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Querida “patroa” Branca

Querida “patroa” Branca

Apesar de não compreender muito bem o que faz com que alguém se sinta a vontade para expor a imagem de seus funcionários, vou relevar essa instância de abuso por entender que, por você ser artista de TV, o conceito de privacidade possa ter se perdido ao longo da sua trajetória. No mais, fica a dica: não é nada legal tentar se promover como boa patroa expondo a imagem de seus funcionários. Por mais felizes e satisfeitos que estes possam estar com suas funções, a relação entre chefe e empregado não é uma onde o segundo possa dizer não, despreocupadamente, ao primeiro.

Por Leopoldo Duarte Do Portal Fórum

Como você demonstrou genuína surpresa com as críticas que recebeu, também se faz necessário comentar: não é porque você trata suas babás com respeito e dignidade que as demais pessoas deveriam parabenizá-la. Você não faz nada além da sua obrigação. Não só por questões legais, mas, principalmente, porque essa é a melhor maneira de tratar outros seres humanos. Pensei que alguém que faz tanta questão de projetar uma imagem “paz e amor” saberia disso.

Agora vamos aos fatos que denunciam a sua enorme ingenuidade e iletramento racial… O simples fato de você se envaidecer por adotar uma postura que deveria ser banal – como tratar empregados como seres humanos -, é flagrante da herança escravocrata na nossa cultura. Esperar que a reprodução de uma imagem –  digna de Debret – não gere críticas é risível, para não dizer deplorável. Caso você não saiba, a comunidade negra está cansada de só se reconhecer na mídia  – a mesma que tanto exalta a sua loiritude – , exclusivamente através de papéis subservientes a protagonistas brancos. E se você não vê problemas nisso, deve ser porque, mesmo que inconscientemente, está acostumada demais a associar pessoas não-brancas à criadagem para visualizar a raíz do problema .

A problematização suscitada pela Tatiana Godoy não foi feita pra causar polêmica ou gerar audiência, ela veio de uma crescente indignação da nossa população negra. Acusá-la de oportunismo não só deflagra toda a sua insensibilidade com a opressão racial que construiu esse país, como a magnitude da sua hipocrisia. Lembre-se que quem achou que seria legal postar no insta as empregadas bem vestidas foi você. E como não vejo quais benefícios elas teriam em ser reconhecidas na rua como suas funcionárias, deduzo que quem esperava angariar likes e seguidores foi você.

Confesso que inicialmente eu ia deixar passar esse episódio em branco, mas depois de ter lido a sua resposta à Tatiana não pude me calar. Orgulhosamente alegar que “elas convivem com nossa família, comemos na mesma mesa, conversamos e trocamos confidências como amigas e ainda as remunero muito bem. Sem queixas, nem crises por parte de ninguém”, apesar da sua clara intenção de apaziguar seus detratores não poderia ter ido mais pela culatra. Não é porque suas amigas-madames tratam a vassalagem com desdém e ignorância, que você deveria ser elogiada por não reproduzir esse incomensurável erro. Remunerar bem as pessoas nas quais você confia para criar seus filhos não te faz um patroa  melhor, nem tampouco o fato de você compartilhar momentos da sua vida com quem cuida de seus pequenos. Nada disso te torna elegível a um Nobel da Paz nem nada parecido. Novamente: Você não faz nada mais que sua obrigação ao tratar seus empregados como seres humanos, porque – adivinhe só – eles são. E merecem o mesmo respeito que você oferece a seus colegas de trabalho e aos responsáveis pelo pagamento de seu salário na TV.

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Imagino que nada do que eu diga aqui será capaz de abalar o racismo cego de alguém que constantemente evade o debate sobre o assunto. Porém, espero que entenda que pessoas não-brancas não desfrutam do mesmo privilégio de fingir não enxergar uma realidade que nos afeta cotidianamente.

Sinceramente espero que você tenha aprendido algo com essa polêmica, mas por lembrar como você evadiu esse mesmo debate no ano passado ao dizer: “Só porque eu sou branquinha?“, imagino que, mais uma vez, você deixará passar a chance de aceitar que a pauta combatida não gira ao redor do seu umbigo. No mais, se não for exigir além da boa vontade dos membros da Casa Grande 2.015, recomendo à sinhá –  que cantou “Cada Macaco no Seu Galho” em seu programa depois de ter sido envolvida em uma polêmica entre a FIFA e o Movimento Negro – , que evite futuros constrangimentos e se conscientize. Pois, de uma coisa você e os seus podem estar assegurados, silenciamento e racismo: não passarão!

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