sábado, janeiro 15, 2022
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Planalto vai pedir direito de resposta à IstoÉ; “violência contra todas as mulheres”, diz Ivana Bentes

Montagem simula Dilma descontrolada no Alvorada; Domingos Alzugaray, o dono da IstoÉ; “histéricas” eram submetidas a tratamento e/ou julgamento, uma forma de submetê-las ao controle masculino

Um ataque as Mulheres! É um acinte, um desrespeito e uma violência contra todas as mulheres a capa da Revista Isto É com um texto vexaminoso, utilizando todos os estereótipos e adjetivos machistas e misóginos, para desqualificar uma mulher na Presidência do Brasil!

A estratégia da revista é a mesma utilizada no vazamento contra Lula, que expunha sua fala informal em telefonemas privados usados para desclassificá-lo moralmente.

Mas com Dilma Rousseff é ainda pior, mais escandaloso, sexista e intolerável. É um ataque e um texto que ultrapassa qualquer ética jornalistica, com aspas sem nenhuma fonte!

Vendo o impeachment balançar na correlação das forças políticas, com uma reação vigorosa nas ruas do Brasil e na mídia internacional, a revista IstoÉ parte para uma desqualificação psicológica e emocional da Presidenta da República, que teria “perdido o equilíbrio e as condições emocionais para conduzir o país” e é descrita (sem fontes identificadas) como uma desequilibrada, histérica, furiosa e a beira de um ataque de nervos e propensa a atos violentos!

Trata-se de um ataque genérico de um jornalismo covarde (“fontes do Palácio do Planalto”) que usa aspas fantasmas (ninguém é citado!) para demolir sua reputação com base no ódio as mulheres que ocupam espaços de poder e nos clichês que descrevem uma mulher histérica, desequilibrada, destemperada, com “crises nervosas” sendo “medicada” para aplacar seus rompantes e acessos de violência e histeria.

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Na Argentina, uma revista sugeriu que Cristina Kirchner estava sob tratamento psiquiátrico; no Brasil, a IstoÉ bancou banners maiores que os de sua concorrente Veja para fazer campanha contra Dilma nas bancas; o texto da revista, curiosamente, tem como co-autora uma mulher, Débora Bergamasco

O texto é uma peça de como a mídia passa a usar da pessoalização, de argumentos e análises extra política para demolir a pessoa, o caráter, construindo um personagem de ficção em que a Presidenta é comparada com “Maria, a Louca”, uma “autista” com uma retórica “cretina” e cuja permanência significa uma ameaça de “volta do terror”(!)

Passam de um estereótipo, “a gerentona masculinizada” , para outro: o da mulher acuada e descontrolada que responde a um ataque político não com articulação, atos, ações e discursos, mas como uma mulher histérica e furiosa quebrando móveis!

Os adjetivos utilizados para desqualificar a Presidenta mulher fazem parte de um extenso vocabulário moral, científico, médico e psicanalítico de destituição do feminino como força política, como sujeito social e como modo de ser e existir: mulheres irascíveis, fora de si, vingativas, destemperadas e moralmente e psicologicamente condenáveis! “Elas” seriam incapazes de conduzir a política e estar no comando de um país!

O texto é uma peça para ser analisada pelos professores e estudantes de Comunicação, as feministas, os analistas políticos e simbólicos, e qualquer leitor critico como a derrocada de tudo que entendemos como jornalismo!

O “ódiojornalismo” produzindo peças maniqueistas e dualistas, textos de ficção e novelização do real se volta agora contra as mulheres!

Estamos vendo (é um sentimento cada vez maior) uma mulher honesta e digna, com um passado de luta, sofrer um ataque misógino e moral, sofrer uma injustiça política (impeachment sem crime é golpe!) em um ambiente extremamente hostil, machista e predador e em que uma figura histriônica e corrupta de um homem como Eduardo Cunha se mantém liderando a Câmara dos Deputados comandando (com uma elite e mídia patriarcal) um golpe contra a Democracia no Brasil.

Colegas de Débora Bergamasco assinaram carta em defesa da colega no episódio da delação do senador Delcídio do Amaral:

Carta de repúdio

Nós, jornalistas da revista IstoÉ, repudiamos as ofensas contra a diretora da sucursal de Brasília, Débora Bergamasco, autora da matéria “A Delação de Delcídio”, publicada na edição desta semana. A jornalista vem sofrendo ataques constantes e difamatórios a respeito da credibilidade de seu trabalho, apoiados em invenções a respeito de sua vida pessoal.

Há um machismo travestido de discussão ética nesses atentados que questionam o furo de reportagem da nossa colega (http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,vazamento-e-a mae,10000019737).

Débora Bergamasco tem visto, nos últimos dias, seu esforço jornalístico colocado em xeque em meio a insinuações de ordem moral, sem nenhum fato, testemunho ou dado concreto que fragilize seu trabalho jornalístico. Quantas vezes nós, mulheres, temos de suportar comentários que aproximam nosso desempenho profissional à nossa vida afetiva ou sexual? Por que o trabalho de uma mulher, e da colega Bergamasco em especial, não pode ser julgado pelo próprio mérito, pela reportagem que escreveu?  Fofocas, insinuações, difamações e brincadeiras ofensivas ocorrem a todo momento. E não podemos ser coniventes.

Deixamos claro, aqui, nosso apoio a Débora Bergamasco e repudiamos qualquer tipo de insinuação machista, grosseira e vergonhosa em relação a ela e ao seu trabalho.

Ana Weiss, Ana Carolina Gandara, Ana Carolina Nunes, Beatriz Marques, Camila Brandalise, Carol Argamim Gouvêa, Célia Almeida, Christiane Pinho, Cinthia Behr, Cintia Oliveira, Elaine Ortiz, Fabíola Perez, Gabriela Araújo, Geovana Pagel, Gisele Vitória, Iara Spina, Kareen Sayuri, Letícia Liñeira, Ludmilla Amaral, Mariana Queiroz Barboza, Marili Hirota, Natália Flach, Paula Bezerra, Renata Valério

São Paulo, 8 de março de 2016.

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