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Por que a nova coleção da Carolina Herrera causou polêmica no México

A secretária de cultura do país, Alejandra Frausto, acusou a marca de apropriação cultural

Por Matheus Rocha, do Época
Coleção Resort 2020, da Carolina Herrera, foi acusada de apropriação cultural pelo governo mexicano Foto: Imagem retirada do site Época 

Na segunda-feira 10, o governo mexicano enviou uma carta à grife Carolina Herrera acusando a marca de apropriação cultural. No documento, a secretária de cultura do país, Alejandra Frausto, afirma que a coleção Resort 2020 apresenta elementos estéticos característicos de populações nativas do México e questiona de que maneira o trabalho beneficiaria esses grupos. Também houve, nas redes sociais, quem chamasse a atenção para a falta de diversidade da campanha, uma vez que as modelos escolhidas para estampar as peças publicitárias eram todas brancas. Mas, apesar da repercussão, essa não é a primeira vez que o mundo da moda se vê diante de acusações semelhantes.

Em 2017, o estilista Marc Jacobs admitiu “talvez ter sido insensível” ao fazer um desfile em que modelos brancas ostentavam dreadlocks, um penteado ligado à cultura rastafári. No mesmo ano, a marca de lingerie Victoria’s Secret foi alvo de críticas ao colocar nas passarelas modelos trajando estampas que rementem a povos indígenas americanos.

De acordo com o cientista social Rodney William — que lançará o livro Apropriação cultural durante a Flip 2019 — essa prática tem raízes profundas e está ligada às diversas formas de opressão. Nessa perspectiva, o fenômeno pode ser entendido como um mecanismo em que grupos dominantes se apoderam da cultura de povos oprimidos, esvaziando de significado suas manifestações culturais. “Do ponto de vista racial, as cores desses elementos são apagadas, e, geralmente, os povos de onde eles se originam não recebem nem os créditos. Não se devolve absolutamente nada, apesar de muitas vezes (as empresas) lucrarem milhões com esses produtos”, diz William.

Coleção Resort 2020, da Carolina Herrera, acusada de apropriação cultural Foto: Imagem retirada do site Época

O cientista social destaca que a apropriação cultural não pode ser dissociada do racismo, já que ela reafirma privilégios e opressões. “Não existe apropriação cultural se não houver dominação. Tem de haver um grupo majoritário que explora os elementos de um grupo inferiorizado, senão é outra coisa, como assimilação cultural.”

Não raro, os críticos da ideia de apropriação cultural argumentam que as culturas tendem a se misturar e promover trocas conforme os povos travam interações, o que seria um fenômeno natural. “De fato, é uma coisa natural. Se alguém coloca duas pessoas de culturas diferentes para conviver, em algum momento elas vão sincretizar e assimilar a cultura da outra. Isso é um processo de aculturação, como se diz na antropologia”, explica William. Ele, no entanto, destaca que é preciso haver trocas bilaterais para esse fenômeno de fato existir.

“Se você vem para trocar comigo e não traz nada, você está me roubando. Então a apropriação cultural traz como elemento essencial esses processos de dominação. É isso o que a diferencia da aculturação.” No caso da Carolina Herrera, William enxerga que a grife retirou elementos carregados de história de seu contexto original sem dar coisa alguma em contrapartida, nem mesmo os créditos. “Não houve troca. Esse povo foi usurpado”, define ele.

Se no passado a moda retirava elementos culturais de grupos marginalizados sem que nada acontecesse, hoje essa dinâmica mudou graças à internet. É isso o que pensa Luiz Claudio Silva, da grife Apartamento 03. “Quando a pessoa faz a roupa e publica a imagem, ela corre o mundo. Então, hoje, o estilista precisa saber o que ele está fazendo e por que ele está fazendo.”

Aos olhos do estilista, é contraditório os casos de apropriação cultural acontecerem em um momento em que as políticas anti-imigração se avolumam em diversos países. “O México está se organizando para proteger os direitos culturais de um povo que é massacrado. Ergueram um muro para dividir os povos, mas atravessam esse muro para tirar aquilo que (as marcas) consideram bonito”, comenta ele.

Professor de ética e cultura contemporânea da Faculdade Santa Marcelina, Vinicius do Valle diz que as acusações que pesam contra a Carolina Herrera são difíceis de ser tipificadas criminalmente, mas escancaram uma questão de ordem ética que pode arranhar a imagem da grife. “É provável que isso traga consequências à marca, uma vez que ela fica associada a práticas pouco éticas, o que gera uma visibilidade negativa.” O acadêmico considera ainda que as discussões em torno do caso podem trazer resultados positivos. “Debater a respeito é uma forma de valorizar a produção artística dessas comunidades”, explica ele.

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