Pesquisador analisa expressões da cultura de resistência da periferia do DF

O trabalho do pesquisador Lucas da Silva foi selecionado para congresso na Argentina

Por Lucas Batista, do Correio Braziliense

As batalhas de rimas, que tomam conta de múltiplos espaços da cidade, foram analisadas no trabalho do estudante
(Foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)

Tendo a desigualdade social como triste realidade no cenário do Distrito Federal (DF), a população se acostumou a ter o centro da cidade, Brasília, como produtor de conhecimento e cultura. Com o passar dos anos, as regiões administrativas começaram a conquistar espaço e respeito como centros culturais. Mesmo que ainda marginalizadas, são grandes fornecedoras de arte de resistência, por meio do hip-hop, grafite e poesia, entre outras expressões.

Entretanto, as pessoas de cidades periféricas do DF ainda são desqualificadas como fabricantes de conhecimento, precisando superar obstáculos como preconceito, defasagem de conteúdo e falta de recursos financeiros para produção de pesquisas, por exemplo.

O artista de rua e morador de Ceilândia Sul, Lucas da Silva, de 20 anos, mais conhecido como Denaro, superou essas barreiras. Hoje estudante de geografia na Universidade de Brasília (UnB), ele produziu e desenvolveu o artigo Batalhas de rima e repressão Policial, a Cidadania e o acesso a cidade é uma questão de território.

A pesquisa analisa o movimento das batalhas de rima, especificamente a Batalha do Relógio, em Taguatinga, e a Batalha do Museu, que fica entre o Museu Nacional Honestino Guimarães e a Biblioteca Nacional, além explicar como o estereótipo produzido pela mídia criminaliza a imagem das pessoas que vivem na periferia.

No tópico sobre repressão policial, o pesquisador comenta que por inúmeras vezes as ações culturais de batalhas de rima são interrompidas, por intervenção da Polícia Militar. Mesmo a expressão artística sendo a mesma, rap, há diferença no tratamento entre a batalha que ocorre em Taguatinga, periferia, e a que acontece no centro do Plano Piloto.

“A abordagem da Polícia Militar na Batalha do Museu é de forma mais seletiva e menos agressiva, ela é uma batalha na qual famílias que estão passando pela Esplanada se juntam para apreciar a arte da periferia que ocupa culturalmente um espaço elitizado na área central de Brasília” compara em trecho da pesquisa

Denaro foi selecionado para apresentar seu artigo no 3° Congresso Internacional de Geografia Urbana, em Buenos Aires, Argentina. “Nunca tive poder aquisitivo, tudo que conquistei foi com muita dificuldade e esforço. O fato de estar aqui é como se estivesse dando um golpe no sistema, porque ele não gosta de nos ver como intelectuais”, relata o estudante que expôs seu trabalho na última quinta-feira (12/9).

O jovem também é malabarista e participante assíduo da Batalha da Escada, na UnB. Segundo ele essa experiência com a arte urbana facilitou no desenvolvimento da análise. “Fiz pesquisas de campo nas batalhas que já estavam no meu dia a dia e entrevistei amigos que participavam dos eventos, o que fiz foi colocar dados no que vivencio. Foi o primeiro artigo que escrevi, quase tudo de forma autônoma, tive um pouco de orientação da professora Marli Sales e de colegas de classe”, conta em entrevista ao Correio.

Foi a primeira vez que o artista saiu do país. Para isso, precisou vender jujubas nos bares da Asa Norte, nos ICCs da UnB, além das batalhas que já participava. “Sair do país trouxe a sensação de saber que as fronteiras do mundo podem ser ultrapassadas, para quem vem da quebrada, como eu, é uma sensação de vitória. Sou muito grato aos meus amigos que juntaram dinheiro para me ajudar a chegar até aqui. Na periferia tem um monte de gente talentosa, nós só não temos a mesma visibilidade dos outros”, completa.

Entusiasmado com a primeira apresentação internacional, Denaro já tem ideias para novos trabalhos: “Minha apresentação foi muito boa, conseguir passar tudo que tinha programado. Meus próximos planos é fazer análise da representação da periferia do DF, por parte da mídia”, revela. Para se despedir do congresso o estudante expôs a frase: “Favela vive!”, para mostrar que mesmo no topo, não se esquece de onde veio.

Batalhas de rima

Entre 1960 e 1980 havia um grande índice de criminalidade e violência no bairro do Bronx em Nova York. Então Afrika Bambaataa, importante cantor e compositor negro da época, teve a ideia de resolver estas brigas de gangue com batalhas de break, anos depois foi criado a International Zulu Nation que deu pontapé inicial para a cultura hip-hop. Observando esse contexto de violência, marginalização de jovens da periferia, as batalhas de rima tem o mesmo intuito, dar o acesso à cultura e oferecer uma outra perspectiva para jovens de periferia.

Hoje no Distrito Federal, quase todas regiões administrativas possuem pelo menos uma batalha em seu território, como as batalhas da PR, em Sobradinho, do Relógio, em Taguatinga e da Estação, no Guará. No Plano Piloto algumas opções são as batalhas da Escada, na UnB, do Museu, próximo ao eixo rodoviário e a das Gurias, protagonizada por mulheres e geralmente realizada no Conic.

+ sobre o tema

Programa que discute questão racial e diversidade é lançado em Manaus

Águas de Manaus lança o ‘Respeito dá o Tom’...

Feito de francês reacende debate sobre supremacia negra nas pistas

O francês Christophe Lemaitre se tornou, no início do...

VII Seminário Agosto Para a Igualdade Racial : Homenagem à Marielle Franco e Wangari Maathai

  Programação na Universidade  Estadual da Paraíba  e Universidade Federal...

Pantera Negra – Chadwick Boseman publica foto de treinamento para viver o herói

Chadwick Boseman, o Pantera Negra do universo Marvel nos cinemas, publicou...

para lembrar

Crônica de morte anunciada, versão senegalesa

Por Rui Martins O senegalês Satché de retorno à...

Morte de Nelson Sargento: amigos e famosos lamentam perda do baluarte

Companheiros de vida, de samba e de Avenida lamentaram...

Afrobolivianos

Afro-bolivianos são bolivianos de ancestralidade africana.  O termo...
spot_imgspot_img

Brasileiro dirige único teatro negro da Alemanha

"Ainda tenho um milhão de coisas para fazer", diz Wagner Carvalho, diretor artístico do teatro Ballhaus Naunynstrasse em Berlim, poucas horas antes da estreia da noite. Wagner não...

Da fofoca às janelas do Brasil, exposição evidencia africanidade que vive em nós

Depois da fofoca e de um cafuné no meu caçula, tentei tirar um cochilo, mas terminei xingando uma cambada de moleques que cantavam "Tindolelê" na rua. A frase ficou meio maluca, mas essa loucura tem seu método...

‘Está começando a segunda parte do inferno’, diz líder quilombola do RS

"Está começando a segunda parte do inferno", com esta frase, Jamaica Machado, líder do Quilombo dos Machado, de Porto Alegre, resumiu, com certo desânimo, a nova...
-+=