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Porque cultura é lugar de política afirmativa

Apesar do cenário de retrocesso, pela primeira vez na Bahia um edital dedicado às artes estimulará a classificação de projetos idealizados por negros e mulheres. Politicamente, a iniciativa problematiza narrativas a respeito da importância das estruturas político-governamentais na dinamização da cultura na Bahia. Cotas nas artes é coisa nova aqui, mas, há alguns anos estes dispositivos já foram implementados em editais em outros estados, como São Paulo e Pernambuco. O Brasil tem mais de 500 anos de história para justificar este alinhamento entre os fenômenos sociais e a razão da política pública.

Por Renata Dias, do  Jornal A Tarde

@PHOTOSBYPHAB/nappy

Em 2018, a Agência Nacional do Cinema, vinculada à época, ao hoje extinto Ministério da Cultura, publicou um estudo da Superintendência de Análise de Mercado dedicado a analisar aspectos de gênero e raça em todos os filmes lançados comercialmente em salas de exibição no Brasil em 2016. A publicação traz dados sobre a disparidade na cadeia produtiva do audiovisual brasileiro, quando o que está em xeque é ser mulher e negro. Apesar dos dados alarmantes, o assunto pouco foi reverberado pela mídia ou entre os próprios agentes culturais. Mais do que um informe de mercado, a publicação é um retrato do caráter estrutural do racismo brasileiro quando aplicado às engrenagens que servem à cultura nacional.

Elenco alguns motivos para o alarde: dos 142 longas metragens lançados em 2016, nenhum tem Direção, Roteiro ou Produção Executiva assinados por uma mulher negra. Por homens negros, apenas três. Em posições como Direção de Fotografia e Direção de Arte, os dados são igualmente desoladores. Quanto ao elenco principal, apenas 8% dos atores são negros nos filmes de longa metragem produzidos com incentivo federal.

Sabemos que a cadeia produtiva do audiovisual não é a única a apresentar dados para uma leitura mais honesta sobre as demandas silenciadas na Cultura. Outro exemplo: na última edição da FLIPELÔ, a Fundação Cultural do Estado, vinculada à Secretaria de Cultura, apresentou resultados do primeiro mapeamento dos artistas da palavra baianos. A iniciativa alcançou 275 artistas, sendo 147 de Salvador e 128 de outros 58 municípios, contemplando 25 territórios de identidade. O diagnóstico demonstra que os artistas negros distribuem suas produções mais de forma ambulante, ao tempo em que os não-negros se apoiam em bibliotecas e livrarias. Nesta pesquisa, o recorte racial foi imprescindível para compreender o alcance da desigualdade racial na cadeia produtiva da cultura, reforçando a necessidade de efetiva participação do governo para promover políticas de igualdade. E então, avaliar se o esforço da gestão é um fiasco ou um farol será, sobretudo, uma questão de perspectiva.

 

Renata Dias – Diretora Geral da Fundação Cultural do Estado da Bahia

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