quarta-feira, outubro 13, 2021
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OMS dá prêmio póstumo a mulher negra que teve células cancerígenas retiradas do corpo sem consentimento

Henrietta Lacks morreu de câncer do colo do útero em 1951, aos 31 anos. Suas células deram origem a uma nova linhagem e permitiram o avanço de pesquisas de vacinas, HIV, câncer e até contra a Covid-19.

Fonte: Do G1

A Organização Mundial de Saúde (OMS) homenageou nesta quarta-feira (13), de forma póstuma, a mulher negra americana Henrietta Lacks com o Prêmio do Diretor-Geral da OMS. O prêmio reconheceu a contribuição e o legado de Lacks para a ciência e as injustiças raciais cometidas em nome da ciência contra pessoas negras, especialmente mulheres, no passado.

Lacks morreu em 1951, aos 31 anos, de câncer de colo de útero. Ao perceber os primeiros sintomas da doença e procurar atendimento médico, ela teve suas células cancerígenas retiradas para biópsia sem seu conhecimento nem consentimento. Elas acabaram possibilitando grandes avanços na ciência (veja detalhes mais abaixo).

“Ao homenagear Henrietta Lacks, a OMS reconhece a importância de levar em conta as injustiças científicas do passado e promover a igualdade racial na saúde e na ciência”, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, primeira pessoa negra e africana a ocupar a chefia da entidade.

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Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, em entrevista coletiva na sede da agência em foto de arquivo (Foto: Christopher Black/OMS/Reuters)

“É também uma oportunidade de reconhecer mulheres – especialmente mulheres negras – que fizeram contribuições incríveis, mas muitas vezes invisíveis, para a ciência médica”, completou Tedros.

A comunidade científica chegou a esconder a cor da pele de Henrietta Lacks e sua história real – “um erro histórico que o reconhecimento de hoje busca reparar”, segundo comunicado de imprensa da OMS.

“O que aconteceu com Henrietta foi errado por pelo menos três razões. Um: ela viveu em uma época em que a discriminação racial era legal em sua sociedade. A discriminação racial pode não ser mais legal na maioria dos países, mas ainda é generalizada em muitos países”, disse Tedros ao entregar o prêmio.

“Dois: Henrietta Lacks foi explorada. Ela é uma das muitas mulheres negras cujos corpos foram mal utilizados pela ciência. Ela confiou no sistema de saúde para que pudesse receber tratamento. Mas o sistema roubou algo dela sem seu conhecimento ou consentimento”, acrescentou o diretor.

“Três: as tecnologias médicas que foram desenvolvidas a partir dessa injustiça foram usadas para perpetuar mais injustiças, porque não foram compartilhadas de forma equitativa em todo o mundo. As células de Henrietta foram fundamentais no desenvolvimento de vacinas de HPV que podem eliminar o mesmo câncer que tirou sua vida. Mas em países com maior incidência de câncer cervical, essas vacinas não estão disponíveis em doses suficientes”, concluiu.19 min.

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Prêmio a Henrietta Lacks foi recebido no escritório da OMS em Genebra por Lawrence Lacks, filho de Lacks, de 87 anos, e sua bisneta, Victoria Baptiste. (Foto: Reprodução/Twitter OMS)

O prêmio foi recebido no escritório da OMS em Genebra por Lawrence Lacks, filho de Lacks, de 87 anos – um dos últimos parentes vivos que a conheceram pessoalmente. Ele estava acompanhado de vários netos, bisnetos e outros membros da família da mãe.

“Estamos comovidos ao receber este reconhecimento histórico de minha mãe, Henrietta Lacks – honrando quem ela era como uma mulher notável e o impacto duradouro de suas células HeLa. As contribuições de minha mãe, antes ocultas, agora estão sendo honradas com razão por seu impacto global”, disse Lawrence Lacks.

“Minha mãe foi uma pioneira na vida, retribuindo à comunidade, ajudando outras pessoas a ter uma vida melhor e cuidando de outras pessoas. Na morte, ela continua a ajudar o mundo. Seu legado vive em nós e agradecemos por dizer seu nome – Henrietta Lacks”, acrescentou.

Avanços para a ciência

Em 1951, Henrietta Lacks, mãe de 5 filhos, visitou o Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, nos Estados Unidos, queixando-se de sangramento vaginal. Após um exame, o ginecologista Howard Jones descobriu um grande tumor maligno em seu colo do útero.

Na época, o hospital era um dos poucos que tratava americanos negros pobres. (O estado de Maryland, onde ele está localizado, era um dos que aplicavam as leis Jim Crow de segregação racial).

Segundo o próprio hospital, Henrietta se submeteu a tratamentos com rádio (o elemento químico) para o câncer – o melhor disponível naquela época. Os pesquisadores coletaram biópsias das células cancerígenas sem ela saber ou consentir.

Uma amostra dessas células foi enviada a um laboratório de tecidos próximo – de um médico chamado George Gey. Durante anos, Gey, que era um proeminente pesquisador de câncer e vírus, havia coletado células de todas as pacientes que foram ao Johns Hopkins com câncer cervical, mas todas as amostras morriam rapidamente no laboratório.

O que Gey logo descobriria, entretanto, é que as células de Henrietta Lacks eram diferentes de qualquer outra que ele já tinha visto: em vez de morrerem, elas dobravam a cada 20 a 24 horas.

Na época, as células foram produzidas em massa, com fins lucrativos, sem o reconhecimento à família de Lacks. Mais de 50 milhões de toneladas das células foram distribuídas em todo o mundo, e elas foram objeto de mais de 75 mil estudos.

Hoje, essas células – que passaram a ser chamadas de células “HeLa”, a partir das duas primeiras letras do nome e sobrenome de Lacks – são usadas para estudar os efeitos de toxinas, drogas, hormônios e vírus no crescimento de células cancerosas sem que seja necessário fazer experimentos em humanos.

As HeLa já foram usadas para testar efeitos da radiação e dos venenos, para estudar o genoma humano, para aprender mais sobre como os vírus funcionam e, além disso, desempenharam um papel crucial no desenvolvimento da vacina contra a poliomielite.

Também permitiram avanços na vacina do papilomavírus humano (HPV) – que causa o câncer de colo de útero –, em medicamentos para o HIV, câncer, hemofilia, doença de Parkinson, avanços na saúde reprodutiva – incluindo fertilização in vitro –, em pesquisas sobre problemas cromossômicos e, mais recentemente, da própria Covid, segundo a OMS.

História ‘icônica’ de desigualdade, injustiça e disparidades na saúde

A OMS chamou a história de Lacks de “icônica” em termos de desigualdade, injustiça e disparidades na saúde que permanece atual. Isso porque, hoje, as mulheres negras continuam a ser desproporcionalmente afetadas pelo câncer cervical, segundo a entidade.

“Estudos em vários países documentam consistentemente que as mulheres negras estão morrendo de câncer do colo do útero em várias vezes a taxa das mulheres brancas, enquanto 19 dos 20 países com as maiores cargas de câncer do colo do útero estão na África”, disse a organização em comunicado.

Além disso, apesar de ter sido pré-qualificada pela OMS há mais de 12 anos, as restrições de oferta e os preços altos da vacina contra o HPV ainda impedem que as doses cheguem a meninas de países de renda baixa e média.

Em 2020, menos de 25% dos países de baixa renda e menos de 30% dos países de renda média baixa tinham acesso à vacina contra o HPV por meio de seus programas nacionais de imunização, em comparação com mais de 85% dos países de alta renda.

“É inaceitável que o acesso à vacina do HPV, que salva vidas, possa ser moldado por sua raça, etnia ou onde você nasceu”, disse Princesa Nothemba Simelela, Subdiretora Geral para Prioridades Estratégicas e conselheira especial do diretor-geral da OMS.

“A vacina contra o HPV foi desenvolvida usando células de Henrietta Lacks. Embora as células tenham sido retiradas sem seu consentimento e sem seu conhecimento, ela deixou um legado que poderia potencialmente salvar milhões de vidas. Devemos isso a ela e sua família obter acesso equitativo a esta vacina inovadora”, disse Simelela.

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