Põe teu preconceito no armário que quero passar com meu amor

Estava nesses dias do final de semana às voltas com o tema “o enfrentamento ao tráfico de pessoas nas fronteiras Panamazônicas”, na cidade de Quito, Equador. A despeito do boicote proposto pela cantora gospel Ana Paula Valadão. Fiquei refletindo como o preconceito nosso, de cada dia, leva à cegueira e inverte a capacidade de mobilização de uma figura pública que, como essa, tem grande alcance nacional e que poderia usar esse potencial, por exemplo, para combater o abuso e a exploração sexual contra mulheres, crianças e adolescentes no país. Fiquei me perguntando qual foi a sua manifestação pública a respeito do artigo de Eliane Trindade  , que desnuda a prostituição no Centro Político do país, envolvendo deputados e outras figuras da República.

Pelo visto para muitos, incluindo essa jovem cantora, a questão da orientação sexual está relacionada à “promiscuidade” e a uma vida desregrada e “despudorada”, especialmente quando se trata de homossexuais e transgêneros. Em minha vida tenho a oportunidade de conviver continuamente com pessoas homossexuais. Tenho irmão, cunhado, sobrinho, amigas, amigos que têm essa orientação sexual. Eu, meu esposo e nossas filhas (adolescentes) compartilhamos muitos momentos com essas pessoas, encontros celebrativos, passeios, partilhas, etc. Em nossas convivências essas pessoas refletem uma conduta de valores, respeito e têm uma etiqueta social invejável. São pessoas dignas, honestas, justas, comprometidas e lutadoras.

Enquanto isso outras crianças e adolescentes estão sendo exploradas sexualmente, nas mais variadas situações (prostituição infantil, pornografia infantil, turismo sexual e tráfico), por muitos senhores heterossexuais, que, em grande parte, são autoridades locais, estaduais etc.; vistos pela sociedade com respeito e reconhecimento, pelas pessoas públicas que são, em todos os estados do Brasil. Para confirmar esse perfil basta acessar o Relatório Final da CPI destinada a apurar denúncias de turismo sexual e exploração sexual de crianças e adolescentes, publicada em junho de 2014.

Será que as lentes com as quais estamos olhando o tema da orientação sexual e identidade de gênero, estão manchadas por juízos equivocados, falsos valores e modelos mentais desatualizados? Será que não conseguimos perceber onde estão as vulnerabilidades à exploração sexual das crianças e adolescentes? Quando iremos perceber que o preconceito e a falta de acolhida das famílias aos jovens LGBT é, que na maioria das vezes, os joga na vala da vulnerabilidade, fazendo muitos deles vítimas das redes de exploração sexual?

Penso que esse tema necessita ser visto com as lentes do amor, da empatia e do respeito. Independente da nossa condição e orientação necessitamos saber acolher os diferentes. Amar apenas aqueles que são iguais a nós pode ser mero egoísmo: Afinal, “ Narciso acha feio o que não é espelho. ” Amar e acolher os diferentes imagino que seja amor genuíno, que nos faz mais gente, que nos permite repensar e reaprender a viver rumo a uma sociedade mais plural e pautada numa cultura de paz, de respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente.

Esse texto expressa uma opinião estritamente pessoal. Trata-se de uma declaração de amor para dizer a essas pessoas que são estigmatizadas e discriminadas por suas orientações, que podem contar com o meu amor e com o meu respeito.

Rogenir Almeida Santos Costa, simplesmente uma cidadã.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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