Por que Solange Couto é a única atriz negra famosa a protestar contra os papeis de sempre? Por Sacramento

Em 34 anos de carreira, a atriz Solange Couto interpretou 25 empregadas domésticas ou escravas, cinco dançarinas e apenas sete personagens fora dos estereótipos reservados às negras. O balanço da atriz, atualmente no elenco de “Malhação”, da Globo, faz parte do projeto “Senti Na Pele”,  onde pessoas negras relatam situações em que sofreram racismo.

No DCM 

Solange, por enquanto, foi a única atriz famosa a participar da campanha, mas o relato que ela fez resume os espaços reservados a artistas negros na TV, no cinema e na publicidade brasileira.

Embora a situação para o ator negro esteja mais confortável que há 30 anos, quando Solange estreou na TV, uma representatividade que reflita a composição étnica do país está longe de acontecer.

A chave para mudar este cenário passa pelo aumento de diretores, roteiristas e produtores negros atuando nas grandes empresas do setor. De nada adianta existirem atores e atrizes talentosos dentro das mais diversas características étnicas e físicas se os profissionais que podem decidir pelas suas contratações estão dominados pela miopia eurocêntrica.

Falta, por aqui, uma figura como a de Shonda Rhimes, roteirista e produtora responsável por séries de sucesso como Grey’s Anatomy, Scandal e How To Get Away With Murder, trabalho que faz de Viola Davis a primeira negra a ganhar um prêmio Emmy de melhor atriz.

Mesmo à frente de séries onde mulheres negras protagonizam personagens poderosas e casais gays trocam carícias com naturalidade, Rhimes nega que esteja promovendo a diversidade na indústria cultural. O que faz, segundo ela, é “normalizar a TV”, fazendo-a se parecer com o mundo real.

“Eu detesto a palavra diversidade. Ela sugere … como se fosse algo especial, ou raro. (…) Mulheres, negros e LGBT somam muito mais que 50% da população. Isso significa que eles não são qualquer coisa”, disse Rhimes em um baile promovido por uma entidade de defesa dos direitos humanos.

Com mais de 53% da população brasileira se identificando como negra, não é preciso gastar horas diante da TV para perceber como seus programas estão desconectados da realidade.

Há sinais de mudanças, como presença da jornalista Maju Coutinho no Jornal Nacional e o sucesso do casal Lázaro Ramos e Taís Araújo comprovam. Mas tudo seria mais rápido se por aqui houvesse mais gente alinhada com o pensamento de Shonda Rhimes.

Gente que não mandaria mensagem em busca de atores com a observação de que é difícil encontrar um negro bonito, como uma agência de seleção de elenco fez recentemente ao procurar atores para uma série da Netflix.

Sobre o Autor

Marcos Sacramento, capixaba de Vitória, é jornalista. Goleiro mediano no tempo da faculdade, só piorou desde então. Orgulha-se de não saber bater pandeiro nem palmas para programas de TV ruins.

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