O projeto nacional brasileiro está recheado de associações entre doenças, raça, gênero e loucura. Entendendo a interseccionalidade como ferramenta analítica (Crenshaw, 2002), iremos realizar um breve panorama sobre o projeto de nação brasileiro, as subjetividades femininas e suas multiplicidades, assim como suas implicações nas políticas eugenistas.
É pensando nesse projeto de nação que a subjetividade feminina branco-burguesa se encontra em constante vigilância. Controladas, vigiadas e punidas, as mulheres brancas poderiam habitar os entornos fechados das paredes dos manicômios ou mesmo de suas casas, terreno-reclusão, para que pudessem exercer, enfim, o trabalho do cuidado, essencial para o capital e, ao mesmo tempo, desqualificado e não remunerado. Nesse contexto, mulheres não brancas encontram-se em uma encruzilhada, pois é certo que influía sobre nossos corpos as teorias eugenistas e racistas, assim como o discurso misógino, tornando-nos terreno para as maiores violências e espetacularizações de sofrimentos físicos e psíquicos.
O terreno da loucura, muito além de uma estrutura psíquica, diz respeito, também, a uma macroestrutura de governo, de nação e de colônia que antecede os pressupostos científicos e, por vezes, o endossam. Afinal, que histórias as loucas trazem que se pretende calar e exterminar? Que histórias essa estrangeiridade, nomeada loucura, nos conta acerca de sustentarmos o desejo pela diferença? Dispositivos mecânicos de contenção e o trabalho físico eram considerados terapêuticos. Como registrado em Holocausto Brasileiro (2019), muitos presos, em sua maioria pobre e preta, trabalhavam diariamente em regimes escravocratas para as companhias/empresas ao redor do hospício de Barbacena. Torturas também foram amplamente disseminadas nos corpos aprisionados. O uso da violência era prática da herança escravagista (Lobo, 2015).
Dessa forma, “para os alienistas de meados do século, os loucos haviam caído nas armadilhas de mundos fantasiosos, em geral desenvolvidos a partir de uma imaginação sem freios. Eles deviam ser tratados como crianças incapazes, e requeriam uma dose de rigorosa disciplina moral. A função do manicômio deveria ser praticamente a de uma escola reformatória” (Garcia, 1995, p. 85). O enclausuramento em massa do povo preto em instituições participa da política de branqueamento da polis. Enclausura-se e disciplina-se os inumanos, inadequados à concepção eugenista e colonial de cidade.
A manicomialização da vida tem, também, suas raízes no crescimento das cidades durante os séculos, na disciplinarização do trabalho, na vigilância dos corpos e no aburguesamento da vida. A partir do século XVII o que se entendia por loucura é redefinido. Sob a cultura burguesa, o papel da loucura passa a ser pensado como degeneração, desrazão e doença mental. Esvaziado de seu caráter profético, premonitório, sagrado e/ou trágico, o louco tornou-se um doente/enfermo (Garcia, 1995).
O projeto nacional é um projeto em disputa. Nesse sentido, é essencial fabricar parâmetros para a normalidade e anormalidade na construção da nação brasileira, uma vez que esse projeto é eugenista, se propõe homogêneo, violento, em suma, colonial. Para as/os anormais – entendendo a anormalidade no projeto colonial como característica de personagens urbanos indesejáveis, tais como loucas/os, prostitutas, pauperizadas/os, pretas/os, não heterossexuais etc. – os manicômios fazem parte de um projeto de cidade que se propõe moderno. A colonialidade pretende exterminar diferenças e a loucura é uma das diferenças insuportáveis para o suposto progresso do projeto colonial. Aprisionados dentro das instituições, corpos loucos ocupam um local estratégico e contraditório para o projeto de nação: corpos subalternizados e desqualificados, tornam-se também, essenciais aos pilares da colonialidade e à gestão e controle dos corpos.
Referências bibliográficas:
Arbex, D. (2019). Holocausto brasileiro: Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil. Rio de Janeiro: Intrínseca.
Costa, J. F. (2011). História da psiquiatria no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Garamond.
Crenshaw, K. Documento para o Encontro de Especialistas em Aspectos da DiscriminaçãoRacial Relativos ao Gênero. Estudos Feministas, ano 10, n 1, pp 171-188, 2002.
David, E. C. (2018). Saúde mental e racismo: A atuação de um Centro de Atenção Psicossocial II Infanto Juvenil (Dissertação de Mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, Brasil). Recuperado de https://repositorio.pucsp.br/handle/handle/21029
Garcia, C. C. (1995). Ovelhas na névoa: Um estudo sobre as mulheres e a loucura. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos.
Lobo, L. F. (2015). Os infames da história: Pobres, escravos e deficientes no Brasil. Rio de Janeiro: Lamparina.
Ramos, A. C. (2021) Travessias Desnorteadoras: Ensaios Decoloniais e Suas Tessituras dos Estudos da Bruxaria e da Loucura. (Dissertação de Mestrado, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil). Recuperado de https://repositorio.pucsp.br/handle/handle/21029
Observação: Essa escrita é um fragmento de um artigo maior de minha autoria nomeado “Que doidice é essa: recortes do projeto colonial, exclusão e loucura”. Para uma maior compreensão da temática, indicamos a leitura completa disponível através do link: http://www.periodicos.ufc.br/psicologiaufc/article/view/93045
Ana Carolina Dias Ramos é psicóloga antimanicomial com diversas experiências em liderança de projetos sociais, culturais e intersetoriais com foco no impacto público e comunitário através da justiça social e da equidade racial e de gênero. Atuação em políticas públicas de saúde mental em diversos dispositivos públicos, articulação institucional, gestão de equipes e cuidado interseccional. Mestra em Psicologia Social, autora e educadora com produções voltadas à contra colonialidade, transformação social, marcadores sociais da diferença e cuidado integral. Também atua como professora ministrando aulas sobre colonização, Sul Global, saúde mental e direitos humanos. Coordenadora e Gestora do projeto “Corpo: território que possibilita experienciar a vida na Terra” (Funarte, 2024) onde pesquisa as aproximações entre arte e cuidado, entendendo ambas como potentes agentes de transformação social. Contatos: [email protected]
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