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“Os filhos de pedreiros querem ser engenheiros!”

Michele Silva, 26, publicitária e repórter do jornal Fala Roça e do portal Viva Rocinha, escreveu artigo para o Favela 247 sobre os paralelos entre sua vida e o filme Que horas ela volta? Michele, também filha de empregada doméstica, escreveu: “Eis que o filme Que Horas Ela Volta?. surge e apresenta para o país e o mundo esse tema com uma sutileza capaz de nos fazer perceber as histórias que, na maioria das vezes, ficam escondidas atrás de cada uniforme, atrás de cada “sim, senhora”. Foi assim que eu tive a oportunidade de estar frente a frente com meu preconceito, que me fez odiar a Jéssica, filha da empregada, logo nas primeiras cenas do filme. Achei ela muito abusada. Depois as semelhanças foram se afunilando e, quando percebi, vi minha mãe, eu e meus irmãos na tela”

Por Michele Silva, no Favela 247

Que horas ela volta?

Não é raro encontrar pessoas que vieram de famílias pobres, estudaram, conseguiram conquistar uma profissão. Elas estão por aí, aos montes e não tem nenhum status de herói nessa vida. Só que, se olharmos com um pouquinho mais de atenção podemos descobrir que por trás de cada pessoa dessa existe uma história.

O Brasil tem maior número de empregados domésticos no mundo. São mais de 7 milhões de pessoas nessa profissão, na maioria mulheres, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Eis que o filme Que Horas Ela Volta? surge e apresenta para o país e o mundo esse tema com uma sutileza capaz de nos fazer perceber as histórias que, na maioria das vezes, ficam escondidas atrás de cada uniforme, atrás de cada “sim, senhora”.

Foi assim que eu tive a oportunidade de estar frente a frente com meu preconceito, que me fez odiar a Jéssica, filha da empregada, logo nas primeiras cenas do filme. Achei ela muito abusada. Depois as semelhanças foram se afunilando e, quando percebi, vi minha mãe, eu e meus irmãos na tela. A frase que mais marcou foi quando a patroa perguntou à empregada sobre o curso que sua filha queria fazer na faculdade e a mãe não sabia. Em 2011 me formei em Publicidade e Propaganda. Até hoje dona Jô, minha amada mãe que é empregada doméstica, diz pras pessoas que “ela estudou um negócio aí, acho que é contabilidade”. Isso não tem nada a ver com o amor dela por mim, e sim com os “Fabinhos” que ela teve que cuidar e passar mais tempo sendo mãe emprestada do que mãe por natureza. Como a Jéssica bem disse “Não me acho melhor do que ninguém, mas também não me acho pior”! Se você não for um pouco abusado, no melhor sentido da palavra, vai ficar mais difícil contrariar as estatísticas. A filha da empregada passou no vestibular e foi cursar arquitetura. Isso fechou um ciclo na minha mente.

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Eu queria que minha mãe tivesse visto esse filme, pois acredito que ela, assim como eu, se identificaria ali, mas ela não teve a chance pois trabalha muito e o cansaço a consumiu. Ela viu algumas cenas e, entre um cochilo e outro ela viu a cena da Val dentro da piscina e disse “Eu sempre quis fazer isso!”. Eu pensei calada “Você ainda vai ter essa chance, mas não na casa da patroa, e sim na sua”.

Na última reunião de pauta do Fala Roça, jornal para o qual escrevo, surgiu exatamente esse tema. Os filhos de pessoas de profissões humildes que hoje almejam uma faculdade disputada e uma carreira profissional que até pouco tempo atrás era só pra bacana. Os filhos de pedreiros querem ser engenheiros! E sabe o melhor? Estão conseguindo! Sabe o que é melhor ainda? Estou nesse bonde! E um montão de amigos também, e amigos de amigos. É muita gente! Vivi pra ver isso. Gratidão!


*Michele Silva, 26 anos, cria da favela da Rocinha, publicitária por formação, jornalista comunitária no jornal Fala Roça e no portal Viva Rocinha no amor. Sou meio doida mas nunca matei ninguém.

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