PUC-Rio, Cesar Menotti e Fabiana Cozza: três fatos mostram por que debater o racismo é necessário

Três notícias associadas aconteceram neste fim de semana. Em uma brincadeira de péssimo gosto, um astro da música popular disse, em rede nacional, que “Samba é coisa de bandido”. A segunda notícia: veio à tona o racismo contra negros praticado por estudantes de classe média alta da PUC-RIO pelo quarto ano seguido de Jogos Jurídicos Estudantis. Terceira notícia: a cantora negra e ativista Fabiana Cozza renunciou ao papel de Dona Ivone Lara porque militantes do movimento negro achavam ela branca demais.

Por  Dodô Azevedo, do G1

Fabiana Cozza e Ivone Lara (Foto: Montagem G1)

As primeiras duas notícias explicam a terceira?

Vejamos. Achar que a frase “Samba é coisa de bandido” pode, sob o contexto que for, ser uma piada, é “normal”, diz o quanto ainda não entendemos o que o quanto somos racistas.

Show com César Menotti e Fabiano teve duas horas em Barretos 2017 (Foto: Érico Andrade/G1)

Pior racista é aquele que não enxerga o próprio racismo. Porque, entre outras coisas, na cabeça dele, que tem certeza que não é racista, quem se sente ofendido só pode estar exagerando. É, para ele, a única explicação possível.

Todos riram da piada. Platéia no auditório, platéia em casa. E olha que o público de Sergio Groisman é, disparado, mais bem qualificado e esclarecido do que a média do telespectador brasileiro.

Já no caso os alunos de direito da PUC, nossos futuros advogados e juízes, a gravidade está, para além do ato, o fato de não ser a primeira vez que acontece. Segundo Renata Azevedo, aluna da UERJ de 21 anos, nos últimos quatro anos alunos de direito da PUC atacaram alunos negros de outras instituições.

Casca de banana foi jogada contra aluno negro da UCP (Foto: Reprodução/ Redes Sociais)

O que aconteceu nos últimos quatro anos para que o escândalo não viesse à tona?

Voltamos ao problema número dois. A do brasileiro racista-que-tem-certeza-que-não-é-racista, e que por isso acha que o negro que reclama de racismo é vitimista e está sempre exagerando. O inadmissível comportamento dos alunos foi denunciado antes, mas não levado em consideração por ninguém.

O que mudou nesses últimos anos para que considerassem?

Simples, o mundo melhorou.

Tornou-se mais chato.

Menos primitivo.

Mais atento e rigoroso ao nosso impulso primitivo de conservarmos nossos privilégios e negar sua distribuição.

O que nos leva à terceira noticia. A cantora que não era negra o suficiente para o papel.

O que diz o movimento negro é que quanto mais escura a pele, menos privilégios e oportunidades se tem. Um fato ultrajante, verdadeiro, e nunca observado por quem está fora do movimento.

E que o papel de Dona Ivone Lara, negra de pele muito escura, é uma das raras, praticamente únicas oportunidades para que uma cantora talentosa de pele muito escura, como a de Dona Ivone, tivesse para aparecer. Que as janelas de oportunidades para negros mais escuros são mais raras do que para negros mais claros. E que isso deveria ser levado em conta se quisermos avançar nessa questão.

A dor de Fabiana, a perplexidade dos envolvidos, dá-se porque nunca discutimos o assunto. É o susto do despertar. Despertares são, em seu primeiro momento, mais doloridos, bagunçados, erráticos. Causam eventualmente prejuízos e injustiças.

Mas são despertares. Uma fase necessária. Depois passa.

O mundo está chato, politicamente correto, não deixa mais a gente brincar com racismo, nem ficarmos desatentos com questões que antes não enxergávamos.

Um recém-nascido despertando, chorando agudo, inconveniente, chato… e belíssimo.

Como o despertar de todo recém-nascido.

Chato que dói.

O primeiro passo, os primeiros berros.

Vai doer, mas eu quero.

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