sexta-feira, maio 27, 2022
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‘Queremos ir da resistência ao poder’: Francia Márquez Mina, candidata à Vice-Presidência na Colômbia, busca inédita vitória da esquerda no país

Líder social, feminista, militante antirracista e defensora do meio ambiente, companheira de chapa do Gustavo Petro pode tornar-se primeira mulher negra a chegar ao posto

Ela é a grande revelação da campanha presidencial colombiana. Num país ainda profundamente conservador, a líder social, feminista, antirracista e defensora do meio ambiente Francia Márquez Mina, de 40 anos, obteve mais votos do que os pré-candidatos de centro e direita nas eleições primárias de meados de março, e com um resultado surpreendente (783 mil votos) tornou-se companheira de chapa do candidato à Presidência Gustavo Petro (senador e ex-guerrilheiro), da aliança esquerdista Pacto Histórico, à frente nas pesquisas para as presidenciais do próximo dia 29 de maio.

“Estamos revelando o verdadeiro rosto de uma sociedade racista, patriarcal e classista”, disse Francia em entrevista ao GLOBO, afirmando esperar que o povo brasileiro vote “a favor de sua dignidade”.

O Brasil também vive uma campanha eleitoral muito polarizada, entre o presidente Bolsonaro e o ex-presidente Lula. A senhora acha que o resultado na Colômbia terá impacto na região e, especificamente, no Brasil?

Em primeiro lugar, sou uma mulher afrodescendente, líder feminista e defensora dos direitos humanos. Durante a campanha, tive a oportunidade de conhecer mulheres afrodescendentes do Brasil, que também estão lutando em cenários políticos. O Brasil é um dos países com mais presença de população afrodescendente na América Latina, e se ela abrir espaços na política no Brasil, como estamos fazendo aqui, reconhecendo o racismo sistemático e estrutural, a exclusão, a marginalidade, seria muito importante. Aqui estamos reconhecendo os que eu chamo de “ninguéns”, os que sempre fomos negados, como no Brasil, e claro que um resultado aqui terá influência lá. Primeiro vamos consolidar a paz, porque tivemos avanços, mas hoje as pessoas estão vivendo novamente o conflito armado. Resolver o problema da guerra na Colômbia vai irradiar positivamente para toda a América Latina. Na questão ambiental, existe uma conexão entre Brasil e Colômbia que tem a ver com a Amazônia. Se tivermos uma política de proteção de nossa Amazônia aqui, isso terá impacto lá, porque será feito por um governo de transformação. A questão das drogas também, e nós queremos propor outro caminho. A política de proibição só serviu para que o dinheiro termine nos bancos, mas os mortos são de nossos territórios. Temos de legalizar. Nosso programa de governo é transformador. A luta das mulheres, em termos de nossos direitos, é a mesma das mulheres no Brasil, dos quilombolas. Queremos a terra para que nossos filhos não morram de fome, para que as pessoas vivam com dignidade.

Sua candidatura gerou uma reação conservadora?

Nada aumentou, o racismo estrutural sempre existiu, mas estava acomodado, acobertado. Minha candidatura evidencia esse racismo. Estamos revelando o verdadeiro rosto de uma sociedade racista, patriarcal e classista. Não é fácil ter de viver com tantas agressões, ataques. Se metem com nossa cor de pele, com nossa humanidade, com o fato de ser uma mulher negra. Reconhecer isso já é um avanço.

Qual é sua relação com a política brasileira e o que a senhora espera que aconteça no Brasil?

Mais do que uma vitória da esquerda, ou da direita, espero uma vitória do povo brasileiro, a favor da dignidade, da justiça social, da vida e da paz. Se tivéssemos direitos, não estaríamos nos expondo numa campanha política. Não é fácil sendo mulheres, e menos ainda mulheres negras, fazer uma campanha em meio a um conflito armado. Em menos de um mês, recebi três ameaças de morte. Além de injúrias e calúnias. O presidente do Senado me relacionou com o Exército de Liberação Nacional (ELN), pelo fato de que eu vivi em regiões que padeceram o conflito armado. Tudo o que não é elite, é guerrilha neste país. Assim assassinam líderes sociais e ambientais. A nossa é uma aposta pela vida. Esta é uma luta dos povos historicamente marginalizados. Hoje esses “ninguéns”, como diz [o escritor uruguaio] Eduardo Galeano, os que valem menos do que as balas que os matam, poderemos ter voz para transformar situações de injustiça histórica. Isso é o que importa.

A senhora conheceu Marielle Franco?

Conheci a figura de Marielle depois de seu assassinato. Conheci sua irmã. Mas sempre tive relações com mulheres negras do Brasil, com povos indígenas da Amazônia. Falamos de Marielle Franco, porque a luta das mulheres latino-americanas é uma luta de articulações, o que aconteceu com Marielle acontece aqui na Colômbia todos os dias, com mulheres afrodescendentes, camponesas, das comunidades LGBT. Todos vivemos as mesmas políticas de opressão e morte. Estamos lutando pela vida e por um movimento de transformação.

A senhora é uma ativista ambiental. Como avalia a política do Brasil em matéria de meio ambiente?

Me preocupa o que acontece na Amazônia brasileira, e também na colombiana. Estão queimando ecossistemas fundamentais para a vida, essenciais para a Humanidade. Os governos devem pensar numa política mais cuidadosa, seja esquerda ou direita, muitos continuam estimulando atividades de extração da terra. Temos de pensar num desenvolvimento sustentável.

Qual seria a política de um eventual governo de Petro sobre a Venezuela de Maduro?

Não vamos nos meter na autonomia e na soberania de um povo, a Venezuela terá de resolver seus problemas. Mas existe uma situação de fronteiras latente. Quase 12 milhões de pessoas, entre venezuelanos e colombianos, foram afetados pelos conflitos bilaterais de dois governos. Temos de garantir os direitos das pessoas. Tínhamos uma relação histórica e nossa proposta tem a ver, primeiro, com resolver as brigas e conflitos entre dois países que são irmãos. Colômbia, Venezuela, Brasil, Equador, Peru, são países irmãos. Frente às crises temos de ter um modelo econômico de bem-estar, comum. Resolver o problema do conflito armado na Colômbia, sem dúvida, vai contribuir a desestressar muitos dos nossos conflitos.

Como o Pacto Histórico propõe terminar com a guerra na Colômbia?

Temos de resolver o problema das drogas, e o caminho é a legalização.

A senhora quer dizer a legalização total das drogas?

A legalização da coca e da maconha. Aqui a maconha já começou a ser legalizada, a pergunta é para quem estão concedidas as licenças? As licenças não estão chegando às comunidades que foram vítimas do conflito armado, da política antidrogas e do narcotráfico. Temos de repensar a política de drogas, temos de tirar a gasolina da guerra, porque o narcotráfico financia a guerra e a violência.

A esquerda nunca chegou ao poder na Colômbia. Por que, desta vez, a senhora acha que as chances de vencer são reais?

Como no Chile, e em muitos outros lugares, as pessoas cansaram de sofrer, se cansaram das promessas da elite, das 47 famílias que nos governaram a vida inteira. Se cansaram da guerra, porque continuam matando pessoas todos os dias. As pessoas estão fartas e querem mudanças. Minha candidatura ganha fôlego por isso, porque eu venho desses lugares dos excluídos.

Num eventual segundo turno, serão todos contra Petro e Francia…

Sim, claro, mas veja, eu já estive entre a vida e a morte, o que pode ser pior? O que pode ser pior os atentados que sofremos, as crianças que morrem, não temos nada a perder. Entendemos que a política não se esgota este ano, que esta eleição é parte de uma luta histórica, que a elite não sabe fazer política sem usar a violência, o medo. Que uma mulher negra, empobrecida, venha disputar um lugar que consideravam próprio incomoda. Teremos de trabalhar até o final. Sabemos que vão gastar muito dinheiro para impedir nossa eleição, e nossa esperança é de que o povo nos ajude a ganhar e a começar a escrever uma nova História neste país.

A Colômbia já foi cenário de assassinatos em campanhas políticas. A senhora tem medo?

O medo é o que semearam, sempre. Se nos deixarmos aterrorizar nunca haverá uma mudança. Queremos semear esperança, ir da resistência ao poder. Queremos que a dignidade seja costume, viver saboroso (seu lema).

Seria possível uma relação entre um governo de Petro com Bolsonaro?

Vamos respeitar a autonomia do povo brasileiro. Dialogar em meio às diferenças é parte do caminho, mas isso não significa ser aliados de um governo que violenta os direitos dos povos e da natureza.

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