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Quando o preconceito se disfarça de ideologia política

A cada capítulo dessa novela envolvendo a tentativa desesperada da direita em aplicar um golpe contra a presidente Dilma Roussef e retomar o poder, assistimos ao vivo e a cores cenas que têm revelado o que há de pior na essência de algumas pessoas. A rivalidade, que já superou a clubística, entre os que são contra o impeachment e os que são a favor dele, atinge níveis de irracionalidade absurdos. Há poucos dias uma pediatra se recusou a seguir atendendo a uma criança porque descobriu que a sua mãe era petista. Pode até parecer mas não é matéria do Sensacionalista. A piada é bem sem graça e perigosa.

Por Nêggo Tom Do Brasil247

A médica Maria Dolores Bressan informou a mãe da criança que não podia passar por cima dos seus princípios atendendo o filho de  uma pessoa ligada ao partido que ele quer ver fora do poder. Em mensagem enviada a Ariane Leitão, mãe da criança, e publicada pela Folha de São Paulo, a médica alega que: “depois de todos os acontecimentos da semana passada e culminando com o de ontem (quarta, 16/03), onde houve escárnio e deboche do Lula ao vivo e a cores, para todos verem (representante maior do teu partido), eu  estou sem a mínima condição de ser pediatra do teu filho.” É difícil de acreditar que estamos lendo isso, mas estamos. E ainda dito por alguém que faz um juramento de amor ao próximo para poder exercer a sua profissão.

Este episódio lamentável protagonizado por essa médica, me fez pensar em tantas outras situações, tão graves ou até mais graves do  que essa, que ocorrem em nosso dia a dia sob outros pretextos ou ideologias que apenas expressam o preconceito internalizado no consciente de alguns. A falta de ética profissional dessa pediatra e a sua falta de  sensibilidade em não conseguir superar uma diferença ideológica em detrimento do bem estar de uma criança de apenas  1 ano de idade, deveria acender em todos nós um sinal de alerta  que  indica a nociva degradação do caráter do ser humano  e a revelação da face obscura, porém a verdadeira, de muitos que se apresentam como cidadãos de bem.

Na verdade essa médica representa o pensamento de uma porção egoísta e preconceituosa da nossa sociedade. Aquela porção que também usa a ideologia política como máscara para segregar os mais pobres, para perpetuar o racismo e para poder legitimar o seu preconceito de forma institucionalizada. É aquele tipo de “cidadão de bem” que se recusa a sentar a mesa com o outro porque o outro não pertence a sua classe econômica e isso vai de encontro aos seus conceitos de aceitação social. É aquele tipo de pessoa que se recusa a aceitar que um negro possa estar numa boa universidade ou ter um mínimo de dignidade, porque isso fere o  seu conceito de superioridade racial. Ele não consegue lidar com isso. É demais para a sua formação escravocrata.

A mesma médica  representa ainda aquela porção que ainda não se acostumou com a presença dos menos favorecidos em alguns ambientes que antes o acesso lhes era negado. Eles se recusam a estar no mesmo avião que um pobre, que antes viajava apenas de ônibus e assim deveria estar fazendo até hoje. Isso é um insulto a tudo que lhes fora ensinado pelos nossos colonizadores. Afinal, lugar de pobre é na cozinha e não sentado na poltrona que sempre foi cativa aos mais abastados. A recusa da médica Maria Dolores Bressan também representa o totalitarismo que a nossa direita política sempre quis impor no país. Um governo no estilo “bom xi bom xi bom bom bom”, onde o rico cada vez deve ficar mais rico e o pobre cada vez mais pobre. E de preferência lhes servindo fielmente e agradecendo pelas migalhas que lhe oferecem.

O preconceito disfarçado de ideologia também pode se manifestar de outras formas. É o caso do sujeito que demoniza o outro porque não aceita a sua crença religiosa ou a sua orientação sexual. Não que sejamos obrigados a compartilhar das mesmas escolhas ou absorvê-las como legítimas, mas devemos ter o bom senso de respeitar ou de no mínimo não sermos tão cruéis com as diferenças. Deveria ser tão simples evitarmos fazer aos outros o que não gostaríamos que fizessem conosco, se o egocentrismo não se sobrepusesse a razão e a boa educação. Atitudes como a dessa médica expressam o pensamento de uma parte da elite que dá aos seus filhos o que há de melhor, mas se recusam aceitar a criação de um mísero bolsa família que assiste a muitas crianças que têm fome e sede. E n&at ilde;o apenas de alimentos, mas principalmente de dignidade.

A atitude dessa pediatra, que ainda encontrou eco na voz do presidente do sindicato médico do Rio Grande do Sul, Paulo de Argollo Mendes, que elogiou a atitude da médica e disse, entre outras coisas que: “Ela tem que se orgulhar disso. Não tem que se arrepender”, abre precedentes para que sejam cometidos outros crimes em nome da ideologia política e partidária de alguns. E se por acaso outro médico inspirado no exemplo dessa pediatra, resolve negar atendimento a um paciente porque ele é filiado a um partido que ele não gosta e o mesmo vir a óbito? E se um Juiz, mesmo sem analisar o processo resolve sentenciar um réu como culpado apenas porque o mesmo é a favor do governo o qual ele é contra? Isso é criminoso e característico dos golpistas que não aceitam ideias contrárias as suas e apelam para a força irracional a fim de provocar a ruptura do regime democrático.

O que se vê é uma manifestação de insanidades e despropósitos por parte de um segmento da sociedade liderado e induzido por aqueles que querem tomar o poder na marra. Eles estão fazendo ameaças, intimidações e promovendo agressões verbais e até físicas sob o pretexto de ideologia política. Até o deputado Jair Bolsonaro já avisou que os deputados que não votarem a favor do impeachment terão dificuldades para sair do congresso ao término da votação e ainda convocou os militares e os simpatizantes da causa para sitiarem o congresso nacional no dia do pleito, num claro intuito de intimidar os parlamentares votantes. Esse é o tipo de democracia que eles querem instituir no país, mas haverá forte resistência. Os que outrora eram excluídos, hoje estão mais fortalecidos e não abrirão mã o de lutar pela inclusão que lhes possibilitou acesso a um pouco mais de dignidade e que deve continuar possibilitando a outros o mesmo benefício.

É bom que uma parte da sociedade esteja revelando a sua verdadeira face nesse momento político que atravessa o pais. É bom que algumas caras e bocas, ricas, bem nutridas, perfeitas e aparentemente do bem, apareçam na foto sem maquiagem ou foto shop para que possamos identificar com clareza as suas rugas (e rusgas também) e as suas marcas de expressão mais secretas que eles sempre tentaram esconder, mas que todo mundo sempre soube que estava lá sob diversos cosméticos capazes de fazer mágica e transformar pele de lobo em cútis de cordeiro. É o Brasil mostrando a  verdadeira cara de uma boa parte da nossa elite que é, sempre foi e sempre será fascista, racista, reacionária, absolutista e principalmente covarde.

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