiano,  enviado para o Portal Geledés 

Fabiano Mestre
Foto: Fabiana Ribeiro/Campinas

Gilberto Gil em sua música Louvação nos diz: “meu povo preste atenção – atenção, atenção “, parece que a rogação do cantor ganha força ecoante nas linhas de seus versos: louvo agora e louvor sempre/O que grande sempre é/Louvo a força do homem/E a beleza da mulher/Louvo a paz pra haver na terra/Louvo o amor que espanta a guerra.

Até que ponto o capricho inconsequente, irresponsável, do governante de uma nação pode incidir na espiritualidade de um país cuja diversidade religiosa concebe o Sagrado a partir de perspectivas diversas e particulares? A laicidade prevista na nossa Constituição, popularmente chamada Constituição Cidadã, de 1988, fica à mercê dos interesses políticos e grupos privilegiados, pois como foi dito na mídia, pelo atual presidente, “a convocação para o povo brasileiro jejuar e orar é resultado da interferência e solicitação de pastores e padres“.

Saibamos que: não haverá o azan, o chamado para o salar, a oração feita pelos muçulmanos; não haverá a primeira comunhão e a crisma, sacramentos que ratificam o batismo no catolicismo; não haverá circuncisão, momento em que o menino é circuncidado perante dez homens e recebe um nome, nem mesmo bar-mitzvah, iniciação religiosa dos meninos aos 12 anos e bat-mitzvah, aos 13 anos para as meninas, onde lerão em público pela primeira vez a Torá, livro sagrado do judaísmo; não haverá a profissão pública de fé, precedida pelo batismo, nas igrejas protestantes; não haverá ekomojadê, cerimônia realizada dias depois do nascimento de uma criança, quando o Babalaô, que significa “pai do segredo”, consulta o oráculo para saber a origem do mais novo membro da comunidade. No culto de matriz africana, digo candomblé, não terá a cerimônia pública do orunkó, quando a pessoa iniciada anuncia, de forma audível a todos presentes, o nome do seu orixá, divindade mítica ou histórica dos povos africanos, também conhecidos como voduns e inquices .

Não obstante os preceitos e costumes presentes em cada religião, não desejamos ponderar sobre a eficácia do jejum para quem acredita, pois tal fato está no âmbito da subjetividade e sobretudo da fé. Porém um governo falar em abstenção alimentar, ainda que em um curto período, é desconsiderar absolutamente a situação social na qual se encontram várias famílias do Brasil, principalmente nos interiores do país. Essa triste constatação possivelmente tem sua validação em declaração feita pelo atual presidente, que afirma “ser uma grande mentira dizer que há fome no país”, essa malfadada sentença vai de encontro aos dados do próprio Ministério da Saúde, que afirma que só no ano de 2017 morreram 5.653 pessoas de desnutrição no Brasil. No país que em média 15 pessoas morrem de desnutrição por dia proclamar um jejum é uma afronta divina. 

Conforme demonstrado, na composição de Gilberto Gil e Torquato Neto, há na religião de matriz africana uma louvação, ou seja, um louvor à ação de homens e mulheres que historicamente através de seus feitos ressignificaram a existência. Homens como Ogum, Xangô e Oxóssi, que respectivamente é aquele que modela, da forma, transforma a situação vigente abrindo possíveis caminhos onde não há; que julga com olhos incandescentes, atentos no veredicto equânime às demandas apresentadas; o que provém, com sustento e fartura toda comunidade, na superação da miséria. As mulheres Iansã, Oxum e Iemanjá, que respectivamente é aquela que ao mesmo tempo que junta também  espalha, com seu vento impetuoso, apagando o que não presta e acendendo vigorosamente, como um raio, o clarão nas trevas da ignorância apontando o caminho a ser seguido; a que adoça a amargura da alma aflita, em tempos de miséria enriquece a vida, com família e amigos, que são como ouro; que ampara maternalmente, com suas mãos cintilantes, a queda dos pés vacilantes que tropeçam e nutre com seus seios fartos a orfandade faminta, filhos do egoísmo estatal.

Penso que além de uma prática coletiva (jejum) de atos propostos pela religião a vida do ser humano vale mais que qualquer ortodoxia governamental, pois o sábado foi feito para o homem e não o contrário, como ensinou Jesus. Esta é a interseção da existência que nos atravessa em meio às doutrinas religiosas: o gênero, a classe e a raça. Classificações sociais e Idiossincrasias que durante séculos, no Brasil, serviram como impedimentos, segundo a solicitação e interferência da religião hegemônica. Porém, o Sagrado é livre, revela sua face nas coisas menos prováveis, conforme vemos nesta extraordinária declaração poética de Gil: Se eu quiser falar com Deus /Tenho que ficar a sós. A primeira premissa evidenciada nessa poesia é que devemos estar dissociados de qualquer interferência externa, livre dos conceitos e pensares que nos acompanham no cotidiano. /Tenho que apagar a luz. Esse ato nos remete a um estado de cegueira existencial, no qual as coisas vistas e percebidas, a partir do olhar, deixam de ter influência na nossa relação com o sagrado. Nem sempre o que vimos e contemplamos nos eleva no sentido de uma experiência transcendente, pelo contrário, via de regra nos arrasta, compulsoriamente para lugares insólitos. /Tenho que calar a voz. Num contexto de reivindicações do “lugar de fala”, em que todos procuram um protagonismo a partir da sua voz, alguns até mesmo para legitimar posturas e atitudes não sociais e desumanas, a condição de silenciamento proposto é    a relevante conduta, adotada para “falar… não dizendo…”. /Tenho que encontrar a paz. O gesto da procura, já denota inequivocamente, que algo sumiu, fugiu ou desapareceu do nosso domínio, mas não somente isso. Encontrar algo ou alguém, também significa um agendamento, no qual o tempo, como fator determinante do evento, se estabelece como indeterminado, sobretudo quando se trata de algo que depende única e exclusivamente de nós: A paz. /Tenho que folgar os nós. Essa é uma decisão confortável a ser tomada, diante de tudo que nos envolve ou sufoca, criando possibilidades para o departamento da vida, vida com sabor, leveza e suavidade. /Dos sapatos, da gravata /Dos desejos, dos receios. O afrouxamento dos nós dos sapatos e da gravata fala dos nossos desejos e receios.  Como peça do nosso vestuário o sapato carrega consigo histórias e experiências, todas permeadas pelos nossos desejos: desejo de ficar, desejo de sair, desejo de esquecer, desejo de lembrar, desejo de ir, desejo de não voltar mais. Esses são registros dignos de um sapato, ainda bem que eles não falam, pois somente nós sabemos por onde ele andou. A “escola da vida” também possui sua função formativa, independente do curso que a vida nos propõe.  Atualmente nos especializamos profissionalmente em temas, teses e assuntos que nos autoriza falar pelo “domínio de cátedra”, no entanto, quando todos os nossos recursos, políticos, pessoais e religiosos se esgotam, pois não são suficientes para dar respostas as questões, que supostamente acreditávamos dominar, daí então surge os receios tímidos da impotência vivencial: receamos se daremos conta daquilo que esperam de nós, receamos não corresponder às expectativas esperadas, receamos não concretizar o projeto idealizado,  receamos não ter força suficiente na hora de enfrentamento, receamos não sermos absolutos, recebemos não compreender a mensagem que nos está sendo dita, receamos recear. /Tenho que esquecer a data/Tenho que perder a conta. Qual é o dia, semana, mês e ano propício para falar com Deus? Não desejando ter a resposta desta pergunta, optamos por um apagamento da nossa mais recente memória, ou seja, esquecer a data. Não lembrar o dia do encontro com o Sagrado é ato subversivo para a moral farisaica religiosa,  pois segundo pensam, existe dia e horário marcados, que devemos contar, para o encontro com o sobrenatural, porém o esquecimento da agenda, estabelecida por interesses espúrios, nos transporta para um constante êxtase espiritual, onde data, horário, relógio e calendário não são necessários na experiência onde o tempo cronológico  é mero detalhe, no momento em que não seremos capazes de distinguir o início do final,  posto que estaremos em plenitude com o Sagrado! /Tenho que ter mãos vazias. Falar com Deus é não ter seguro é um salto no escuro para os seus braços, sem posses ou riquezas. /Ter a alma e o corpo nus. Portanto, aí está o apogeu, o ápice atingido por aquele ou aquela, que diante da imensidade insofismável do mistério espiritual percebe sua miserabilidade ante ao sublime, que tudo comanda e age, colocando-se desnudo de seus sentimentos, emoções e aparências esteticamente aceitáveis, permitindo-se atravessar… pelo eco ressoante que sacraliza o humano: Louvar a força do homem, trabalhador, trabalhadora, sem depreciar, com artifícios discriminatórios, seu gênero e cor da pele. E a beleza da mulher, emancipada, livre para viver como/onde quiser, existindo em sua interseccionalidade.

 

*Edson Fabiano dos Santos – Possui Graduação em Teologia; Especialista em Ética, Subjetividade e Cidadania pelo Instituto ecumênico de Pós-Graduação; Mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, na área de Teologia e História; Licenciatura em Filosofia – Universidade Candido Mendes (AVM). É doutorando em Educação (FE/UNICAMP) pesquisador e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação de Jovens e Adultos – GEPEJA da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP/SP. Atuando principalmente nos seguintes temas: relações étnico-raciais, racismo e intolerância religiosa, escravidão negra no Brasil, teologia negra, espiritualidade, literatura negra e afro-brasileira, Jorge Amado, filosofia e educação, cultura afro-brasileira, pensamento afrodiaspórico, políticas públicas, direitos humanos e cidadania. 

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