Prêmio Claudia 2014: Jaqueline Fernandes e Chaia Dechen

Festival Latinidades nasceu do inconformismo de duas mulheres: a produtora cultural Jaqueline Fernandes e a videomaker Chaia Dechen. Elas faziam parte de um coletivo de Brasília ligado ao hip hop que discutia questões raciais. “Não somos morenas nem marrom-bombom. Somos negras e nos assumimos assim”, avisa Jaqueline. Depois, continua a contar sua história: “Havia ali integrantes que cantavam, tocavam ou discotecavam. Mas o grupo era misto e queríamos criar um só feminino com a proposta de dar visibilidade ao 25 de julho, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino- Americana e Caribenha”.

Foi aí que a dupla fundou a Griô Produções e, meio despretensiosamente, organizou a primeira edição do evento, em 2008. Após anunciá-lo na rede social Orkut e de panfletar, elas reuniram 200 pessoas, atraídas por algumas apresentações musicais e duas rodas de conversa. Apesar da baixa audiência, as duas não desanimaram. Matutaram sobre como vitaminar o evento e torná-lo relevante. Até que, em 2010, surgiu a ideia de propor ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao governo federal, a inclusão da temática afro numa conferência sobre desenvolvimento da entidade. “Aí nós entramos com debates e shows numa superestrutura na Esplanada dos Ministérios”, conta Jaqueline.

De lá para cá, o Latinidades atrai cada vez mais gente. Em 2013, mesmo sem parceria com o Ipea, arrastou mais de 50 mil pessoas com um mix de palestras e atividades artísticas, como música e lançamentos de livros. Tudo gratuito. Para ter uma ideia, o volume de pessoas equivale ao dobro do que circulou pela tradicional Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). “Nosso maior retorno é constatar que estamos influenciando meninas a se assumirem negras”, diz Chaia.

A expectativa é bater recorde de público na edição de 2014, que ocorre de 23 a 28 deste mês. A vinda das americanas Angela Davis, lendária integrante do grupo revolucionário Panteras Negras, e Patricia Hill Collins, socióloga e escritora, deve ajudar. Em meio a discussões sobre feminismo e preservação da tradição oral afro, haverá saraus, exibição de filmes e apresentações de dança. “O trabalho delas é crucial. Não há outro evento centrado nas mulheres afrodescendentes que tenha tamanha repercussão nacional e internacional”, avalia Jurema Werneck, da ONG Criola, no Rio de Janeiro, expoente do movimento negro no Brasil. “Com múltiplas linguagens, elas amplificam vozes e mostram as mulheres negras de forma afirmativa.”

Fonte: Prêmio Claudia 2014

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