Prefeitos eleitos não assinam pacto da ONU por igualdade de gênero

O programa Cidade 50-50, da ONU Mulheres, tem por objetivo promover a paridade entre homens e mulheres, mas por enquanto tem baixa adesão

por Ingrid Matuoka no Carta Capital

Dos mais de 5,5 mil prefeitos eleitos em 2016 no Brasil, nenhum assinou o compromisso com o projeto “Cidade 50-50: todas e todos pela igualdade” da ONU Mulheres. Ainda.

O programa tem por objetivo fazer da paridade de gênero uma política pública que comece a ser aplicada desde os vereadores e prefeitos para atingir uma rede nacional de comprometimento efetivo com a causa.

Lançado no final de setembro, o projeto foi criado em parceria com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com o Instituto Patrícia Galvão e com o Grupo de Estudos sobre Democracia e Diversidades da Universidade de Brasília.

Nadine Gasman, representante da ONU Mulheres no Brasil, afirma que tem esperanças de que prefeitos e vereadores eleitos se unam ao movimento. “Estamos preocupados com a baixa eleição de mulheres, mas os que venceram podem fazer diferença”.

CartaCapital: Qual é a proposta do Programa Cidade 50-50 da ONU?

Nadine Gasman: O programa busca o reconhecimento da importância que as políticas públicas municipais têm para a promoção na igualdade de gênero na esfera pública e privada, na economia, política, no ambiente de trabalho, na educação, cultura, e em toda parte.

É uma busca por uma cidade em que as mulheres não tenham menos oportunidades, condições e direitos do que os homens, porque nenhuma sociedade pode ser democrática sem isso.

O Brasil é um dos signatários da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável da ONU, e o princípio do Cidade 50-50 está no coração desses objetivos. Por isso, nessa eleição buscamos candidatos e candidatas que fizessem um compromisso público com os direitos das mulheres para ter cidades igualitárias no Brasil.

CC: Quantos candidatos assinaram o compromisso?

NG: Ao todo, 55 candidatas e candidatos aderiram ao programa, sendo 13 a prefeito e 42 a vereadores. Mas nenhum desses prefeitos que se comprometeram foi eleito, e somente três vereadores venceram: Áurea Carolina do PSOL de Belo Horizonte, a vereadora com maior número de votos na cidade, Larissa Gaspar do PPL em Fortaleza (CE), e o professor Diogo do PPL, em Timóteo (MG).

doria-generoJoão Doria conversa com Nadine. O prefeito eleito em São Paulo prometeu analisar a proposta (Foto: ONU Mulheres/Reprodução)

CC: Como foi o contato com os candidatos à prefeitura de São Paulo?

NG: Eu e a equipe fomos a São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre para conversar pessoalmente com os candidatos. Na capital paulista, Fernando Haddad (PT) e Luiza Erundina (PSOL) assinaram a plataforma.

E o agora prefeito eleito João Doria (PSDB) disse que a equipe dele ia analisar a proposta e decidir depois, mas ainda não tivemos uma resposta.

CC: E dos outros estados?

No Rio de Janeiro, Marcelo Freixo (PSOL), Alessandro Molon (REDE) e Jandira Feghali (PCdoB) assinaram. Em Porto Alegre, Sebastião Melo (PMDB) também fez a adesão.

CC: Quais são os próximos passos para continuar a desenvolver o programa?

NG: Agora vamos para uma segunda fase, e entrar em contato com os eleitos e as eleitas para convidá-los mais uma vez para assinar a plataforma, que continua em funcionamento. Eles podem assumir o compromisso com políticas voltadas para a igualdade de direitos entre mulheres e homens a qualquer momento.

E também vamos monitorar a projeção dos que se comprometeram com esse compromisso, que é suprapartidário e envolve diversas áreas.

Estamos preocupados com a baixa eleição de mulheres, mas os que venceram podem fazer diferença promovendo proporção maior de mulheres nos gabinetes.

Eles podem assinar orçamentos para políticas para mulheres, fazer mais creches, fazer mudança real na vida das mulheres e a gente acredita que na medida em que essas coisas vão acontecendo, para a próxima eleição, seguramente podem ser eleitas muitas mais mulheres.

Temos uma grande expectativa de que prefeitos e vereadores eleitos estejam abertos a pensar e a se unir ao movimento e fazer sua parte, que eles percebam que a ação local tem muito impacto direto na vida das pessoas.

+ sobre o tema

Quando criança, eu sonhava em ser Globeleza

“Em algum momento da adolescência, me perguntei porque queria...

“Prezado ex-namorado, preciso lhe contar umas coisas”, por Mari Ene

Muitos disseram que essa hora chegaria, este momento que...

Mulheres que abordam sexualidade nas redes sociais sofrem com ataques e ameaças

Mulheres que utilizam as redes sociais para abordar assuntos...

Dilma sofre “estupro político”, diz filósofa

A filósofa e escritora Márcia Tiburi afirmou o que...

para lembrar

Mulheres negras de João Pessoa saem em cortejo contra o racismo

O Movimento de Mulheres Negras da Paraíba realiza um...

Deputada Leci Brandão homenageia mulheres com Medalha Theodosina Ribeiro

Aconteceu na ultima segunda-feira (28) a entrega da Medalha...

Raquel Trindade fala sobre as mulheres do seu tempo e as de agora

Pesquisadora, artista plástica, folclorista, dançarina, avó, mãe, mulher. Essa...
spot_imgspot_img

O mapa da LGBTfobia em São Paulo

970%: este foi o aumento da violência contra pessoas LGBTQIA+ na cidade de São Paulo entre 2015 e 2023, segundo os registros dos serviços de saúde. Trata-se de...

Grupos LGBT do Peru criticam decreto que classifica transexualidade como doença

A comunidade LGBTQIA+ no Peru criticou um decreto do Ministério da Saúde do país sul-americano que qualifica a transexualidade e outras categorias de identidade de gênero...

TSE realiza primeira sessão na história com duas ministras negras

O TSE realizou nesta quinta (9) a primeira sessão de sua história com participação de duas ministras negras e a quarta com mais ministras...
-+=