sexta-feira, dezembro 2, 2022
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Pela organização de um forte movimento de negras e negros na UFMG!

Por Iaci Maria, estudante de Letras da UFMG e Regina Malika, coordenadora da Secretaria de Negros do CAFCA 

No Revista Luta de Classes 

Entre os dias 18 e 21 de novembro aconteceu a Semana da Consciência Negra organizada pelo CACS (Centro Acadêmico de Ciências Sociais – UFMG) em parceria com o DAE (Diretório Acadêmico da Faculdade de Educação), com o tema “De fora para dentro: resistências além da Universidade”. Este ano o dia da Consciência Negra na UFMG se diferenciou consideravelmente em relação aos anos anteriores. Nota-se na UFMG um movimento nunca antes visto na sua história de universidade elitista e racista que sempre foi, e percebe-se a vontade dos alunos negros de se organizar dentro da universidade para construírem um espaço universitário em que os alunos negros sejam ouvidos e respeitados. Foram diversas rodas de conversa, oficinas e espaços culturais cheios, com negras e negros à frente e com a presença e participação da juventude negra da região.

Foi construído ali um importante espaço de protagonismo negro, trazendo para dentro da universidade um setor que foi socialmente barrado de estar ali para estudar, usufruir do espaço público da universidade. Essa Semana da Consciência Negra teve rodas de conversa com distintos níveis de politização – desde espaços em que com força foi reivindicado a necessidade de unificação da classe trabalhadora para lutar contra o racismo; outros em que foi dito pelo professor Rodrigo Ednilson da FaE (um dos poucos professores negros da UFMG) que é impossível lutar contra o racismo unificando a classe trabalhadora, pois esta é muito diversificada; até espaços mais nitidamente anti-operários, em que abertamente se negou a discussão dos trabalhadores em prol da discussão única e exclusiva sobre a mulher negra, chegando ao absurdo de intervenções que colocaram que falar sobre a luta das trabalhadoras e trabalhadores é coisa da ideologia burguesa, que quer minimizar a luta das mulheres negras. Um grande absurdo! Não são as mulheres negras as mais exploradas, nos trabalhos mais precários, e que também protagonizaram importantes greves e lutas de trabalhadores?

Intervimos nesse espaço, pois queremos construir um forte movimento negro na universidade, que seja independente da reitoria e dos governos e que esteja aliado à classe trabalhadora, que é majoritariamente negra, pois são os únicos que podem tomar em suas mãos as maiores transformações da universidade e da sociedade, como fizeram os trabalhadores da USP em sua greve de 4 meses, que defenderam os interesses da população e fizeram atividades de greve para combater o racismo, machismo e a LGBTfobia. Buscamos reivindicar a importância de se afirmar e fortalecer a identidade negra e retomar as lutas dos negros ao longo de nossa história. O Brasil é um país que tem o racismo como pilar estruturante de sua formação, mas assim como a opressão, exploração e subjugação dos negros é parte de nossa história, suas revoltas e rebeliões também o são, desde a organização dos quilombos, o protagonismo nas primeiras greves operárias e nas revoltas urbanas, até a histórica greve dos garis do Rio. O capitalismo se apropriou dessa opressão histórica e se apoiou na ideologia racista para explorar cada vez mais, se utilizando também do racismo para dividir a classe trabalhadora. Denunciamos isso, denunciando o trabalho precário e terceirizado, feito na sua ampla maioria por negras e negros, mostrando como na Universidade a reitoria é responsável por perpetuar esse racismo. Denunciamos a violência policial que executa sistematicamente Amarildos, Claudias, DGs, Mike Browns, pois esse é o papel da polícia, que é defensora dos interesses dos ricos, da burguesia, e que é necessário lutar pelo fim dessa instituição racista e assassina. Levantamos a necessidade de unificação da classe trabalhadora, classe explorada e majoritariamente negra, para lutar pelo fim do racismo e desse sistema de exploração. Com relação às cotas, defendemos nos espaços que elas devem ser proporcionais à porcentagem de negros em cada estado, como parte de uma luta pelo fim do vestibular e pela estatização das universidades privadas, única meio para que toda juventude negra tenha acesso ao ensino superior.

Infelizmente, ao longo das rodas de conversa, não se ouviu uma única denúncia sobre o governo PT, que ainda que tenha implementado as cotas e criados postos de trabalho, foram postos precários, onde se encontra a maioria das negras e negros, postos criados a partir do grande avanço da terceirização, projeto iniciado pelo governo PSDB e aprofundado nos 12 anos de PT. Nem mesmo o PSTU, que esteve presente compondo uma das mesas, ao menos citou as palavras “PT” ou “Dilma”. Fizemos essa denúncia, à luz da discussão de que existem diferenças antagônicas e irreconciliáveis entre uma mulher trabalhadora e Dilma, assim como entre um negro trabalhador e Obama e, portanto, não basta uma identidade racial ou de gênero em si. Tanto Dilma, uma mulher, quanto Obama, um negro, são responsáveis pelo assassinato de centenas de mulheres e negros no Brasil, na miséria, nos acidentes de trabalho, na violência policial e doméstica, na ilegalidade do aborto que mata majoritariamente mulheres negras. E ambos estão a frente do comando da MINUSTAH, “missão de paz” da ONU no Haiti, na qual o exército brasileiro ocupa o país, reprime, estupra e assassina negras e negros haitianos todos os dias. E este é apenas o treinamento para o que os militares farão nos morros e favelas brasileiras, durante a implementação das UPPs.

Combater o racismo na UFMG é uma tarefa cotidiana. Mas não será através de acordos com a reitoria e criando poucos espaços para os negros, para que a reitoria limite e decida como devemos nos comportar num espaço que é nosso por direito e que há tanto tempo nos é negado. E isso já estamos vendo acontecer, já que o professor Rodrigo Ednilson, da FaE, acaba de ser nomeado pró-reitor adjunto frente à pró-reitoria de assistência estudantil (PRAE) – provavelmente um dos poucos, senão o único, pró-reitor negro da UFMG –, ao lado do já conhecido burocrata Tarcísio Mauro Vago. A universidade possui, como seu pilar de sustentação, uma estrutura de poder elitista, racista, machista e LGBTfóbica, e necessita continuar assim, perpetuando as opressões, para continuar servindo aos interesses privados das empresas e da burguesia amplamente branca – como as pesquisas e tecnologias feitas para a Vale, utilizadas para mais explorar na África. Não podemos ter confiança de que ocupando alguns espaços nessa estrutura de poder conseguiremos combater o racismo na universidade até o fim. E nesse caso, nem mesmo conseguiríamos uma assistência estudantil de qualidade, para todos os estudantes que necessitam, já que a PRAE continua atrelada à FUMP, uma fundação privada que lucra com as necessidade dos estudantes, principalmente os negros. Os estudantes negros devemos orientar nosso combate ao racismo na universidade lutando contra essa estrutura, por uma universidade de fato democrática, em que toda juventude negra possa entrar para estudar e todo conhecimento produzido esteja à serviço da população e dos trabalhadores. A começar pela a imediata abertura dos livros de contas da FUMP e da universidade com as empresas terceirizadoras de serviços, para que todos os estudantes, funcionários e professores tenham acesso a todas as informações referente ao dinheiro para a assistência estudantil que é repassado para a FUMP e qual o lucro que as empresas terceirizadoras tiram em cima dos salários miseráveis desses trabalhadores. Diferentemente de como atua a burocracia estudantil – que desde seus cargos hoje ocupados no DCE, DA-Fafich, entre outras entidades – se aliam ao governo e à reitoria, fazendo acordos e inclusive recebendo bolsas da FUMP, que são utilizadas para empregar trabalho precário de estudantes no próprio DCE, essa luta deve caminhar aliada aos setores mais precarizados, que estão já bem naturalizados nesta instituição racista que terceiriza mão de obra precária para trabalhadores, que em sua maioria são negros, que entram na universidade apenas para limpar banheiros, trabalhar em jardins, serviços braçais, recebendo um salário miserável por um trabalho altamente explorados. Os estudantes não podemos fechar os olhos para a realidade de que temos mais negros trabalhando em postos precários do que nas salas de aula. Nos organizemos de maneira independente da reitoria e dos governos e estejamos ao lado dos trabalhadores, que estes sejam nossos verdadeiros aliados no combate ao racismo, na luta pelo fim da terceirização e pela efetivação das trabalhadoras e trabalhadores terceirizados, sem necessidade de concurso público, e por uma assistência estudantil de qualidade para todos que necessitam, sem FUM nem nenhuma fundação privada, controlada pelos estudantes e trabalhadores. É com esse objetivo que, desde o CAFCA – onde acabamos de ser reeleitos com a proposta de construção de um CA militante e democrático – construímos a Secretaria de Questão Negra e, no último dia 28 de novembro, construímos o primeiro evento da Cabeça Preta do CAFCA, com uma importante roda de conversa com o tema “O Haiti e as mulheres haitianas” e a segunda edição da festa “Soul Preta”.

 

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