Polícia e racismo na USP

Vitor Hugo Soares

Mesmo no Alabama da abominável Ku Klux Klan, nos piores tempos do racismo no século passado e início do atual nos Estados Unidos, imagino que as imagens reveladoras de racismo explícito envolvendo a atuação de policiais da PM paulista, esta semana, na repressão de estudantes no campus da USP – a mais importante universidade pública do País – teriam causado pelo menos duas consequências imediatas: mais incisiva reação factual e opinativa dos meios de comunicação (a chamada grande imprensa em especial) e mais forte e necessária indignação da sociedade.

O pior é que o silêncio ocorre não por falta de informação e provas, como poderiam alegar alguns veículos de imprensa, mas por pura apatia ou inércia. Em alguns casos, infelizmente, por cumplicidade e boa dose de aprovação mesmo do truculento comportamento policial.

Afinal, este episódio de boçalidade e revoltante abuso de autoridade foi fartamente documentado em vídeo dos mais acessados esta semana na Internet no Brasil e em inúmeros países democráticos. Neste último caso, com os inexoráveis arranhões para a “imagem modelar de democracia racial” que o turismo e os governantes gostam de vender lá fora, principalmente em festas de Ano Novo ou tempo de Carnaval.

A realidade é que o gritante atentado dentro da modelar academia de ensino superior na capital paulista – onde estive nestes primeiros dias de 2012 e de onde retornei para a Bahia na terça-feira, um dia depois da divulgação do vídeo e de suas primeiras e frágeis repercussões fora da WEB – tem passado até aqui praticamente ao largo do interesse das pautas de nossos jornais, rádios e televisões.

Mesmo em Salvador, de onde agora escrevo estas linhas de protesto, proclamada aos quatros ventos como “A Roma Negra do Brasil”, a repercussão tem sido ínfima. Uma lástima e um retrocesso, tanto no terreno profissional da comunicação, como no campo das liberdades democráticas e dos direitos humanos, o que é mais estranho, grave e preocupante ainda.

O vídeo divulgado no YouTube rola na rede para quem não viu ou tenha curiosidade e interesse de ver.

Ainda assim, façamos uma breve memória do fato (como recomendava o saudoso mestre do jornalismo impresso Juarez Bahia, ex-editor nacional do Jornal do Brasil, oito vezes premiado com o Esso) para que o essencial não se perca e tudo, afinal, não se reduza a retórica inócua diante de um caso grave e que ainda cobra providências severas por parte da PM, dos governantes e, evidentemente, da justiça , diante do atentado condenável a preceito constitucional basilar.

O cenário da agressão policial é um espaço acadêmico no campus da USP, zona oeste de São Paulo. O sargento André Luiz Ferreira, acompanhado do soldado Rafael Ribeiro Fazolin, discute em um círculo de estudantes, professores e servidores da universidade (quase todos brancos, ou quase brancos) sobre uma questão ligada ao DCE. Como seria previsível em “conversa” de estudantes com policiais armados dentro do campus, a discussão fica acalorada e áspera.

De repente, não mais que de repente, o sargento André, uma espécie rechonchuda e equivocada do Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, vivido magistralmente pelo ator baiano Wagner Moura, vira-se para o único negro no grupo, um jovem de cabelo rastafári que participa da reunião na ponta oposta da sala, e pergunta : “Você é aluno desta universidade?”. O rapaz responde afirmativamente. O policial então ordena : “Mostre a carteira”. O estudante diz: “Tenho minha palavra”.

A reação é suficiente para desencadear toda fúria do PM, que saca da arma no meio do local de discussão. Nicolas Menezes Barreto, estudante de Ciências da Natureza na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, leva tapas e é empurrado para fora, pelo militar, alheio às ponderações e protestos de alunos, professores e servidores da USP presentes. O vídeo divulgado em alguns sites, blogs e na Carta Capital (online) registra todo episódio, inclusive o momento em que o PM aponta a arma para Nicolas. É só conferir.

As providências, até aqui, são as de praxe. Declarações formais do governador Geraldo Alckmin, de São Paulo, de que sua administração não tolera violência policial e atitudes flagrantemente racistas, como as verificadas esta semana no campus da USP; o afastamento preliminar e a promessa de punição dos PMs envolvidos, por parte do comando da corporação; notas de entidades de direitos humanos e raciais e protesto veemente de uma desembargadora paulista.

No mais, uma sindicância de 60 dias – tempo em geral mais que suficiente para esquecer tudo por aqui – foi aberta para apurar o caso.

Resta, talvez, uma esperança ainda para que tudo não resulte em mais impunidade no País: Que a chamada “grande imprensa” saia da passividade diante deste flagrante de racismo, que humilha e enodoa e abra suas pautas para acompanhar as “apurações” e cobrar opinativamente medidas punitivas indispensáveis e urgentes.

Mas, neste terreno, tudo por aqui fica cada dia mais parecido com as palavras de Ernst Junger em “La tijera”, publicadas na coletânea de textos do livro “Contra La prensa”, recentemente lançada na Argentina:

“Há uma claridade difusa que não deixa ver bem as coisas. A luz não deve chegar a ser demasiado intensa. No campo que rodeia a morte se infiltra também o silêncio; se torna mais profundo, chega a não ter fundo”.

Profundas e verdadeiras palavras que, diante deste caso na Universidade de São Paulo, merecem toda a reflexão dos que verdadeiramente apostam e acreditam na democracia além da retórica.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site-blog Bahia em Pauta

 

Fonte: Bahia em pauta

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