terça-feira, fevereiro 7, 2023
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Para além da “perspectiva do alpendre”

Buscar, nas representações da cidade, aquilo que não se quer ali – aqueles que habitam seus desvios, que ameaçam seus muros, os que foram jogados, desde sempre, para o lado de fora. É preciso um esforço considerável para se encontrar, em meio a uma literatura tão marcadamente de classe média, branca e masculina como a brasileira, uma construção diferente sobre a experiência urbana contemporânea. Carolina Maria de Jesus permanece, assim, como marco fundamental para se ver, e escrever, a cidade para além da “perspectiva do alpendre”.¹ Revisitar sua obra, portanto, é um ponto de partida obrigatório quando se pretende entender as possibilidades poéticas e políticas desse olhar de fora. Busco, aqui, acompanhar as incursões de mulheres negras e pobres pelo espaço urbano, tentando reconhecer suas estratégias de inserção e sua recusa a qualquer tipo de domesticação. Para isso, serão discutidas narrativas de Carolina Maria de Jesus e de Conceição Evaristo.

 

por Regina Dalcastagnè, do Suplemento Pernambuco

 

Um primeiro problema a ser enfrentado por quem procura essa outra perspectiva é a quase ausência de registros escritos. Gizêlda Melo do Nascimento, autora de Feitio de viver: memórias de descendentes de escravos, teve de ir direto à fonte, nas periferias da cidade do Rio de Janeiro, para localizar os narradores da história que se propôs contar. É a partir, especialmente, da fala de velhas mulheres negras que ela consegue instaurar uma narrativa possível sobre aqueles que “encontraram a porta principal da cidade defendida de sua presença”. Sua pesquisa, que retoma o problema da situação dos negros nos espaços urbanos desde suas origens, na Primeira República, pode esclarecer alguns aspectos a serem levantados aqui pela representação literária. Da mesma forma que as narrativas de suas informantes poderiam ajudar a compor um painel mais abrangente e significativo sobre o assunto.

 

Outra dificuldade, que envolve diretamente autores e autoras, é que, além de serem escassos os documentos sobre os negros e sua relação com a cidade, a tradição literária não está disponível como recurso. Nossa poesia, nossos contos e romances não trazem modelos suficientemente ricos que possam servir de inspiração aos escritores – afinal, nunca coube aos negros o papel de protagonistas dessa história. Para recontá-la, “do lado de fora”, parece ser necessário ter estado lá. E isso não significa a reivindicação de qualquer ideia de autenticidade. O que está em questão é a perspectiva social de quem fala ou escreve. De acordo com a definição de Iris Marion Young, o conceito de “perspectiva social” reflete o fato de que “pessoas posicionadas diferentemente [na sociedade] possuem experiência, história e conhecimento social diferentes, derivados desta posição”. Assim, negros e brancos, mulheres e homens, trabalhadores e patrões, velhos e moços, moradores do campo e da cidade, homossexuais e heterossexuais vão ver e expressar o mundo de maneiras diversas. Mesmo que outros possam ser sensíveis a seus problemas e solidários, nunca viverão as mesmas experiências de vida e, portanto, enxergarão o mundo a partir de uma perspectiva diferente.

 

Clarice Lispector dá uma mostra clara disso em A paixão segundo G. H. (1964), quando coloca sua protagonista dentro do quarto da ex-empregada, diante de um desenho feito a carvão na parede: um homem, uma mulher e um cachorro, estáticos, imensos e atoleimados. Como centro do mundo, que imagina ser, a ex-patroa logo supõe que aquelas imagens sejam uma espécie de recado para si: “Olhei o mural onde eu devia estar sendo retratada… Eu, o Homem. E quanto ao cachorro – seria este o epíteto que ela me dava? Havia anos que eu só tinha sido julgada pelos meus pares e pelo meu próprio ambiente que eram, em suma, feitos de mim mesma e para mim mesma. Janair era a primeira pessoa realmente exterior de cujo olhar eu tomava consciência”. A partir daí, e do esmagamento de uma barata, G. H., a patroa, entra em longas divagações sobre sua própria existência e Janair é soterrada. Dela, só nos sobra a descrição de um desenho na parede, descrição feita pela dona da casa – é bom lembrar –, contaminada pelo rancor e pelas diferenças de classe.

 

É preciso uma Carolina Maria de Jesus para expressar aquilo que Janair não pode dizer. Tanto em Quarto de despejo (1960) quanto em Diário de Bitita (1982) a autora constrói uma protagonista que não hesita em oferecer sua opinião sobre as patroas (pernósticas, mentirosas, abusivas), nem em lhes dar as costas e ir embora para tratar da própria vida. Suas razões para partir vão desde a revolta contra o preconceito que sente à sua volta até a simples constatação de que está sendo explorada e que não receberá nada pelo seu esforço. Muitas vezes é demitida, por não saber cozinhar, por ser enxerida, por ser relaxada. Também costuma ser acusada de roubos que não cometeu, assim é dispensada antes de receber o que lhe devem. E não havia muito o que fazer, afinal, como dizia sua mãe, “o protesto ainda não estava ao dispor dos pretos”. Mas mesmo quando recebe um salário que causa inveja às colegas ela prefere parar de trabalhar para ter tempo para escrever, ou para buscar seu sonho da cidade.

 

Em Diário de Bitita – que não é um diário, mas um livro de memórias, onde, mais uma vez, ela ficcionaliza a si mesma –, Carolina Maria de Jesus conta de sua infância cheia de sonhos, da sua mãe e do avô, o belo e sábio ex-escravo filho de cabindas, de quem ela guarda os conselhos e as histórias. Resgata madrinhas, tias e vizinhos, alguns simpáticos, mas em sua maioria violentos e racistas. Relembra ainda, junto do avô, da chegada dos imigrantes italianos, mais gentis com os ex-escravos do que os portugueses que já estavam ali, embora não os explorassem menos. E fala, especialmente, de quando os negros abandonam as lavouras em direção às cidades, levando apenas uma trouxa de roupas e escapando dos fazendeiros. Seu avô contava da dificuldade de acharem um lugar para si: “Quando eles nos expulsaram das fazendas, nós não tínhamos um teto decente, se encostávamos num canto, aquele local tinha dono e os meirinhos nos enxotavam. Quando alguém nos amparava, nós já sabíamos que aquela alma era brasileira”.

 

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