Por que a Globo desistiu da nudez da Globeleza? Por Nathali Macedo

Digo sempre que temos nos contentado com pouco.

Ficamos felizes quando vamos a algum lugar e não somos assediadas, ganhamos o dia quando a mídia nos trata com o mínimo de respeito, ficamos satisfeitas, frequentemente, com migalhas.

Por Nathali Macedo, para DCM

Eis que, depois de mais de vinte anos, a Globo decide vestir a Globeleza. Depois de mais de duas décadas vendendo o carnaval brasileiro como “bundas pretas disponíveis” e reforçando o estereótipo colonial e fetichizante que pesa sobre os ombros da mulher negra.

Substituíram a mulata tipo exportação por um retrato romantizado da miscigenação brasileira, e pensam que nós temos motivos para comemorar.

Sejamos honestos: não está fácil pra ninguém, nem mesmo para a Globo (em termos de audiência, não de repasses de dinheiro público, é claro). A nova geração tem desligado os televisores e mantido uma relação de felicidade e liberdade com a Netflix.

As opções para sabotar a Globo são infinitas. Pra muita gente, sabotar a Globo tem sido, na verdade, quase um instinto natural. Ninguém mais tem razões para aturar celebração televisiva ao turismo sexual.

Vestir a Globeleza não foi um ato de empatia, foi estratégico – admitir isso sequer dói, de tão óbvio.

Uma grande emissora precisa fazer, ainda que num teatro muito mal encenado, o que o seu público espera dela. A Globo entendeu isso há algum tempo, embora tenha se saído muito mal no intento: já teve até Fernanda Montenegro protagonizando beijo lésbico, como se a emissora se importasse com questões relevantes como a lesbofobia (e, no caso da Globeleza, como machismo e racismo).

É pouco, como o gol de honra após a goleada da Alemanha, o que não significa que seja ruim, que seja a prevalência da caretice sobre a liberdade – nudez nem sempre é sinônimo de liberdade (nesse caso específico, era da mais articulada violência).

Deixamos de ter uma mulher nua para representar o carnaval aos olhos da Globo? Ótimo, mas isso certamente não será suficiente para que eu gaste meu tempo com telejornais tendenciosos e novelas previsíveis.

+ sobre o tema

Robson Caetano é indiciado na Lei Maria da Penha por lesão corporal

O ex-atleta Robson Caetano foi indiciado neste domingo (6)...

Sueli Carneiro participa, no Mês da Mulher, do II Encontro Etnicidades Nordeste

Sueli Carneiro é uma das ativistas mais importantes do...

Ato em SP marca Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha

As marcas da ancestralidade africana – no cabelo, na...

Mulher dirige ônibus e caminhão, sim senhor!

A escritora Cidinha da Silva comenta a portaria que garante...

para lembrar

Domésticas investem no estudo em busca de novas oportunidades

Domésticas investem no estudo em busca de novas oportunidades Uma...

Cineasta Yasmin Thayná busca ação política fora dos partidos

Em nova série da GloboNews, Yasmin Thayná viaja para...

‘Tenho uma responsabilidade coletiva e já não vivo mais só a minha vida’

Em outubro de 2016, durante um ato pela educação...

Mulheres passam mais tempo na escola do que homens

Elas estudam cerca de seis meses a mais e...
spot_imgspot_img

CNJ pede explicações a juízas sobre decisões que negaram aborto legal

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) decidiu nesta sexta-feira (12) intimar duas magistradas do Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) a prestarem esclarecimentos sobre...

Instituto Mãe Hilda anuncia o lançamento do livro sobre a vida de matriarca do Ilê Aiyê

O livro sobre a vida da Ialorixá Hilda Jitolu, matriarca do primeiro bloco afro do Brasil, o Ilê Aiyê, e fundadora do terreiro Acé...

Centenário de Tia Tita é marcado pela ancestralidade e louvado no quilombo

Tenho certeza que muitos aqui não conhecem dona Maria Gregória Ventura, também conhecida por Tia Tita. Não culpo ninguém por isso. Tia Tita é...
-+=