quarta-feira, setembro 22, 2021
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Preta, pretinha, não liga para o que dizem essas pessoas e só abaixe a sua cabeça, quando for para colocar a coroa.¹

Recentemente o Instituto da Mulher Negra – Geledés, realizou a pesquisa “A educação de meninas negras em tempos de pandemia: O aprofundamento das desigualdades”. Embora o estudo tenha como local de pesquisa a cidade de São Paulo, seus resultados chamam a atenção para a situação da educação das meninas negras em todo o país.

O texto desta semana buscará refletir sobre alguns dos resultados alcançados pela pesquisa que devem ser percebidos por mulheres negras adultas, em especial àquelas consideradas lideranças. É evidente que o compromisso com os direitos e cuidado das meninas negras, e de todas as crianças e adolescentes, é de responsabilidade coletiva, exatamente como determina o artigo 227 da Constituição Federal, entretanto, é notório que as mulheres negras têm um olhar mais sensível, humano e próximo à realidade das meninas negras, seja porque um dia já foram meninas negras , seja porque elas irão herdar  o legado social das conquistas alcançadas pelas mulheres negras.

Neste sentido, destacamos 5 resultados que nos convidam a refletir ainda mais sobre o papel das mulheres negras, não apenas na representatividade, mas também no cuidado, na proteção e na defesa dos direitos de meninas negras:

1.   Meninas negras acessam menos a Internet. Segundo a pesquisa “estudantes negros têm 2,3 vezes menos acesso à Internet por celular (14%) do que os brancos (6%)”. Isto significa, que as poesias escritas às meninas negras, como “Menina Melanina” da Mel Duarte, que nos lembra de abaixar a cabeça apenas para colocar a coroa, e até mesmo este texto, que no seu plano de fundo é uma carta de amor às meninas negras, elas terão menos chances de acessar do que qualquer outra adolescente na mesma idade.

2.   Meninas negras têm menos tempo e oportunidades para estudar. A pesquisa aponta que “57,1% dos meninos brancos estudam 3 vezes ou mais por semana, enquanto 56,2% das meninas brancas, 38,8% dos meninos negros e 34,1% das meninas negras”. Ter menos tempo e oportunidade de estudar está diretamente ligado ao próximo resultado apontado pela pesquisa e que também merece destaque.

3.   Meninas negras são as maiores vítimas do trabalho infantil. De acordo com a pesquisa “as crianças negras representam 62,7% das vítimas do trabalho infantil e, quando desagregamos por categorias de trabalho, são 73,5% no trabalho doméstico, área que também concentra 94% de meninas”. Todo dia 12 de junho é marcado pelo Dia Nacional e Internacional de Combate ao Trabalho Infantil, a invisibilidade desta data também reforça e agrava a invisibilidade das meninas negras vítimas do trabalho infantil.

4.   Meninas negras têm mais professoras negras e isso mostra que as mulheres negras, mais uma vez, são as que mais possuem contato e estão próximas das meninas negras, mesmo na sala de aula. Os resultados mostram “que a maioria do grupo de docentes desta pesquisa são mulheres (77,85%), sendo as mulheres negras (44,97%) quase metade do total de docentes, seguidas de mulheres brancas (32,21%), homens negros (14,09%) e homens brancos (7,38%)”. Neste sentido, cuidar de quem cuida nunca fez tanto sentido. É dizer: mulheres negras cuidadas  com saúde, proteção e educação, significa que meninas negras também terão melhores condições de serem cuidadas e protegidas.

5.   Meninas negras não têm suas especificidades de raça e gênero consideradas pelas organizações da sociedade civil. Por fim, a pesquisa identificou que “há um silenciamento das organizações da sociedade civil nos debates sobre os desafios para o enfrentamento do racismo e do sexismo desde a primeira infância. Nas respostas das instituições pesquisadas sobre as questões de raça/cor e gênero, apresentadas anteriormente, observamos que, de modo geral, estas instituições consideram que as questões vinculadas à raça e gênero produzem desigualdades na vida de crianças e adolescentes negras e negros, mas essas questões são secundarizadas. Há um aumento dos efeitos psicossociais do racismo; e que a pandemia ampliou a vulnerabilidade das meninas negras”. Este resultado aponta que as expressões “nós por nós”, “sou porque somos” ou “tudo que nós tem é nós”, não são apenas frases bonitas que compõem canções de resistência, mas sim princípios e mantras de sobrevivência dos nossos corpos desde a infância.

Os resultados desta pesquisa, ainda que concentrados na cidade de São Paulo, revelam, na verdade, a prática e a realidade cotidiana de milhares de meninas negras por todo o Brasil. A pesquisa também destaca a importância e a urgência de uma ”abordagem interseccional comprometida com a justiça social, e que impulsione uma agenda para a construção e intervenção social em favor das meninas negras”. Neste sentido, o que se busca é encontrar mecanismos e ferramentas para que as mulheres negras, também vistas socialmente como a base da sociedade, em especial as mulheres negras vistas como lideranças, possam colaborar com esta construção e intervenção que propõe a presente pesquisa.


 ¹ Trecho da poesia “Menina Melanina” da poeta e artista Mel Duarte.

 ² Advogada, Líder do Programa de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras: Marielle Franco apoiada pelo Fundo Baobá.

 ³ Graduada em Direito e coordenadora da Clínica de Direitos da Criança e do Adolescente, vinculada à FDUSP.

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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