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“A poesia nos une pela cor, pela dor e pelo amor”, diz o poeta Sérgio Vaz

Por Kátia Mello

Mineiro de Ladainha, o aclamado poeta da periferia, Sérgio Vaz, chegou à periferia de São Paulo, aos quatro anos. Através do pai, desde menino, criou intimidade com os livros. Primeiro conheceu o romance para depois apaixonar-se pela poesia, e nunca mais a largou. A paixão pela rima levou-o a criar, com o poeta Marco Pezão, há 17 anos o Sarau da Cooperifa, no bar do Garajão, em Taboão da Serra. Vaz se tornou um grande mobilizador de jovens da preferia rumo à poesia, e os rappers Mano Brown e MV Bill, a atriz Zezé Motta e o escritor moçambicano Mia Couto já frequentaram seu sarau.

Nesta entrevista à coluna Geledés no debate, o poeta destaca que precisamos “construir mais pontes e menos muros” para conhecer realmente a periferia e quem nela habita. Ainda ressalta que para entendê-la “não basta ser de centro, esquerda ou de direita, tem que entender de humanidade”.

Foto: Ricardo Vaz

Geledés Para quem está distante da periferia, povoa no imaginário um bloco monolítico de gente, como se ela fosse uma coisa só, como se não houvesse diferenças entre seus habitantes, ou até entre outras comunidades periféricas. Como, então, desmitificar esse pensamento de homogeneidade?

Construindo mais pontes e menos muros. É comum as pessoas privilegiadas conhecerem o Brasil e desconhecerem os brasileiros. É preciso parar de falar da gente como se fôssemos apenas números, estatísticas. E deixar a gente falar junto, pensar o país que queremos, mas todo mundo de igual para igual. Tem gente que às vezes me vê na rua e pede para entregar livros e CDs paras as pessoas como se a gente morasse tudo no mesmo quintal. É a mesma gente que adora dizer: “tamo junto, mas nunca está por perto”.

Geledés – Ao mesmo tempo em que as redes sociais impulsionam os imbecis, como pontuou o escritor italiano Umberto Eco, ela é capaz de dar independência e voz aos que não tinham acesso direto à comunicação. Como vê esse fenômeno e em que medida sua poesia cresceu com as redes?

A internet impulsiona os imbecis, mas não podemos esquecer que as livrarias também têm muita imbecilidade. Num país em que a mídia ignora nossa cara, nossa cultura, a internet possibilitou propagar nossa poesia, nossa palavra. Sem filtros, sem a malícia subliminar de que nós não detemos o conhecimento. As redes sociais impulsionaram a poesia, a literatura periférica, não tenho dúvida. Mas antes disso, ela já estava escorrendo em nossas bocas e nos saraus nos botecos da quebrada. Não podemos esquecer que as redes criaram as hastags, e as hastags esvaziaram as ruas.

Geledés– Você é um incansável mobilizador de jovens da periferia em direção à arte. São ao menos 25 anos nisso. O que a poesia da periferia traz que ainda não somos capazes de ver?

A poesia traz na voz de todos nós o desejo de humanidade. Ela traz o direito a sonhar, que é o bem maior do ser humano. Traz dignidade. Valores que uma parte da sociedade brasileira acredita que a gente não tem. Desconhece. A palavra liberta. A poesia nos une pela cor, pela dor e pelo amor.

“É comum pessoas privilegiadas conhecerem o Brasil e desconhecerem os brasileiros. É preciso parar de falar da gente como se fôssemos apenas números, estatísticas. E deixar a gente falar junto, pensar o país que queremos, mas todo mundo de igual para igual.

Geledés – Há alguns anos, você afirmou que “a esquerda não entende a periferia e que não adianta ir lá de quatro em quatro anos”. Parece que isso se confirmou agora nas urnas. Ou não?

Uma parte da esquerda sabe como o país funciona, o que o país realmente é, e sempre foi, mas insiste em falar que o povo que não tem acesso à boa educação, saúde, educação, segurança, cultura e não sabe votar. Uma parte da esquerda fala para a esquerda, não para nós. Exemplo: a direita criou a tal da Escola Sem Partido. Que pai e mãe querem uma escola com partido? Bingo! Aí vem uma gente que cria a escola sem mordaça (justo, tô junto), mas aí eu pergunto para algumas pessoas daqui do bairro o que acham disso, e elas não sabem direito o que dizer. Eu criaria a Escola Sem Ódio, por exemplo. Não precisamos de líderes, precisamos de pessoas para caminharmos juntos. Por que um político de esquerda não pode estar na beira do campo, tomando uma cerveja? Na quermesse? Nas reuniões de bairros? Nos saraus? Nos slams? Nos shows da quebrada? No fundo, a periferia, a favela sofrem preconceitos de todos os lados.

Geledés– Por que isso aconteceu? E o que será necessário para ser remediado este estrago?

Sinceramente, eu não sei. Política e religião são assuntos que não domino, só estou constatando um fato. Mas reconheço que o governo Lula foi o maior que já vi como brasileiro.

“As redes sociais impulsionaram a poesia, a literatura periférica, não tenho dúvida. Mas antes disso, ela já estava escorrendo em nossas bocas e nos saraus nos botecos da quebrada.”

Geledés– O Sarau da Cooperifa foi pioneiro na difusão da poesia oriunda das periferias e uma das maiores referências culturais para São Paulo e Brasil. Como vê essa jornada de 17 anos e quais desafios vê pela frente para manter iniciativas como essa em um governo Bolsonaro?

Geledés– Entre suas colocações, em uma entrevista recente, você disse que o ódio vem da vergonha da escravidão? O que quis dizer com isso?

Esse Brasil cheio de ódio sempre existiu. Pergunte aos negros, pobres, índios, mulheres, nordestinos, gays, travestis, que eles te contam. Vamos continuar reclamando como sempre e agindo como nunca.

Geledés– Ainda afirmou que neste período pós – eleitoral, caíram as máscaras e que ficou claro que somos um país “racista, homofóbico, analfabeto e assassino. Mas que há esperança de o Brasil se tornar uma

As pessoas no Brasil são racistas. E elas não têm mais vergonha de dizerem isso abertamente. É disso que a literatura negra e periférica sempre falou. É disso que fala nossa música, o rap, nossa poesia. Agora que tudo fodeu para quase todos no país, tem gente que me diz que minha poesia faz todo o sentido. Porra, estou falando disso há trinta anos. Tem gente falando disso desde o início da humanidade. Para nos entender não basta ser de centro, esquerda ou de direita, tem que entender de humanidade. Outro preconceito é dizer que pobre é de direita. Não é verdade, ele, o povo, votou duas vezes no Lula e duas vezes na Dilma. Não foi o povo que deu o golpe nem que financiou as fake news.

“A poesia  traz o direito a sonhar, que é o bem maior do ser humano. Traz dignidade.”

Geledés– A assistente social Cláudia Rosalina Adão, em sua tese recém-publicada e intitulada Território de morte – homicídio, raça e vulnerabilidade social na cidade de São Paulo (Editora Novas Edições Acadêmicas) ressalta a indiferença da classe média diante do genocídio de jovens negros. Apesar dos dados alarmantes, por que até hoje essa classe ainda resiste em olhar para essa questão?

Em sua maioria, a classe média só olha para o próprio umbigo. Quando tem chacina na quebrada, ninguém vem aqui lutar, protestar com a gente, mas quando a polícia invade a universidade pública, chamam a gente para lutar junto pela democracia. Essas coisas nos cansam.

Geledés – E por que o poder público não prioriza essa questão, apesar de estudos apontarem que uma vez endereço esse tema, seria de benefício para toda a sociedade?

O Estado não nos representa. Não nos reconhece. O sistema capitalista nos vê apenas como mão de obra. Pagam uma miséria pelo nosso tempo, e seguimos escravos de um deus chamado trabalho.

“Por que um político de esquerda não pode estar na beira do campo, tomando uma cerveja? Na quermesse? Nas reuniões de bairros? Nos saraus? “

Geledés – Você tuitou certa vez: “não seja carcereiro da felicidade de ninguém. Viver requer humildade, deixar ser livre e ter liberdade. E ser feliz, é uma escolha pessoal”. Quais escolhas pessoais fez para ser feliz?

A felicidade também é outro assunto que não domino. Mas acho que o mundo nos deu um ego enorme, e hoje em dia, para ser supostamente feliz é preciso ter um monte de coisas que a gente não precisa ter. Eu tento me colocar diante das coisas simples, com humildade para aprender a fugir dessas armadilhas. Ser feliz custa caro, prefiro ser poeta.

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